29 de julho de 2026

Flávio Bolsonaro é o candidato da ultradireita trumpista, por Gustavo Tapioca

O candidato do PL busca na ultradireita internacional liderada por Donald Trump o apoio que já não encontra na direita brasileira
Imagem gerada por IA

PL lança Flávio Bolsonaro, mas convenção no Pacaembu expõe fragilidades e ausência de lideranças da direita brasileira.
Evento teve apoio de líderes internacionais como Milei, Trump e Netanyahu, destacando dependência de apoio externo.
Críticas da direita liberal e empresários indicam dificuldades internas e reforçam aposta na ultradireita internacional.

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PL lança Flávio Bolsonaro, candidato da ultradireita trumpista  

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Sem conseguir ampliar sua base política no Brasil, o candidato do PL busca na ultradireita internacional liderada por Donald Trump o apoio que já não encontra na direita brasileira 

por Gustavo Tapioca 

A convenção do Partido Liberal (PL), realizada no último sábado no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, deveria marcar a unificação da direita em torno da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Terminou produzindo o efeito contrário. Em vez de simbolizar a consolidação de uma ampla coalizão conservadora, expôs as dificuldades políticas da candidatura logo em seu lançamento. 

A imagem que ficou registrada não foi a de uma direita unida, mas a ausência de parte importante de suas lideranças e o protagonismo de convidados estrangeiros que ocuparam o espaço político deixado vazio dentro do próprio campo conservador brasileiro. 

O presidente argentino Javier Milei transformou-se na principal estrela do evento. Donald Trump e Benjamin Netanyahu enviaram mensagens de apoio. Jair Bolsonaro apareceu como um avatar produzido por inteligência artificial. Ao final da convenção, a impressão dominante era incomum: a candidatura brasileira parecia depender mais da presença de lideranças internacionais da ultradireita do que da mobilização de seus próprios aliados nacionais. 

Essa percepção não ficou restrita aos adversários de Flávio Bolsonaro. 

Nesta terça-feira, 28, o jornal O Estado de S. Paulo, tradicional porta-voz da direita liberal brasileira, publicou um editorial contundente sob o título “Um candidato nanico”. Segundo o jornal, sem apoio consistente do Centrão e sem um discurso próprio, Flávio estaria recorrendo a Trump, Milei e Netanyahu para disfarçar a fragilidade de uma candidatura que existe sobretudo em função do sobrenome do pai. O editorial afirma ainda que o senador “atrelou seu destino como candidato a atores externos” e que essa estratégia tende a fortalecer eleitoralmente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Mais importante do que a dureza das críticas é sua origem. Não se trata de um veículo identificado com a esquerda, mas de um dos jornais historicamente mais influentes entre setores do empresariado, do mercado financeiro e da direita liberal. 

As ausências 

Também chamou atenção a leitura feita pelo jornalista Pedro Doria, na newsletter Meio. Para ele, as ausências de Michelle Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Nikolas Ferreira e dirigentes de partidos que poderiam compor uma ampla aliança conservadora não foram casuais. Representariam um cálculo político. 

Na interpretação de Doria, muitos preferiram não aparecer na fotografia daquele momento porque avaliam que a candidatura de Flávio enfrenta dificuldades maiores do que seus organizadores admitem publicamente. “Aquilo lá era uma sala de espera”, escreveu. “Um monte de gente relevante da direita brasileira sentado, olhando para o relógio.” 

Editoriais e análises não substituem pesquisas eleitorais. Mas ajudam a identificar mudanças de percepção dentro das elites políticas e econômicas. E, nas últimas semanas, esses sinais começaram a convergir. 

Foi nesse contexto que surgiu outro fato politicamente relevante. 

Na plateia, 400 empresários 

Durante evento promovido pelo Lide, o Grupo de Líderes Empresariais, Felipe Nunes, CEO da Quaest, afirmou que a probabilidade estatística de reeleição de Lula havia alcançado cerca de 60%. O dado, isoladamente, não decide eleição alguma. O aspecto mais significativo era o ambiente em que foi apresentado. 

Na plateia estavam cerca de 400 empresários. Na mesa, além de Felipe Nunes, encontravam-se os responsáveis pelo Datafolha, AtlasIntel e Paraná Pesquisas. Mais do que um debate sobre números, aquele encontro indicava que a percepção do cenário eleitoral começava a mudar também entre atores que influenciam alianças políticas, estratégias partidárias e decisões empresariais. 

É justamente nesse ponto que a história começa a ficar mais interessante. 

À medida que crescem os sinais de dificuldade da candidatura de Flávio Bolsonaro para ampliar sua base política no Brasil, aumenta também o peso de sua articulação internacional. Essa talvez seja a principal novidade da eleição presidencial de 2026. 

Não apenas a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. Mas a transformação da política internacional da extrema direita em um dos eixos centrais da campanha presidencial brasileira. 

Até poucos meses atrás, a candidatura de Flávio Bolsonaro seguia o roteiro tradicional de uma campanha presidencial: ampliar alianças, atrair partidos, conquistar governadores, dialogar com o empresariado e construir uma maioria capaz de enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

A convenção revelou outro cenário 

Em vez de apresentar uma ampla coalizão nacional, a candidatura exibiu como principal demonstração de força o apoio de lideranças estrangeiras. Javier Milei ocupou o centro do palco. Donald Trump e Benjamin Netanyahu enviaram mensagens de apoio. O discurso do presidente argentino, marcado por ataques a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, dominou a cobertura do evento muito mais do que as propostas do próprio candidato brasileiro. 

