Cinco perguntas para a economista Fernanda Cardoso

Atua principalmente nos seguintes temas: Desenvolvimento Econômico, História Econômica Brasileira e História do Pensamento Econômico.

da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia

Cinco perguntas para a economista Fernanda Cardoso

1 Keynes versus o Liberalismo

No artigo “Para além de Keynes: Kalecki, complexidade e subdesenvolvimento”, para a Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política, você nos conta que “Keynes encarava o sistema econômico como um todo orgânico complexo; também por isso, não acreditava na infalibilidade do sistema de mercado para garantir resultados econômica e socialmente desejáveis. Além disso, o princípio da demanda efetiva, em contraposição à Lei de Say, implica uma dinâmica imprevisível e com resultados em aberto, tornando a tarefa do planejamento, feitura de políticas econômicas e elaboração de estratégias de desenvolvimento ainda mais complexas”. [O link para o artigo aqui]

No mesmo artigo você nos ensina que “Kalecki, além de ser considerado pioneiro do desenvolvimento econômico (…), é, ao lado de Keynes, o precursor de uma abordagem de teoria econômica crítica ao mainstream, fundadora da macroeconomia moderna e base da abordagem macroeconômica heterodoxa subsequente”.

Você poderia nos falar sobre esse nascimento de uma corrente de pensamento econômico crítica à escola clássica, ortodoxa, dominante? Poderia falar sobre alguns pontos de divergência entre as duas correntes? Essas escolas e suas divergências ainda persistem?

2 O estruturalismo sul-americano versus Keynes

No artigo “Retomando o Estruturalismo para interpretar a desigual América Latina no século XXI”, escrito por você, em parceria com a professora Cristina Fróes de Borja Reis, para a revista da Associação Keynesiana Brasileira, vocês dizem que, em 1930, Keynes afirmou que “dali a cem anos o problema econômico seria resolvido. A jornada de trabalho seria de 15 horas por semana, em uma sociedade mais justa e igualitária, em que o lazer seria uma preocupação primordial – a arte do bem viver. Para curar os males e resolver o problema econômico, seria necessária a atuação do Estado por meio de políticas econômicas para manter crescente e estável a demanda agregada, promovendo redistribuição para direcionar o sistema econômico para um resultado socialmente desejável.” [ O link para o artigo aqui]

As coisas não saíram exatamente como ele previu. Vocês continuam: “apesar dele [Keynes] ter deixado importantes lições para as economias em desenvolvimento, a periferia não era o seu foco”. Na América Latina, continuam vocês: “o pensamento cepalino marcou fortemente a análise econômica desde os anos 50, influenciando notavelmente as políticas de governo em diversos países da região até a atualidade. Baseado no método histórico-estrutural, abandona o individualismo-metodológico para compreender como as relações de classe e as instituições formataram e foram formatadas pelo modo de produção que se desenvolveu a partir de um modelo de crescimento liderado pelas exportações de commodities para os países centrais da dinâmica capitalista internacional”.

Você poderia nos contar mais sobre o estruturalismo, o pensamento cepalino, e em que pontos ele se diferencia do pensamento keynesiano?

3 Kalecki versus Keynes

No mesmo artigo “Para além de Keynes: Kalecki, complexidade e subdesenvolvimento”, você afirma que “assim como a contribuição teórica de Kalecki já implicara uma abordagem mais adequada na apreensão do caráter dinâmico e complexo do sistema capitalista – tal como realizado por Keynes -, o mesmo pode ser dito a respeito da sua reflexão específica sobre a emergência, os problemas cruciais e a perpetuação do subdesenvolvimento. E é nesse sentido que Kalecki foi além de Keynes”.

Você poderia nos explicar os pontos em que Kalecki e Keynes concordavam e os pontos em que Kalecki chegou mais à frente?

4 A armadilha do subdesenvolvimento

O professor Chang, em seu livro “Chutando a Escada”, se pergunta: “como os países ricos enriqueceram de fato”. E ele mesmo responde: “a resposta mais sucinta é que eles não seriam o que são hoje se tivessem adotado as políticas e as instituições que agora recomendam às nações em desenvolvimento.”

Você acrescenta que “as nações avançadas, ao diminuírem sua entropia, complexificarem-se e desenvolverem-se, teriam direcionado a sua desordem para os outros sistema nacionais, dificultando o alcance da ordem, do incremento da complexidade e do desenvolvimento nesses – e, portanto criando alguns obstáculos à superação do seu subdesenvolvimento.”

Você poderia aprofundar esse conceito de se desenvolver, se ordenar, e, ao mesmo tempo, transferir desordem para o meio ambiente, ou, para as outras nações?

5 Um novo paradigma

Você acha que estamos na iminência de ver surgir outro paradigma econômico para o lugar desse capitalismo financeiro neoliberal que já dura perto de 40 anos?

Fernanda Graziella Cardoso é professora adjunta e coordenadora do Bacharelado em Ciências Econômicas da Universidade Federal do ABC, é doutora em Economia do Desenvolvimento pelo IPE-FEA-USP (2012), mestre em Economia da Indústria e da Tecnologia pelo IE-UFRJ (2008) e graduada em Economia pela Universidade de São Paulo (2005).

É autora do livro Nove Clássicos do Desenvolvimento Econômico. Em seu canal no Youtube a professora fala sobre esses autores, o link [aqui]

É delegada regional da ABED por São Paulo.

Atua principalmente nos seguintes temas: Desenvolvimento Econômico, História Econômica Brasileira e História do Pensamento Econômico.

Veja o vídeo da entrevista clicando no link a seguir:

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