21 de junho de 2026

Entrevista: Valores e comportamentos sociais são os principais fatores para divisão política no Brasil

"A grande divisão política, aquela que é estatisticamente significativa, está nos valores", diz Felipe Nunes, da Quaest, à TVGGN. Assista
Reprodução automática/YoutubeTVGGN

A polarização política no Brasil está cristalizada e mais do que discutir visões sobre a economia ou o papel do Estado no desenvolvimento da Nação, o que mais explica a divisão do eleitoral entre Lula e Jair Bolsonaro são os valores morais, a religião e os comportamentos sociais. É o que explica ao GGN o diretor da Quaest Pesquisas, Felipe Nunes.

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“O que realmente me chama a atenção é que quando a gente contrasta dados como esse sobre a visão econômica das pessoas, sobre o papel do Estado na economia, com sobre os valores, atitudes e comportamentos sociais, a gente percebe que a grande divisão política do Brasil, aquela que é estatisticamente significativa, está nos valores”, disse Nunes durante entrevista ao jornalista Luis Nassif.

Confira a entrevista e assista ao vídeo abaixo:

Luis Nassif: Quando você analisa a questão da religião, a católica ainda é majoritária (48%), ante 28% de evangelicos. Mas ainda tem um conservadorismo e uma direita católica forte também, não é?

Felipe Nunes: Tem sim, Nassif. Venho estudando desde 2018 que além da divisão política brasileira, é preciso compreender as raízes dessa divisão social que aos poucos vai tomando conta do Brasil. E nesse trabalho de investigação para compreender a divisão social que o Brasil possui, a dimensão religiosa ganhou um atributo super relevante, não só porque católicos e evangélicos têm hoje visões de mundo, preferências políticas e interesses distintos, mas mais do que isso, porque dentro desses dois grupos há uma certa heterogeneidade que precisa ser explicada.

Os católicos conservadores e os evangélicos, principalmente neopentecostais, têm comportamentos muito parecidos do ponto de vista político, foram eles que deram, por exemplo, amplo apoio a Jair Bolsonaro na eleição do ano passado. Já os católicos da chamada renovação carismática e os evangélicos, que chamamos de tradição clássica, presbiterianos, batistas, acabaram tendo um apoio diferente, foram eleitores que optaram pela visão de mundo que o Lula representava na eleição do ano passado. Então mais interessante do que a divisão católica e evangélica, é a gente adensar esse debate e compreender como os valores dentro de cada denominação religiosa acabam impactando no comportamento das pessoas, e claro, tendo reflexo nas eleições. 

Nassif: Em alguns temas econômicos que são abordados, a gente vê uma identidade muito interessante entre o bolsonarismo e a chamada grande mídia. Por exemplo, sobre empresas públicas de água e esgoto serem privatizadas, 58% dos bolsonaristas acham que têm que ser, enquanto para os lulistas, apenas 41%. Isso está ligado a essa visão antiestado da ultradireita americana ou à influência dos grupos de mídia com toda a desconfiança que eles têm com relação à mídia? 

Nunes: Acho que é uma mistura desses dois elementos, Nassif. Olhando para esses dados, o que realmente me chama a atenção é que quando a gente contrasta dados como esse sobre a visão econômica das pessoas, sobre o papel do Estado na economia, e também contrasta esses dados com informações sobre os valores, atitudes e comportamentos sociais, a gente percebe que a grande divisão política do Brasil, aquela que é estatisticamente significativa, está nos valores.

Essa diferença que você apontou passa despercebida quando a gente compara com outros indicadores, por exemplo, sobre o comportamento sexual das pessoas, sobre a posição de como os filhos têm que ser criados, do local onde os filhos deveriam estudar, ou seja, é muito interessante como essa divisão política tradicional que pautou a polarização de PT e PSDB durante tanto tempo, e que marcava essa ideia de privatização e papel do Estado, hoje ela está menos relevante na hora de determinar o comportamento das pessoas quando comparado com valores. 

Nassif: Quando você analisa cassinos e jogos de aposta, você tem uma igualdade. 68% dos lulistas são desfavoráveis, e 67% dos bolsonaristas também são contra. É um problema de saúde pública, de organização criminosa, e os cassinos virtuais invadiram o país, está nos principais jornais, deram um bypass tremendo. 

