Como o dinheiro inventa a nação cristã. Lá como cá.
Reginaldo Moraes, julho de 2016
Olhar para o que acontece com os outros às vezes nos ensina a olhar para nós mesmos. Ver o que aconteceu em outros países pode não nos dar respostas a nossos problemas, mas talvez ajude a fazer as perguntas certas.
O que segue abaixo é apenas uma anotação de leitura de um livro que serve a esse fim: Kruse, Kevin M. – One Nation Under God: How Corporate America Invented Christian America, Basic Books; 2016.
O autor questiona uma opinião bastante difundida nos Estados Unidos: a idéia de que aquele pais sempre foi uma ‘nação cristã’. Recupera a origem dessa crença e mostra como foi cuidadosamente engendrada nos anos 1930, como uma espécie de reação de grandes empresários contra o New Deal de Roosevelt, suas reformas econômicas, suas leis reguladoras e políticas sociais.
Naquela ocasião, alguns empresários, eles próprios vinculados a igrejas, sondaram, localizaram e recrutaram ativistas religiosos para lançar campanhas com lemas como “liberdade sob a ordem de Deus”. A campanha, uma longa cruzada, teve sua primeira vitória política importante com a eleição de Ike Eisenhower, em 1952, um presidente alinhado e cultivado por essa corrente organizada. Ike abriu um novo capitulo na relação igrejas-governo. Criou coisas como o National Prayer Breakfast, uma espécie de junção de dia da bandeira com dia de orações. Ao mesmo tempo, o congresso mudou o preambulo da constituição e a famosa Pledge of Allegiance (juramento da bandeira), incluindo a expressão “In God we trust”. A campanha teve outros sucessos, como a enorme incorporação dos americanos ao hábito do culto semanal (passa de uns 20% nos anos 1920 para perto de 70% lá por 1960). A propósito: Ike, que era batista mas nada praticante, foi batizado (ou rebatizado) dentro da Casa Branca, por Billy Graham, que virou uma espécie de guru sempre presente na sede do governo.
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Retomemos essa estória, então. Estados Unidos, anos 1930, recuperação de uma tremenda crise. País sob nova direção: F.D. Roosevelt e seu New Deal. Intervenção governamental nos negócios privados, regulação dos bancos, da indústria, do comércio, leis trabalhistas, politicas de obras públicas, de apoio aos camponeses, etc. Os empresários mais conservadores logo definem o “coletivismo” ou “estatismo” de FDR como uma versão disfarçada ou prenúncio do comunismo. Essa “intuição” dos empresários era compartilhada por muitos pastores protestantes. Esses empresários resolvem investir no desenvolvimento, sistematização e propagação desse discurso religioso e, ao mesmo tempo, aproximando-o ainda mais do discurso político, de classe, deles próprios (cristianismo = capitalismo e capitalismo = cristianismo). Colocam recursos para identificar os pastores ‘bons’ em todo o país, investem na formação de redes, publicações, promoção de eventos, campanhas e rituais. Para desenvolver e propagar a doutrina. Mas também, até para ajudar nessa expansão, eles procuram implantar rituais – exemplo, fazer campanhas publicitárias incentivando comparecimento ao culto regular, semanal, além da participação em eventos mais espaçados, de massa. Também providenciam a conexão dessas redes com lideranças políticas, em todos os poderes e em todos os níveis (local, estadual, federal).
Com o tempo, esse movimento religioso se transforma (deliberadamente, planejadamente) numa espécie de religião civil, um “americanismo” todo especial, em oposição ao comunismo ‘soviético’ e a sua versão sorrateira interna, o “coletivismo” ou “estatismo” do New Deal. Algumas lideranças religiosas se destacam nessa fase da criação do movimento. É o caso do pastor Billy Graham, que mais tarde teria papel fundamental na conexão com o governo federal – com Eisenhower, Nixon, Reagan e Bush pai. Se a memoria não me trai, Graham também foi o ‘salvador’ do Bush filho, resgatando-o do alcoolismo.
O investimento dos empresários foi ativo – e foi essencial. Foi um empreendimento pesado, paciente, organizado. Na verdade, os empresários eram parte integrante da rede religiosa. Eles eram protestantes fundamentalistas. Não apenas financiavam e ficavam de fora. Participavam dos eventos, discutiam sua organização, ativavam mais recrutamentos através de seus grupos de classe, conectavam com os políticos. E ligavam o mundo dos pastores, também, com o mundo da mídia – no começo, do radio e dos jornais e revistas. Mais tarde, da TV. E do cinema, claro. Holywood participou ativamente das grandes manifestações da direita religiosa, de suas campanhas – James Stewart, John Wayne, Bing Crosby, Disney, Rock Hudson, Gregory Pecker. E Cecil B. de Mille, é claro. No intervalo do whisky e da cocaína, eles embarcavam no velho ópio do povo.
E os empresários também facilitaram a integração das igrejas com o mundo da publicidade. A agência Thompson foi contratada para varias campanhas, nas estratégias de marketing que procuravam espalhar a crença de que os valores cristãos eram os únicos que casavam bem com os valores do individualismo capitalista, e vice-versa. A figura de Cristo foi devidamente sequestrada e maquiada para se adequar ao papel.
A progressão do movimento para se transformar numa espécie de religião civil, de fé publica, patriótica, foi se fazendo através de campanhas para a implantação de símbolos e rituais. Por exemplo, a campanha pela introdução da frase “pais livre sob Deus” – o “under god” virou slogan oficial sob Eisenhower. O general também instituiu uma espécie de dia da bandeira misturado com dia de orações, a ser comemorado e preparado inclusive nas escolas. O “in god we trust” também foi incorporado nas notas de dólar. Finalmente, deus chegava ao mercado (ou vice-versa) – a principal ferramenta dos negócios, a moeda, tinha a marca da obediência a deus.
A partir de Eisenhower, os cultos regulares (inclusive os tais breakfasts de oração) se rotinizam, no governo, no Pentágono, nas casas legislativas do pais (inclusive o Congresso Nacional). E a cristianização dos americanos se massificou (a passagem dos 20 para os 70% de frequentadores de culto semanal).
É um movimento de longo prazo, o crescimento de uma ideologia cristã-conservadora-liberal. Deve-se destacar, nesse movimento, o chamado fator subjetivo – a ação organizada de lideranças (pastores, empresários, publicitários, etc). Intelectuais orgânicos. Criaram e elaboraram. Organizaram, administraram. E esperaram as oportunidades, agarrando-as fortemente (como a eleição de Eisenhower). O livro não examina outros fatores que favoreceram o movimento depois de 1980 – como o alinhamento para a direita da igreja católica mundial, a fragmentação econômica (e politica) da classe trabalhadora, por conta da reengenharia das empresas e da sua ‘globalização’, as politicas macroeconômicas que privatizaram, desregularam e financeirizaram tudo, inclusive os detalhes da vida cotidiana (educação, saúde, moradia, previdência, etc.).
Isso ai acima é um pequeno resumo de parte do livro. O objetivo desta resenha é chamar atenção para o nosso caso tropical. Será que tivemos uma cópia reduzida e piorada dessa coisa? Repito, um aspecto interessante do livro é o tal fator subjetivo, a ação organizada. Essa ‘tecnologia’ se apreende. E se exporta, transplanta, com as devidas adaptações e subordinações – para a Ásia, para a América Latina e, mais especificamente, pro Brasil, claro. Não é mera conspiração. É politica (o que inclui, sim, conspirações). A Internacional Reacionária é essa ação politica.
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