Coringa: ser ou não ser, eis a questão, por Maria Eduarda Freire

De fato, “Coringa”, de Todd Phillips, é uma experiência poderosamente íntima e que atinge o âmago da existência humana: o questionamento sobre o sentido da vida

do Disparada 

Coringa: ser ou não ser, eis a questão

por Maria Eduarda Freire

Arthur Fleck se tornar o Coringa foi uma derrota ou evolução? – Essa foi uma pergunta colocada por uma jornalista para Joaquin Phoenix em uma das entrevistas que concedeu sobre o filme “Coringa”. O ator respondeu que quem assistiu ao filme terá que decidir essa questão por si mesmo.

De fato, “Coringa”, de Todd Phillips, é uma experiência poderosamente íntima e que atinge o âmago da existência humana: o questionamento sobre o sentido da vida.

“Coringa” não é a história de um assassino, e tampouco, sobre alguém que sofre de uma doença mental. A natureza humana, entendida aqui como as contradições imanentes à existência humana é muito mais fluida e de infinitos entremeios. Não permite compartimentalizações. No baralho austríaco do século XV o coringa ou “o louco” segura um espelho para – para nós! E talvez essa seja a função essencial da arte em geral, ser espelho, a afastar também censuras morais e ideológicas.

“Coringa” centra-se na vida de Arthur Fleck que personifica o “fracasso” no mundo dos “bem resolvidos”. Não há lugar nesse mundo para Arthur Fleck. Na sua antípoda, está Murray Franklin, personagem interpretada por Robert De Niro, o indivíduo que representa o “sucesso”. Apresentador de um programa de auditório, Murray é o homem que se acha bom.

Arthur Fleck carrega sua sarjeta pessoal na voz, no andar, nos olhos, no seu corpo. A risada involuntária é um reprimido pranto, dolorido e incontido, já anunciado por uma personagem do enredo de Hamlet que disse “onde a alegria canta e a dor mais deplora, num instante a dor canta e a alegria chora”.

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A trilha sonora que acompanha Arthur Fleck é a canção “Smile”, composta por Charles Chaplin para o seu filme “Tempos Modernos” e interpretada por Jimmy Durante em “Coringa”. A letra da canção se inicia com as frases “Sorria, embora seu coração esteja doendo. Sorria, mesmo que ele esteja partido”. Paradoxalmente, a tragédia de Arthur não se esconde, ela é ostensivamente visível, confrontando-se com uma sociedade que se alimenta das máscaras, da cena, e do aplauso. Uma sociedade de “Murray’s” que ocultam sob o terno e a gravata, a tragédia pessoal de quem se acredita “bom” e sobretudo, daqueles que acreditam na “perfeição”, na “normalidade” e no “sucesso”. Em determinado momento do filme Arthur pergunta: “É impressão minha ou o mundo está ficando cada vez mais louco?” e parece ter a percepção, ainda que intuitiva, da insustentabilidade de categorias que opõem “normais” e “loucos”.

Arthur Fleck questiona-se se ele realmente existe, aproximando-se da frase de abertura do monólogo de Hamlet “ser ou não ser, eis a questão”. Ser ou não ser é exatamente isso: existir ou não existir e em última instância, viver ou morrer. E poderia ser Arthur ao dizer as palavras de Hamlet “Será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e flechas com que a Fortuna, enfurecida nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provocações e em luta pôr-lhes fim? Morrer… dormir”. A transformação de Arthur no Coringa é a afirmação da existência com a sua dor e sofrimento inerente. É escolher resistir e não sucumbir. Quase como um oxímoro, o Coringa é a lucidez louca de Hamlet.

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Arthur Fleck escreve em seu diário que espera que sua morte faça mais centavos que a sua vida, porém a incerteza da morte supera os tormentos da vida. Nesse sentido, emana da personagem um profundo niilismo existencial, fruto da abissal consciência sobre o mundo ser um moinho que reduz nossas ilusões a pó, parafraseando o grande Cartola.

“Coringa” não é uma estória sobre “heróis” e “vilões”. Nessas estórias, as motivações de ambos são muito claras. O Coringa não é guiado por nenhuma motivação política ou ideológica. A incerteza do que o motiva é talvez a pista que nos remeta novamente à Hamlet e sua misteriosa questão não resolvida: “ É a vida que faz o amor, ou o amor que faz a vida?”.

Contudo, um movimento revolucionário, e o seu consequente niilismo reativo e ethos anárquico de vale tudo, ideologiza as ações do Coringa, projetando-o como o símbolo de suas causas políticas. Ao final, Arthur Fleck, já transformado no Coringa, e inteiramente instrumentalizado a serviço dos propósitos ideológicos da intelligentsia revolucionária, parece ter a consciência disso. O Coringa é aplaudido pela multidão e seus olhos parecem saber que o aplauso não é para ele. E tal como um ator, no palco que não é seu e dentro de uma peça escrita por outro, o Coringa parece entender que todos aplaudem uma projeção. O Coringa parece ter a consciência de que todo aplauso é falso, o “sucesso” e o “fracasso”, a “normalidade”e a “loucura” são impostores. E na iminência do pranto, pinta em sua face, com o sangue que cospe de suas vísceras, um sorriso. E encena o papel que lhe foi imposto.

1 comentário

  1. Coringa é um filme sobre um sistema que não funciona.

    Abusado na infância, a mãe é internada – mas não perde a guarda da criança

    Adulto, a assistente social o entrevista periodicamente sem realmente ouvi-lo.

    Os cortes de serviços públicos tiram até mesmo a assistente social e os remédios, abandonando-o a própria sorte.

    Um poderoso quer enveredar na política mas não se importa com o filho da ex-funcionária, apenas quer que ele se afaste e não o incomode.

    A polícia pressiona a mãe a ponto dela enfartar, chama a ambulância, depois vai atrás do filho, mas apenas por conta da morte de “cidadãos do bem” (que de bons não tinham nada, diga-se de passagem), enquanto vemos que a cidade tem muitos crimes que não tem a mesma repercussão

    Finalmente, o explorador televisivo, um “apresentador do baú”, que pouco se importa em destruir reputações apenas pela audiência.

    De todos, o Joker é o mais normal do filme.

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