A ameaça de golpe voltou
por Gustavo Tapioca
O pronunciamento de Flávio Bolsonaro diante de diplomatas estrangeiros de lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro, não foi apenas mais uma crítica ao sistema eleitoral. Foi a reapresentação de uma estratégia política já utilizada em diferentes democracias: lançar dúvidas sobre as eleições antes que elas aconteçam.
Seu objetivo não é provar que houve ou poderá haver fraude. É criar, antecipadamente, um ambiente político em que uma eventual derrota possa ser apresentada como consequência inevitável de uma conspiração das instituições.
A semelhança entre o que ocorre hoje no Brasil e o que ocorreu nos Estados Unidos, em 2020, e no próprio Brasil, em 2022, não está apenas nos personagens nem nas palavras. Aparece no método. Primeiro, planta-se a dúvida. Depois, insinuam-se fraudes sem apresentar provas. Em seguida, questionam-se as instituições responsáveis por organizar e fiscalizar as eleições.
Por fim, caso o resultado seja desfavorável, a explicação já está pronta: a derrota deixa de ser consequência da vontade do eleitor e passa a ser atribuída à manipulação do processo eleitoral.
Não por acaso, um editorial do Estado de S. Paulo observou que Flávio Bolsonaro parece seguir o “manual do golpista moderno”: primeiro lança suspeitas sobre o processo eleitoral; depois afirma que jamais colocou em dúvida sua lisura.
A observação demonstra que esse tipo de estratégia ultrapassa as fronteiras da polarização partidária. O debate deixa de ser apenas sobre preferências eleitorais. Passa a ser sobre a preservação das regras que tornam possível qualquer disputa democrática.
Por que isso reaparece agora?
Por que essa estratégia reaparece justamente na campanha presidencial de 2026? A resposta começa por um fato novo: a eleição brasileira deixou de ser apenas um assunto dos brasileiros.
Uma observação da jornalista Adriana Fernandes, da Folha de S.Paulo, ajuda a compreender essa mudança. Ao relatar conversas com representantes do empresariado, ela registrou uma preocupação que, até pouco tempo, parecia restrita aos meios diplomáticos e a parte da oposição: o receio de um crescente nível de interferência norte-americana na economia e na política brasileiras, a ponto de alguns interlocutores compararem esse risco ao ocorrido recentemente na Venezuela.
A referência à Venezuela não significa que o Brasil esteja vivendo a mesma situação nem autoriza previsões automáticas. Mas indica que atores econômicos relevantes passaram a enxergar uma escalada na pressão política exercida por Washington.
Nos últimos meses, o governo Donald Trump combinou tarifas comerciais, críticas públicas, decisões do STF e manifestações de integrantes de sua política externa sobre assuntos internos brasileiros. O secretário de Estado Marco Rubio transformou o Brasil em tema recorrente de seus pronunciamentos. A questão deixou de ser apenas econômica. Passou a ser geopolítica.
A percepção do risco
O que aconteceu para que isso passasse a ser novamente discutido? Os fatos ajudam a responder. Primeiro vieram as tarifas impostas pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros, acompanhadas de sucessivos atritos comerciais e diplomáticos. Em seguida, multiplicaram-se as declarações de Marco Rubio criticando decisões do STF e questionando medidas adotadas pelo governo brasileiro. Ao mesmo tempo, lideranças ligadas ao trumpismo passaram a tratar a eleição presidencial brasileira como um dos acontecimentos políticos mais importantes da América do Sul. Nada disso parece ocorrer isoladamente.
Desde que retornou à Casa Branca, Donald Trump vem reconstruindo uma ampla rede internacional de governos, partidos e lideranças alinhadas ao seu projeto político. Hoje, toda a América do Sul encontra-se governada por forças de direita ou de extrema-direita. Restam poucas exceções. E apenas um país reúne peso demográfico, econômico, energético, ambiental e geopolítico suficiente para alterar o equilíbrio político do continente. O Brasil.
É justamente essa dimensão estratégica que ajuda a compreender por que a contestação antecipada das eleições reaparece agora com tanta intensidade. Quando a eleição brasileira passa a ser vista como peça decisiva da disputa política sul-americana, a circulação internacional dessas estratégias deixa de ser um detalhe. Passa a integrar o próprio contexto da campanha presidencial.
O roteiro já foi visto
Quem acompanha apenas os acontecimentos das últimas semanas pode imaginar que se trata de mais uma controvérsia eleitoral brasileira. Não é. Esse roteiro já foi utilizado antes. Nos Estados Unidos, Donald Trump passou meses afirmando que somente perderia as eleições de 2020 se houvesse fraude. Antes mesmo da votação, lançou dúvidas sobre o sistema eleitoral, desqualificou autoridades responsáveis pela organização do pleito e alimentou a ideia de que uma eventual derrota somente poderia resultar de manipulação.
Depois vieram as ações judiciais. Todas foram rejeitadas por falta de provas. Auditorias confirmaram o resultado eleitoral. Autoridades republicanas reconheceram a vitória de Joe Biden.
