Catta Preta pediu socorro a procuradores de Curitiba antes de abandonar a Lava Jato e sair do País, mostra Spoofing

Cintia Alves
Cintia Alves é graduada em jornalismo (2012) e pós-graduada em Gestão de Mídias Digitais (2018). Certificada em treinamento executivo para jornalistas (2023) pela Craig Newmark Graduate School of Journalism, da CUNY (The City University of New York). É editora e atua no Jornal GGN desde 2014.
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Advogada de delatores, Catta Preta apelou a Carlos Fernando e Deltan Dallagnol para proteger sua família; leia as mensagens

Um dos casos que mais causou rebuliço no início da Operação Lava Jato diz respeito à renúncia a diversos mandatos de defesa por parte da então advogada criminalista Beatriz Catta Preta, que vinha ganhando protagonismo fechando acordos de delação premiada com a força-tarefa de Curitiba. Ela foi responsável, por exemplo, pela primeira delação da Lava Jato, a de Paulo Roberto Costa.

Em 2015, após negociar pelo menos outras oito colaborações e faturar milhões de reais em honorários, ela decidiu fechar o escritório e ir morar no exterior alegando ter sofrido “ameaças veladas” por parte de interlocutores de congressistas que seriam implicados nas investigações por seus clientes. Entre eles estaria Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados.

Agora, nove anos após sua saída repentina da Lava Jato, diálogos apreendidos pela Operação Spoofing e acessados pelo Jornal GGN revelam que Catta Preta chegou a pedir socorro aos procuradores de Curitiba antes de tomar a decisão de abandonar a própria carreira para proteger a si e sua família.

A conversa – leia ao final – confirma que a advogada não só tinha medo das ameaças que recebeu para não depor à CPI da Petrobras, como teria se oferecido ao então procurador Carlos Fernando dos Santos Lima para relatar extraoficialmente os casos de “violência” dos quais seus algozes seriam “capazes”.

Carlos Fernando: O seu receio é o de comparecer à CPI?
Beatriz Catta Preta: Também, a mesma pessoa está soltando as mentiras na imprensa e alimentando a CPI, para os interesses de uma pessoa só. Sei do que são capazes e relato a violência a vocês de forma extra oficial.

Além das alegadas ameaças, Catta Preta também demonstrou preocupação com a possibilidade de virar alvo da CPI. “Não posso ser transformada em investigada.”

Na troca de mensagens, os procuradores conversaram sobre as razões que teriam levado Catta Preta a abrir mão das defesas. Carlos Fernando chegou a mencionar que, além da pressão da CPI, o marido de Catta Preta também teria “problemas”, e advertiu aos colegas: “Por isso insisto sempre que devemos ficar de fora da escolha do advogado. Isso sempre é complicado.” A frase confirma o que por muitos anos foi denunciado na Lava Jato: que procuradores selecionavam ou barravam defensores de alguns réus.

O pedido de ajuda

Beatriz Catta Preta em entrevista aos Jornal Nacional

Os apelos de Catta Preta aos procuradores de Curitiba ocorreram um dia após ela anunciar o encerramento de sua carreira em uma entrevista ao Jornal Nacional, em 30 de julho de 2015. Carlos Fernando expôs no grupo com os colegas a mensagem recebida por ela no dia 31.

“Preciso de proteção a mim e minha família. A insistência do Presidente da CPI em me ouvir é encomendada. Mesmo com o Supremo dizendo que não devo falar à CPI, ele está dando declarações de que manterá minha convocação. Sou apenas uma advogada. Não posso ser transformada em investigada. Se permitirem minha ida à CPI, eu e minha família não teremos mais espaço neste País”, escreveu Catta Preta.

“Não tenho proteção ou segurança. Jornalistas estão amedrontando todos os meus familiares. O que está acontecendo é pessoal. Preciso realmente da ajuda da PGR [Procuradoria-Geral da República]”, concluiu. Carlos Fernando, por sua vez, prometeu encaminhar o caso à PGR.

Além de Carlos Fernando, Deltan Dallagnol também teria recebido as mensagens privadas de Catta Preta.