Nunes: Esse assunto ainda precisa ser debatido com o governo, porque ou a gente tratará com hipocrisia, como se nada tivesse acontecendo, ou a gente vai enfrentar de uma vez por todas o que a sociedade brasileira quer. Enquanto a grande maioria dos brasileiros é contra qualquer tipo de legalização dos jogos, o campeonato de futebol brasileiro, os times de futebol, a grande imprensa, está toda financiada por uma indústria que está injetando no país aproximadamente 4 bilhões de reais com projeções nos próximos anos, e o governo sem arrecadar um centavo porque os cassinos são todos colocados nas ilhas de offshore da Colômbia, de Malta, etc. Ou seja, esse é um assunto que precisa ser debatido, não podemos enfrentá-lo como estamos fazendo. Um dos motivos pelos quais eu incluí esse tema foi justamente para provocar esse debate.

Nassif: Em relação ao aborto, a questão não é sobre ser legalizado, é sobre ser criminalizado ou não. Se mudar a pergunta, muda o percentual? 

Nunes: A gente já testou as duas formulações. No caso da legalização, fica muito claro que a gente fala muito da divisão política brasileira, mas em alguns temas, há uma unidade dos dois polos, o aborto é um deles, e, a questão das armas. No caso do aborto, a grande maioria discorda da legalização e no caso das armas, a grande maioria discorda da sua liberação. Quando mudamos para criminalização, percebemos uma menor intensidade no debate, mas a direção é a mesma, o grau de concordância é o mesmo.

Nassif: É interessante essa questão moral. Esse ponto de você ter grandes redes de televisão cobrindo o Brasil inteiro, tem um padrão moral da rapaziada do Leblon, da Paulista, que é repercutido nos rincões onde os princípios morais e a questão familiar é bem diferente, não é? Isso foi um dos fatores que provocou o choque contra a Globo, apesar de ter ajudado no Impeachment. 

Nunes: Esse é um ponto importante, no livro que estou escrevendo com o jornalista Thomas Traumann, sobre o processo de calcificação política do Brasil, a gente reflete sobre essa questão que chamamos de ecossistema enviesado no Brasil.

É a primeira vez que está muito bem demarcado o local de informação onde as pessoas mais se informam sobre política e a sua posição ideológica. Os eleitores de Lula confiam mais na televisão, e os eleitores bolsonaristas buscam mais informação em blogs, sites e redes sociais. Há uma completa dissociação entre os dois mundos, o que permite que cada um viva sua própria realidade, com seus próprios valores e princípios. Agora, o que você traz, é que mesmo dentro desses dois mundos, há muita heterogeneidade.

O Nordeste e o Sudeste brasileiro, mesmo você tendo a maioria (lulistas) buscando a televisão, dependendo do grau de escolaridade você tem impactos diferentes do uso de internet, mídias sociais. E no caso bolsonarista, isso é mais homogêneo, devido à maneira com a qual se informam, isso dá a eles maior força na divulgação, distribuição de vídeos, fake news e afins. Então esse ecossistema enviesado é o que está provocando esse choque de gente que não consegue mais conversar, o que permanece são as versões, que estão gerando essa polarização que estamos vendo.

Nassif: Você acha que o afastamento do Bolsonaro, redução da visibilidade dele ou derrota, podem reverter um pouco uma parte do público que não é bolsonarista raíz ou essa radicalização vai prosseguir?

Nunes: Antes de responder sobre o bolsonarismo, precisamos lembrar que a sociedade brasileira está organizada sob a divisão do petismo e antipetismo. O PT é a força principal desse sentimento que é representado pelo Lula mas já foi representado por outras lideranças políticas, e o antipetismo já está organizado de maneira mais fluida, já foi dominado pelo PSDB (São Paulo e Minas), e depois pelo bolsonarismo.

Bolsonaro levou esse sentimento antipetista ao extremo. O grande desafio é numérico: o bolsonarismo e o Bolsonaro controlam algo entre 20 e 25% do eleitorado brasileiro, praticamente ¼ se identifica com esses valores. Para que a direita moderada volte a colaborar com o petismo do outro lado, seria preciso organização, e que essa direita democrática voltasse a ter capacidade de dialogar com o centro e com isso ampliar o espectro de atuação para ganhar mais do que os 25% que o Bolsonaro já tem. É um desafio, não é simples. Mesmo sem o Bolsonaro, a minha estimativa é de que esse sentimento bolsonarista continuará sendo relevante para dominar esse antipetismo. 

Nassif: Como você vê o petismo sem o Lula?