Nada disso foi suficiente para impedir que milhões de eleitores continuassem convencidos de que a eleição lhes havia sido roubada. A invasão do Capitólio, em Whashington, no 6 de janeiro de 2021, não nasceu de um impulso coletivo repentino. Foi o desfecho de uma estratégia construída durante muitos meses. O Brasil conheceu sequência semelhante.
O 8 de janeiro começou muito antes
Em julho de 2022, Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para apresentar acusações contra o sistema eleitoral brasileiro que jamais foram comprovadas. A cena guarda impressionante semelhança com o episódio protagonizado agora por Flávio Bolsonaro diante de diplomatas estrangeiros.
Mudam os personagens. O roteiro permanece. Jair Bolsonaro repetiu inúmeras vezes que as urnas eletrônicas não eram confiáveis e que apenas uma fraude explicaria sua derrota. Quatro anos depois, Flávio Bolsonaro retoma a mesma lógica. Com as mesmas palavras. E com a mesma plateia.
Quando Luiz Inácio Lula da Silva venceu as eleições de 2022, parte significativa do eleitorado bolsonarista já estava convencida de que o resultado era ilegítimo. As manifestações diante dos quartéis e o badernaço de 8 de janeiro de 2023 não nasceram naquele domingo.
Foram precedidos por uma longa campanha destinada a enfraquecer a confiança pública nas instituições encarregadas de organizar e legitimar o processo eleitoral. Essa talvez seja a principal lição daqueles acontecimentos. O problema nunca foi apenas a invasão dos prédios públicos. Ela foi o último ato de um longo processo.
Por isso, quando discursos semelhantes reaparecem, o mais importante não é perguntar se a história irá repetir-se exatamente da mesma maneira. Ela nunca se repete. A pergunta correta é outra: o roteiro voltou a ser encenado? Com que objetivo?
Uma estratégia sem fronteiras
Existe outro aspecto que diferencia a eleição presidencial de 2026 das disputas anteriores. Ela deixou de ser apenas um assunto interno. Nos últimos anos, lideranças do bolsonarismo ampliaram abertamente a articulação com organizações e personagens centrais do universo político ligado ao trumpismo.
Eduardo Bolsonaro tornou-se presença frequente em encontros internacionais da extrema direita e passou a atuar como uma a principais ponte entre o ambiente político do bolsonarismo brasileiro e a extrema direita da América do Sul. Liderada por Donald Trump.
Ao mesmo tempo, integrantes influentes da política externa norte-americana passaram a comentar, com frequência crescente, decisões do STF, investigações envolvendo lideranças bolsonaristas e os rumos da sucessão presidencial brasileira.
Os fatos permitem afirmar que exista uma coordenação internacional destinada a interferir diretamente nas eleições brasileiras. E autorizam também outra conclusão.
Mostram que estratégias, discursos e formas de mobilização passaram a circular internacionalmente entre movimentos de extrema-direita. A contestação preventiva das eleições tornou-se uma das marcas desse repertório político. Ela atravessa fronteiras. Adapta-se às circunstâncias nacionais. Mas preserva a mesma lógica.
Primeiro, enfraquece-se a confiança pública. Depois, questiona-se a legitimidade das instituições. Por fim, caso o resultado eleitoral seja desfavorável, a narrativa já estará pronta.
É exatamente por isso que a eleição brasileira passou a despertar tamanho interesse internacional. O Brasil representa hoje a principal disputa política em aberto na América do Sul. Sua dimensão territorial, econômica, ambiental e geopolítica faz com que o resultado de 2026 tenha consequências muito além das fronteiras nacionais.
É nesse contexto que soberania nacional e integridade eleitoral deixam de ser temas separados. Passam a integrar a mesma discussão.
A democracia se defende
Ao visitar nesta sexta-feira, 24, as instalações da Avibras, empresa estratégica da indústria nacional de defesa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil precisa investir em tecnologia, conhecimento científico e capacidade militar “para não deixar ninguém meter o nariz nesse país”.
Quando uma eleição presidencial passa a despertar o interesse explícito de atores políticos estrangeiros, quando disputas internas deixam de produzir efeitos apenas dentro das fronteiras nacionais e quando estratégias de contestação eleitoral passam a circular internacionalmente, a defesa da democracia deixa de ser apenas um problema institucional.
Passa a ser também uma questão de soberania. Durante grande parte do século XX, imaginava-se que golpes de Estado começavam com tropas nas ruas, tanques diante dos palácios e quartéis em rebelião. O século XXI mostrou outra realidade. Eles podem começar muito antes.
Começam quando milhões de cidadãos são levados a acreditar, antes mesmo de votar, que seu voto talvez não seja respeitado. Começam quando a suspeita vale mais do que a prova. Quando versões passam a importar mais do que evidências.
O que estará em disputa nas urnas brasileiras não será apenas a sucessão presidencial. Será o lugar do país diante da ofensiva internacional da ultradireita. Não há mais espaço para ingenuidade. O bolsonarismo não é um fenômeno isolado nem puramente nacional.
Ele faz parte de uma constelação autoritária mais ampla, que tem em Trump seu centro simbólico e estratégico. O que parece crise norte-americana já produz efeitos concretos sobre a América Latina. E o Brasil reaparece, mais uma vez, como terreno decisivo dessa disputa.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário