Brasil nunca se preparou devidamente contra a Covid, diz Miguel Nicolelis ao GGN

"Você só ganha a pandemia indo de encontro ao vírus. Você não ganha nos hospitais. Para quebrar a taxa de transmissão, tem que quebrar a infecção de uma pessoa para outra"

Jornal GGN – O Brasil “nunca se preparou devidamente” para combater a pandemia de coronavírus. Nem com o general Eduardo Pazuello no comando do Ministério da Saúde, nem com Nelson Teich, nem com Luiz Henrique Mandetta – “que foi um blefe total”. Não há como superar a crise sanitária provocada pela Covid-10 sem um plano nacional para romper com as cadeias de transmissão do vírus. Essa é a opinião do neurocientista e coordenador do comitê científico do Consórcio Nordeste, Miguel Nicolelis.

Em entrevista exclusiva ao GGN, na tarde de segunda (21), Nicolelis  disse que “só se ganha a pandemia, como Oswaldo Cruz bem mostrou em 1904, indo de encontro ao vírus. Você não ganha nos hospitais, nem na UTI. Para quebrar a taxa de transmissão, tem que quebrar a infecção de uma pessoa para outra.”

Nesse sentido, fazendo a ponte entre cientistas e os governadores do Nordeste, Nicolelis propôs, em nome do comitê científico, a criação de “brigadas emergenciais de saúde, que armadas dos relatórios digitais que fazemos, iriam para as vizinhanças identificar os casos [de coronavírus] com georreferenciamento. Você consegue ali diagnosticar quem precisa fazer isolamento, quem precisa ir para a UPA, quem é assintomático e precisa ser isolado. Isso quebra a cadeia de transmissão.”

Mas, segundo Nicolelis, “isso deveria ter sido um esforço nacional, ter um comando central, de um Estado maior de combate à pandemia nacional, o que o Brasil nunca teve. O Brasil não teve nada disso, nem quando Mandetta estava lá. Mandetta foi um blefe total, na minha opinião. O Brasil nunca se preparou devidamente e estamos pagando disso em vidas.”

Nicolelis começou em março e deve apresentar nas próximas três semanas os resultados de um estudo sobre a interiorização do coronavírus pelo Brasil, a partir da análise das malhas rodoviárias. Segundo ele, se os governantes tivessem olhado para esses dados com cuidado, e imposto bloqueios seletivos nas vias indicadas, a velocidade da transmissão da Covid-19 seria outra. Agora, “a interiorização está feita. Essa batalha já foi perdida também.”

“Todos os estados brasileiros estão em alto risco. Não tem ninguém fora da chuva. O País é continental, têm várias epidemias simultâneas, em diferentes tempos, e elas se comunicam pela malha rodoviária, que começamos a estudar em março. E um dos estudos que estamos terminando aponta que o delay, o retardo do Centro-Oeste ou da reunião Sul não é porque teve alguma mágica, nada disso. Foi porque o fluxo rodoviário dos meses de verão, que sai de São Paulo (que é a cidade super spreader do Brasil), o fluxo dominante é para o Nordeste. O pessoal vai atrás do sol, carnaval, praias no verão. O fluxo que vai para o Sul é muito menor.”

Ao analisar não só a ocupação de leitos nos hospitais, mas “de onde vem as pessoas que estão internadas nas capitais”, Nicolelis encontrou dois fenômenos que chamou de “boomerang” (o movimento de ir e vir dos interioranos) e “ciclone” (referente à retroalimentação desse ciclo).

“As pessoas infelizmente morrem nas capitais. Quando você traz alguém infectado grave do interior para a capital, você corre o risco de infectar mais pessoas na capital de novo. E como não houve um bloqueio seletivo das rodovias no Brasil, como foi feito na China, que deveria ter sido feito, esses casos migram de novo para o interior.”

Segundo ele, a análise de mapas rodoviários que ligam o Nordeste ao Sudeste mostram que as BR-101 e a BR-116 foram as rodovias por onde mais circulou o coronavírus.

“Segundo esse trabalho que estamos terminando, claramente as rodovias foram os espalhadores, e os estados que fizeram barreiras sanitárias, como o Piauí, logo no começo, têm o melhor resultado nesse instante.”

Assista à íntegra da entrevista abaixo:

 

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