Em 2016, o jornalista Lauro Jardim revelou o teor de uma conversa privada entre Catta Preta e os investigadores da Lava Jato. Ela relatou ter se sentido ameaçada pelo doleiro Lúcio Funaro, tratado pela Lava Jato como operador de Eduardo Cunha, ao chegar em casa e vê-lo sentado no sofá brincando com seus filhos. Funaro era ex-cliente de Catta Preta e, por isso, teve acesso a sua intimidade.

Confira trechos da Spoofing abaixo:

26 Jul 15
11:58:28 Orlando SP Cf, o q Catta preta disse a vc para renunciar aos mandatos?
13:02:55 O que ela me perguntou foi se haveria possibilidade de reavaliar as condições do Júlio sem quebrar o acordo.
13:03:56 Ela disse que não queria ser advogada do Júlio se fossemos pedir a rescisão do acordo.
13:05:28 Disse a ela que enquanto não ajuizassemos um pedido de justificação, seria sempre possível um novo acordo.
13:05:36 Orlando SP Ok. Welter, vi q vc enviou o meu e-mail sobre Leonardo para o adv dele!!! Aquele em q digo q Leonardo “parece q vende mais do que
tem”!!!
13:06:07 Orlando SP Qual o motivo da renúncia ?
13:06:19 Orlando SP Pressão?
13:07:00 Athayde Vamos precisar do augusto em breve no caso angra. Ele pagou uma das intermediarias. Pelo q sei ele ta sem adv, ne?
13:08:40 Nem ideia. Mas realmente ela tinha o marido por trás. Ela chegou a me dizer que ela é o marido insistiam para que Júlio dissesse a verdade.
13:09:16 Creio que foi a manobra do Congresso, fora o marido ter problemas.
13:09:56 Por isso insisto sempre que devemos ficar de fora da escolha do advogado. Isso sempre é complicado.

30 Jul 15
19:40:52 Diogo Catta Preta deu entrevista para o JN. Disse que foi ameaçada pelo Eduardo Cunha

1 Jul 15
13:36:2
4 Dr., bom dia. Preciso de proteção a mim e minha família. A insistência do Presidente da CPI em me ouvir é encomendada. Mesmo com o Supremo dizendo que não devo falar a CPI ele esta dando declarações de que manterá minha convocação. Sou apenas uma advogada. Não posso ser transformada em investigada. Se permitirem minha ida à CPI, eu e minha família não teremos mais espaço neste País. Isso é uma atrocidade! Tenho filhos pequenos, que por conta das declarações deste Sr. estão sendo apontados e discriminados na escola e pelas famílias dos amiguinhos. Não tenho proteção ou segurança. Jornalistas estão amedrontando todos os meus familiares. O que está acontecendo é pessoal. Preciso realmente da ajuda da PGR.
13:36:40 Recebido de Catta Preta.
13:46:16 [31/7 13:36] carlos fernando: Vou encaminhar para a PGR. [31/7 13:36] Beatriz Catta preta: Foi para o Sr , Dr douglas e Dr Deltam , voces precisam me ajudar , tem nome e sobrenome, objetivo e motivo. Estou presa minha casa , em SP , tenho receios de sair , preciso de ajuda! [31/7 13:40] carlos fernando: É preciso delimitar exatamente o que acontece. O seu receio é o de comparecer à CPI? [31/7 13:42] Beatriz Catta preta: Tambem, a mesma pessoa esta soltando as mentiras na imprensa e alimentando a CPI, para os interesses de uma pessoa só. Sei do que sao capazes e relato a violencia a voces de forma extra oficial [31/7 13:42] Beatriz Catta preta: O Dr Figueredo não esta errado nos memoriais que apresentou na defesa do Julio.

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Cintia Alves

Cintia Alves é graduada em jornalismo (2012) e pós-graduada em Gestão de Mídias Digitais (2018). Certificada em treinamento executivo para jornalistas (2023) pela Craig Newmark Graduate School of Journalism, da CUNY (The City University of New York). É editora e atua no Jornal GGN desde 2014.

7 Comentários

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    1. Por que demorou tanto para que fosse vazado uma conversa que, por questões de corporativismo do judiciário e da política golpista da época, não mudaria absolutamente nada?

  1. Dizem que cada país tem um líder que merece, o Brasil realmente merece Jair bolsonaro e Lula da Silva um país de corruptos e covardes

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