Esse talvez tenha sido o aspecto mais revelador da convenção. 

Não porque candidatos não possam manter relações internacionais — isso faz parte da política de qualquer democracia. O que chama atenção é a inversão de papéis: a dimensão internacional deixou de funcionar como complemento da campanha e passou a ocupar um lugar central na construção de sua legitimidade política. 

Essa mudança coincide com as dificuldades de Flávio Bolsonaro para ampliar sua base de apoio dentro do próprio campo conservador. 

Ela aparece nas ausências do Pacaembu e na reação da imprensa tradicionalmente identificada com a direita liberal. Nos últimos dias, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e outros analistas conservadores passaram a questionar, por razões distintas, tanto a estratégia quanto a viabilidade da candidatura. 

As críticas variam, mas convergem para um mesmo diagnóstico: Flávio Bolsonaro enfrenta obstáculos políticos muito maiores do que imaginava poucos meses atrás. 

Rede internacional da ultradireita 

É nesse contexto que ganha novo significado a crescente aproximação entre o bolsonarismo e a rede internacional da ultradireita. 

Desde o início do ano, a administração Donald Trump intensificou sua atuação em temas relacionados ao Brasil. Tarifas comerciais, críticas ao Supremo Tribunal Federal, manifestações de integrantes do Departamento de Estado e questionamentos sobre o processo eleitoral passaram a integrar um mesmo ambiente político. 

 A tentativa, revelada pela imprensa norte-americana, de enviar representantes ao Brasil para levantar dúvidas sobre o sistema eleitoral — iniciativa barrada pelo governo brasileiro — tornou esse movimento ainda mais explícito. 

Ao mesmo tempo, Steve Bannon com o bolsonarismo como peça importante de sua articulação internacional. Marco Rubio tornou-se um dos principais críticos do governo Lula. Milei transformou sua participação na convenção do PL em um ato político de apoio a Flávio Bolsonaro. E os contatos frequentes do candidato com Trump. 

Observados separadamente, esses episódios poderiam parecer fatos isolados. Reunidos, revelam algo maior: a tentativa de inserir a eleição brasileira em uma narrativa internacional da extrema direita, na qual disputas nacionais passam a ser apresentadas como capítulos de um mesmo confronto ideológico. 

Essa estratégia não elimina as dificuldades internas da candidatura. Procura compensá-las. A questão deixa de ser apenas quem apoia Flávio Bolsonaro dentro do Brasil. Passa a ser por que, justamente quando cresce sua dificuldade de ampliar alianças domésticas, aumenta também sua projeção política no exterior. 

É essa pergunta que ajuda a compreender o verdadeiro significado da convenção do PL. 

A rede internacional liderada por Trump 

Naturalmente, ainda é cedo para prever o resultado da eleição presidencial. Campanhas mudam, alianças se reorganizam e pesquisas registram apenas o retrato de um determinado momento. 

Mas uma mudança importante já pode ser percebida. Até pouco tempo, a principal pergunta da direita brasileira era quem conseguiria unificar o campo conservador para enfrentar Lula. A convenção do PL mostrou que essa resposta continua distante. 

Enquanto setores importantes da direita tradicional hesitam em aderir plenamente à candidatura de Flávio Bolsonaro, sua campanha amplia a aposta na rede internacional da ultradireita liderada por Donald Trump. Isso ajuda a explicar o protagonismo de Javier Milei no Pacaembu, as manifestações de Trump e Netanyahu e o espaço inédito que a política externa passou a ocupar numa disputa presidencial que, em circunstâncias normais, estaria concentrada em temas como economia, emprego, saúde e segurança pública. 

A disputa continua sendo brasileira. Mas a campanha de Flávio Bolsonaro passou a integrar uma narrativa política construída para além das fronteiras nacionais. 

Essa narrativa procura apresentar eleições nacionais como parte de um confronto global contra tribunais, imprensa profissional, organismos multilaterais e governos identificados com o campo progressista. Foi assim nos Estados Unidos, culminando na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Foi assim também na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. 

Soberania nacional 

Essa estratégia produziu, porém, um efeito político inesperado.  Quanto mais a candidatura de Flávio Bolsonaro se identifica com lideranças estrangeiras que intervêm no debate político brasileiro, maior tende a ser o espaço para que Lula apresente sua campanha como uma defesa da soberania nacional. 

Essa talvez seja a maior ironia da campanha de 2026. Ao buscar apoio na ultradireita internacional, Flávio Bolsonaro acabou oferecendo a Lula uma poderosa bandeira política: soberania nacional. 

Se essa estratégia produzirá resultados eleitorais, somente as urnas poderão responder. Mas a convenção do PL talvez seja lembrada menos pelo lançamento oficial da candidatura de Flávio Bolsonaro do que pela estratégia que revelou. 

Diante das dificuldades para ampliar sua base política no Brasil, a campanha passou a apostar cada vez mais na legitimação oferecida pela ultradireita internacional. Se essa aposta será suficiente para alterar o rumo da eleição, ninguém sabe. 

Mas ela já produziu uma mudança inédita na política brasileira. 

A busca de apoio externo deixou de ser um elemento periférico e passou a ocupar um dos eixos centrais de uma candidatura ao Palácio do Planalto. A de Flávio Bolsonaro, o candidato da extrema-direita sul-americana e da ultradireita continental liderada por Donald Trump.  

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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