Nunes: Vale lembrar que dentro do antipetismo não tem só bolsonarista. Eu divido o eleitorado brasileiro em oito grandes grupos. Do lado de Bolsonaro, temos os fascistas; ruralistas; conservadores e empreendedores. São quatro categorias, alguns mais radicais, outros mais moderados, e todos unidos em torno da ideia de não deixar o PT voltar ao poder. Do lado lulista, também há outros quatro grupos: o petista partidário, os eleitores progressistas, tem o que chamo de área de Sudene (eleitorado mais pragmático influenciado, que vai do Norte de Minas até o Ceara) e liberais. O grande desafio dos dois blocos é justamente mantê-los unificados, para que o combate na próxima eleição se dê mais ou menos em torno dessa mesma temática. O componente na esquerda sem o Lula terá de ser capaz de juntar o petismo com esses outros elementos. Não é tarefa fácil, mas o PT vem se mostrado um partido muito eficiente em se transformar no principal partido para organizar essa disputa entre esses grupos.

Nassif: Há o grupo dos milionários, eles articulam, financiam movimentos, contam com influenciadores, aqui tentaram lançar o Novo. A gente vê de parte dos milionários no Fórum Econômico Mundial que esse modelo da ultra exploração, financeirização que levou à ultradireita. Aqui no Brasil dá para se ter uma ideologia do milionário brasileiro ou são todos padrão Americanas/Jorge Paulo Lemann?

Nunes: Que eu me recorde não há uma pesquisa específica para esse grupo, mesmo em pesquisa de opinião, é um grupo que está cada vez mais localizando suas preferências. Dá para vermos uma diferença, esse grupo era mais silencioso e hoje está disposto a debater o Brasil sob a sua ótica. Não me parece ser um grupo homogêneo, temos diferentes visões ali dentro e nomes importantes que estiveram de um lado ou do outro na campanha. Mas tem algo que os unifica e que talvez seja um desafio para a sociedade brasileira, a nossa elite tem. em alguns casos. pouca identidade com projeto nacional. e isso está cada vez mais chegando na base. Vemos uma crescente influência em torno da ideia de aceitar que a cultura brasileira seja dominada pela cultura internacional. Então, sem julgamento de valor, os rumos de uma nação dependem de como sua política econômica lidam com os interesses que têm para a produção de uma cultura nacional. 

Nassif: Em relação ao agronegócio versus ruralistas, você vê diferenças? Tem um agro mais preocupado com o meio ambiente em função dos reflexos no mercado europeu, mas quando se fala em ruralistas junto com armamentistas e quando se vê que a maior parte do financiamento dessas invasões veio de Mato Grosso, como eles se organizam? São apenas selvagens em torno de uma ideia vaga?

Nunes: Eu acho que o que mudou nesse grupo, que deu aos ruralistas uma maior posição de destaque esse ano e no ano passado durante o governo Bolsonaro, é que eles de fato, se sentiram representados pelo bolsonarismo. Foi a primeira vez que eles votaram em um candidato que os representasse. O PSDB na época era a melhor coisa que eles tinham para derrotar o PT, mas nunca fui um partido que de fato dialogou com essa base social. O bolsonarismo não, a agenda de armas por exemplo, dialoga diretamente com o público. E é bem interessante, porque o Bolsonaro com todos os seus erros e problemas conseguiu trazer à tona uma representatividade de grupos sociais que estavam adormecidos desde o final da ditadura militar e isso está ligado a conexões sociais que eles têm no mundo do interior do país, o que eu chamo de cultura sertaneja. Há empresários do agro preocupados com a questão do Green New Deal, que é a nova economia sustentável que pode explorar e ao mesmo tempo cuidar e proteger, mas tem uma turma que não, que possui uma visão bem diferente em relação a isso. E é muito interessante perceber que essa visão de mundo diferente e diversa que está pautando as diferenças políticas e os diferentes interesses representados no Congresso. 

Assista:

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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2 Comentários
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  1. Paulo Roberto cardoso gil

    22 de fevereiro de 2023 8:17 am

    Classe Dominante:Escragista, Predatória e Rentista.Classe Media:Nepotismo,Fisiológicas, Mamateiras(perdulicarios,funcionário fantasma,funcionários laranjas e Esquema (lavagem de dinheiro e sonegação de imposto e tributos), sim é uma questão de valores,hábito e costume.Sim o Inominável os Representa.

  2. Jessie Jane Vieira De Sousa

    22 de fevereiro de 2023 10:07 am

    Me parece que Nunes se engana em relação à Renovação Carismática. Este segmento do catolicismo nasce em contraposição à Teologia da Libertação e se tornou um dos nichos importantes do reacionarismo católico. A Rede Vida fez campanha para Boldonaro e se colocou abertamente contra o bispo de Aparecida.
    Renovação Carismática tem alianças programáticas com evangélicos neopentencostais. As chamadas igrejas protestantes históricas estão divididas mas são majoritárimentes bolsonaristas. Lembrando que Damares é Batista, da igreja do pastor Valadao.

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