8 de junho de 2026

Conflito no Irã gera mais de 5 milhões de toneladas de CO2 em 14 dias

Guerras emitem bilhões de toneladas de gases de efeito estufa por ano, mas seguem fora dos inventários oficiais de carbono e do debate climático global

Conflito no Irã gerou 5 milhões de toneladas de CO₂ em 14 dias, mais que as emissões anuais de El Salvador.
Militares globais emitem 2,7 bilhões de toneladas de CO₂ por ano, 5% das emissões globais, sem reporte obrigatório.
Gastos militares recorde de US$ 2,9 tri em 2025 poderiam financiar adaptação climática no Sul Global com 15% do valor.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Quando uma guerra começa, o mundo conta os mortos, os deslocados, as cidades destruídas. O que raramente se contabiliza é o dano ao clima. Nos primeiros 14 dias do conflito no Irã, bombardeios, incêndios e deslocamentos em massa já haviam gerado 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, mais do que El Salvador emite em um ano inteiro. E esse número, quase certamente, não constará em nenhum inventário climático oficial.

Não se trata de um caso isolado. Segundo levantamento da Conflict and Environment Observatory, se as forças militares do mundo fossem um único país, seriam o quarto maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, com cerca de 2,7 bilhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano, mais de 5% das emissões globais, atrás apenas de China, Estados Unidos e Índia.

Acordo de Paris

Embora o Acordo de Paris preveja a inclusão das emissões militares nos inventários nacionais, o reporte é voluntário e amplamente ignorado. Em 2025, apenas seis países (Alemanha, Bulgária, Chipre, Eslováquia, Hungria e Noruega) apresentaram dados desagregados sobre emissões militares à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. O restante do mundo simplesmente não informa.

Os inventários costumam incluir apenas o consumo energético de bases e frotas militares. Ficam de fora justamente as fontes mais expressivas: fabricação e uso de munições, equipamentos bélicos, logística de suprimentos e resíduos de guerra. Os números dos conflitos recentes dão a dimensão do que essa omissão representa.

A guerra na Ucrânia gerou 311,4 milhões de toneladas de CO₂ em quatro anos, segundo estudo da ONG Política por Inteiro. O combate direto respondeu por 37% dessas emissões; o restante veio de incêndios florestais (23%), reconstrução de infraestrutura destruída (23%), desvios na aviação civil (9%) e deslocamento de refugiados (2%).

Já o conflito em Gaza produziu 33,2 milhões de toneladas em apenas 15 meses, o equivalente às emissões anuais de um país como a Hungria, de acordo com estudo publicado na revista científica One Earth em 2026.

Destruição

O paradoxo se aprofunda quando se observa como a economia registra o impacto da guerra. O PIB, por medir o valor monetário de toda a atividade econômica sem distinguir se ela é socialmente útil ou ecologicamente destrutiva, trata a fabricação de munições, os gastos hospitalares com vítimas e a reconstrução de cidades bombardeadas como crescimento.

Como argumentou o economista ecológico Herman Daly, a partir de certo ponto o crescimento do PIB deixa de produzir bem-estar e passa a gerar mais custos do que benefícios. A guerra é o exemplo mais extremo dessa distorção.

Essa lógica tem um custo de oportunidade enorme. Em 2025, os gastos militares globais atingiram o recorde de US$ 2,9 trilhões — o equivalente a US$ 334 por pessoa na Terra, segundo a ONU. Com apenas 15% desse valor, cerca de US$ 387 bilhões, seria possível financiar toda a adaptação climática necessária nos países do Sul Global.

Enquanto isso, países ricos debatem metas de descarbonização em grandes conferências e, na prática, destinam quantias crescentes ao rearmamento.

Guerras

Os efeitos climáticos dos conflitos não ficam confinados às regiões onde as guerras acontecem. Uma crise geopolítica no Estreito de Ormuz, por exemplo, pode elevar os preços globais de energia, aumentar a demanda por substitutos, pressionar o uso da terra e impulsionar o desmatamento em lugares como o Cerrado brasileiro, uma cadeia causal indireta, mas real, como apontam pesquisadores como Carlos Nobre, Johan Rockström e Robert Muggah.

O problema mais profundo, portanto, não é apenas técnico, embora a inclusão das emissões militares nos inventários nacionais seja urgente e necessária. É que as decisões políticas e econômicas globais ainda são tomadas com instrumentos desenhados para um mundo que não existe mais. Medir progresso pelo PIB numa era de múltiplas crises equivale a navegar por mares instáveis com instrumentos obsoletos.

Cada bomba lançada carrega uma dívida ecológica que não aparece em nenhum balanço, mas que se torna cada vez mais visível no colapso dos ecossistemas.

*Com informações do The Conversation Brasil.

LEIA TAMBÉM:

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Clydes

    7 de maio de 2026 5:21 pm

    E sejamos realistas ao constatar que guerras não cessaram desde a Segunda Grande Guerra. Só para lembrar: as guerras de independência, as revoluções socialistas, depois vieram mais guerras nos Balcãs, a guerra de Bush pai, as guerras eternas de Bush filho, depois as intervenções de Obama e por aí segue o que conhecemos hoje. Excelente texto da Camila, que nos fez lembrar de tudo isso.

Recomendados para você

Recomendados