16 de julho de 2026

O fogo amigo e a velha crise da direita brasileira, por Gustavo Tapioca

Setores do campo conservador voltam a discutir uma pergunta recorrente desde 2002: afinal, quem será capaz de impedir a reeleição de Lula?
Imagem gerada por IA

O editorial do Estadão critica Flávio Bolsonaro, sinalizando dúvidas do setor produtivo sobre sua candidatura.
Flávio Bolsonaro mudou postura sobre tarifas dos EUA, gerando desgaste e críticas internas na direita brasileira.
Ronaldo Caiado ataca Flávio e surge como alternativa, refletindo divisão na direita para enfrentar Lula em 2026.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O fogo amigo e a velha crise da direita brasileira 

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Editorial do Estadão, críticas da Faria Lima, análises do Valor Econômico e o desgaste provocado pelo tarifaço indicam que setores influentes do campo conservador voltam a discutir uma pergunta recorrente desde 2002: afinal, quem será capaz de impedir a reeleição de Lula? 

por Gustavo Tapioca 

“Flávio Bolsonaro desserve o Brasil.” 

A frase não saiu de um dirigente do PT, de um parlamentar governista ou de um articulista identificado com a esquerda. É o título do editorial publicado nesta quinta-feira, 9 de julho, por O Estado de S. Paulo. 

Mais dura ainda é a conclusão destacada pelo próprio jornal e repercutida intensamente na imprensa:  Flávio Bolsonaro seria “indigno da confiança do setor produtivo nacional”. 

A notícia, portanto, já não é apenas a crítica a um senador. É o sinal de que setores influentes da direita econômica começam a duvidar publicamente do candidato que, até ontem, era apresentado como principal alternativa a Lula. 

Não porque Flávio tenha deixado de ser competitivo. Mas porque parte da própria direita começou a discutir, em público, se ele é realmente o nome mais capaz de enfrentar o presidente Lula. 

O zigue-zague do tarifaço 

A crise não surgiu do nada. Ela foi sendo construída ao longo de um ano. 

Quando Donald Trump anunciou, em julho de 2025, tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, Flávio Bolsonaro comemorou a decisão. Eduardo Bolsonaro afirmou que havia atuado para que as medidas fossem adotadas. 

Meses depois, já sob o impacto econômico e político das sanções, Flávio mudou de posição. Em maio deste ano, afirmou ter pedido pessoalmente a Trump o fim das tarifas. 

Em junho, diante do desgaste captado pelas pesquisas, enviou carta ao secretário de Estado Marco Rubio pedindo que a aplicação das tarifas fosse adiada até depois das eleições brasileiras. Na mesma carta, prometeu criar, se eleito, um grupo de transição com representantes do governo americano e assumiu compromissos legislativos relacionados ao Pix. 

Nesta semana, durante audiência pública do USTR, em Washington, afirmou que novas tarifas acabariam beneficiando eleitoralmente Lula. A sequência produziu a imagem de um político que ajusta sua posição conforme muda o custo eleitoral da crise. 

Quando as tarifas pareciam enfraquecer o governo brasileiro, eram comemoradas. Quando passaram a desgastar o próprio bolsonarismo, passaram a ser tratadas como problema. 

Foi esse percurso que Maria Hermínia Tavares resumiu, na Folha, como o “patético zigue-zague” de Flávio Bolsonaro diante do tarifaço. 

As críticas já não vêm apenas da oposição 

O aspecto mais importante da semana talvez seja este: as críticas deixaram de partir apenas dos adversários do bolsonarismo. Vieram também de ambientes tradicionalmente situados no campo liberal-conservador. 

A Faria Lima reagiu negativamente à atuação do senador. O setor privado, segundo reportagem do Estadão, avaliou a participação de Flávio na audiência nos Estados Unidos como deslocada do debate e constrangedora. No Valor Econômico, Maria Cristina Fernandes descreveu o momento como caso de “fogo amigo” dentro do próprio bolsonarismo. Na Folha, Maria Hermínia Tavares apontou a contradição central: a politização de conflitos com os Estados Unidos, com exclusivo propósito eleitoral, não interessa ao país. 

Vistos isoladamente, esses episódios poderiam parecer circunstanciais. Em conjunto, sugerem algo maior. Flávio Bolsonaro já não constrange apenas seus adversários. Começa a constranger também setores que deveriam formar sua retaguarda política, empresarial e econômica. 

O Estadão atravessa a linha 

Por isso, o editorial do Estadão tem peso especial. Não se trata de uma crítica qualquer. É a posição institucional de um jornal que historicamente fala para parcelas importantes do empresariado, do mercado, do agronegócio, da direita liberal e do setor produtivo nacional. 

Quando esse jornal afirma que Flávio Bolsonaro “desserve o Brasil” e é “indigno da confiança do setor produtivo nacional”, a crítica deixa de ser apenas eleitoral. Torna-se política, econômica e simbólica. 

Caiado rompe o silêncio 

As críticas a Flávio Bolsonaro já não partem apenas da imprensa ou de analistas políticos. Elas chegaram também ao campo dos presidenciáveis. Nesta semana, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato à Presidência da República, fez o ataque mais direto até agora à candidatura do senador. 

“Quem votar no Flávio vai reeleger o Lula”, afirmou durante evento promovido pela Confederação Nacional do Comércio, em Brasília. Caiado também classificou como “inaceitável” a postura de Flávio ao pedir, nos Estados Unidos, o adiamento das tarifas para depois das eleições brasileiras.  

A declaração de Caiado tem peso político. Não veio de um adversário do campo conservador. 

Veio de um concorrente que disputa o mesmo eleitorado e que procura apresentar-se como alternativa para unificar a direita em torno de uma candidatura considerada mais competitiva. 

As pesquisas ajudam a entender o momento 

As pesquisas recentes mostram um quadro mais complexo do que a simples queda de um candidato. Lula segue liderando os principais cenários de primeiro e segundo turno. Flávio Bolsonaro, porém, ainda permanece competitivo. 

Ao mesmo tempo, Michelle Bolsonaro preserva espaço no eleitorado bolsonarista, e nomes como Ronaldo Caiado aparecem, em algumas simulações, com desempenho de segundo turno muito superior ao que obtêm no primeiro. 

É exatamente aí que nasce a crise. Flávio pode ainda ser o nome formal do bolsonarismo. Mas já não parece ser, para todos os setores da direita, o candidato mais seguro para enfrentar Lula. 

Daí as especulações sobre uma eventual recomposição do campo conservador, articulando a direita tradicional e a extrema-direita em torno de outra chapa. Caiado com Michelle. 

Michelle como herdeira direta do espólio eleitoral de Jair. Ou a permanência de Flávio por falta de alternativa. Nada disso está decidido. Mas o simples fato de essas hipóteses circularem revela que a candidatura de Flávio deixou de ser tratada como inevitável. 

A velha pergunta da direita 

Talvez seja esse o verdadeiro significado político dos acontecimentos desta semana. Desde a primeira vitória de Lula, em 2002, a direita brasileira procura um candidato capaz de derrotá-lo. 

Ao longo desses 24 anos, diferentes personagens foram apresentados como solução definitiva. José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Luciano Huck, Joaquim Barbosa, Sergio Moro, João Doria. Para a eleição de 2026 surgiram Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Flávio Bolsonaro. Agora, é possível incluir nesta lista o nome de Michelle Bolsonaro. 

Cada um, em determinado momento, foi tratado como possível nome de convergência entre mercado, empresariado, conservadores, bolsonaristas e setores do centro. 

Nenhum conseguiu consolidar, de forma duradoura, esse papel. A direita brasileira não tem apenas dificuldade de derrotar Lula. Tem dificuldade de encontrar alguém capaz de reunir a própria direita para derrotá-lo. 

A pesquisas mais recentes do Meio/Idea não sinalizam que Flávio Bolsonaro está fora da disputa nem que o bolsonarismo tenha desaparecido. O que ela sugere, segundo análise de Pedro Dória, é algo mais profundo: uma erosão gradual da base do radicalismo de direita na sociedade brasileira. 

Essa mudança começaria justamente em segmentos que tiveram papel decisivo na ascensão do bolsonarismo: parte do eleitorado evangélico, das periferias urbanas e das mulheres conservadoras. 

Se essa hipótese vier a ser confirmada pelas próximas pesquisas, ela ajuda a compreender por que empresários, mercado financeiro e parte da imprensa conservadora passaram a olhar a candidatura de Flávio Bolsonaro com crescente preocupação. 

Talvez não estejam produzindo a crise. Talvez estejam percebendo antes de muitos que a sociedade brasileira começa a mudar. É cedo para saber se essa percepção se confirmará. Mas uma coisa parece evidente.  

A principal disputa política de 2026 já não ocorre apenas entre Lula e a oposição. Ela acontece também dentro da própria direita.  

Passados 24 anos da primeira vitória de Lula, em 2002, a velha pergunta continua sem resposta. Quem será que vai tentar dessa vez derrotá-lo?  

Este nome tem que aparecer até às 19 horas do dia 15 de agosto – daqui a 35 dias – quando os partidos políticos e coligações devem registar os candidatos a presidente para as eleições de 2026. 

O PSD de Gilberto Kassab parece que vai registrar Ronaldo Caiado como o candidato preferido.  

Será que, finalmente, a direita conseguiu um candidato com força suficiente para impedir Lula de ganhar também em 2026?  

Em outubro – e, se houver segundo turno, em novembro – essa pergunta será respondida. 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados