Zapeando a TV me deparei com anúncio da Rede Globo, interpelando aos telespectadores a contribuir com doações para a campanha Criança Esperança. Não assisto com frequência a programação da Globo, de modo que me surpreendi com a chamada televisiva de uma campanha filantrópica que possui quase 30 anos. Não restam dúvidas quanto à motivação para a longa permanência dessa campanha: o simpático e emotivo apelo de ajuda às crianças pobres. Tudo muito bem, não fosse a época em que surgiu o Criança Esperança e o seu significado político.
O Criança Esperança, patrocinado pela Rede Globo, foi criado em 1986. No melhor estilo “We are the world” (canção gravada nos EUA, envolvendo astros da música pop, em auxílio ao combate à fome na África, em 1985), o Criança Esperança não deixa de guardar certa espetacularização da pobreza. Reconhecida pela competência artística e técnica na produção de novelas, a dramatização que atravessa os apelos nos intervalos comerciais, e na programação da TV da família Marinho, gera audiência e, convenhamos, a Globo sabe produzi-la com maestria. O Criança Esperança não escapa dessa lógica. De acordo com material memorialístico da Globo, ao lançar a campanha, o objetivo era o seguinte: “Despertar a consciência e a sensibilidade dos brasileiros para os direitos da população infanto-juvenil”. Tinha em vista ainda contribuir “para criar um forte movimento que introduziu a questão da infância na agenda política” (1).
Em que pesem os nada humildes propósitos autopropagandeados pela Globo, no mesmo período em que foi lançada a campanha Criança Esperança, já haviam ganhado repercussão nacional as iniciativas educacionais promovidas pelo governador Leonel Brizola e por seu vice, Darcy Ribeiro, no Rio de Janeiro. Refiro-me à educação em horário integral por meio do projeto dos Cieps. Pretendia-se retirar as crianças das ruas, assegurando os seus direitos à educação, alimentação e assistência médica, durante as manhãs e as tardes nas escolas. Basicamente, o projeto teve que contar com recursos do próprio estado, já que, de um lado, não havia garantias em lei para transferências financeiras da União. O Fundef só veio à luz nos anos 1990 e a sua ampliação para o ensino médio, com o Fundeb, anos depois. De outro lado, o ditador Figueiredo e o seu sucessor José Sarney tinham em Brizola um empedernido adversário a combater. A grana era escassa para o governador.
O projeto educacional tinha inspiração pedagógica em Anísio Teixeira e Gramsci. Portanto, uma escola que pudesse levar em conta a realidade das crianças submetidas à miséria e à pobreza. Visava assegurar os seus direitos efetivos ao estudo. Darcy Ribeiro a classificava como uma “escola honesta”. Entendia que somente a escola em horário integral poderia acompanhar o alunado nos estudos. Os pais – que trabalhavam e tinham pouca instrução – não possuíam condições de acompanhar e auxiliar os “deveres de casa” dos estudantes. Isso era coisa para as classes médias e altas da sociedade, que possuíam e possuem maior escolaridade e espaço físico nas residências, para a feitura de trabalhos escolares, diria o grande Darcy. Os Cieps receberam muitas críticas. Algumas pertinentes e outras reacionárias. Em todo caso, teve em Paulo Freire – um símbolo das lutas políticas e do pensamento progressista na educação – um simpático defensor.
Como a Globo encarava os Cieps? No curso dos anos 1980/90 não se cansava de argumentar que eles se tratavam de “assistencialismo”, de “escolas caras que oneram o erário público” e que “alienam os pais da formação dos alunos”. Sobretudo em relação à última crítica, as Organizações Globo tinham no general e ex-ditador Ernesto Geisel um importante parceiro de opinião. Não gratuitamente, o governador Moreira Franco (1987/1991), candidato da TV Globo e do presidente Sarney, vitorioso no pleito eleitoral de 1986, sentiu-se à vontade para desmontar o projeto educacional. Em matéria publicada em 1990, o jornal O Globo chegou a atribuir aos Cieps, que foram abandonados pelo sucessor de Brizola, um peculiar destino: estimular a “favelização” e a “criminalização”, por meio da ocupação feita por “desabrigados” (O Globo, 27/05/1990, p.22). Para o jornalão, a responsabilidade seria de Brizola. Igualmente, O Globo alegava “ineficiência”, destacando que as crianças precisavam trabalhar para ajudar no sustento da família.
O Criança Esperança, desse modo, não deixa de representar uma resposta da Globo aos Cieps. Ao invés de uma política de Estado para gerar oportunidades aos filhos da miséria e da pobreza, a Globo há muito preconiza a caridade pública e o protagonismo de ONGs. Evidentemente, sob a sua espetacular mediação. Não que ela seja contra o uso de recursos públicos na educação. Pelo contrário, a Fundação Roberto Marinho, das Organizações Globo, até que consegue descolar uns trocados junto aos governos, para oferecer os seus antigos telecursos na própria escola pública.
O problema maior é que a Globo se comporta com projeto próprio de poder, inclusive preconizando uma perspectiva educacional. Revela uma “concepção publicista da opinião pública”, como diria o historiador Aloysio de Carvalho. As Organizações Globo atribuem para si a legitimidade para falar pela população, passando por cima dos representantes eleitos e dos partidos políticos. O seu Criança Esperança foi, lá atrás, uma resposta a Brizola e aos seus eleitores. Como aquela “massa” votou “errado”, investiu-se a própria Globo no papel de se imiscuir diretamente na pregação por seu projeto “alternativo” de educação e de “salvação” das crianças.
As Organizações Globo, nesses longos anos de governo Sérgio Cabral Filho no Rio de Janeiro, um governo que fechou mais de 200 escolas, raramente criticaram a política educacional do recém ex-governador. Na verdade, a Globo não gosta da educação pública concebida como política de Estado. Não digere essa história de dinheiro público sendo destinado à escola pública. Não entende a educação pública como direito dos cidadãos e dever do Estado. Nesse sentido, quase trinta anos transcorridos, temos aí com o maior alarde e propaganda, atuando nos campos educacional e dos direitos da criança e do adolescente, o Criança Esperança e a Fundação Roberto Marinho. Mas, não temos educação em horário integral nas escolas públicas brasileiras. Até quando?
(1) Ver http://memoriaglobo.globo.com/programas/entretenimento/musicais-e-shows/crianca-esperanca/1986.htm
Roberto Bitencourt da Silva – doutor em História (UFF), prof. da FAETERJ-Rio e da SME-Rio.
IV AVATAR
25 de setembro de 2014 10:51 pmMPF investigou a Fundação Roberto Marinho. Kd o processo?
Falando nisso, em que deu este processo em que o MPF cobrava mais de 13 milhões de reais desviados dos cofres públicos pela Fundação Roberto Marinho, ou será que falta um delatorzinho para dar seu show nessa véspera de eleição,.,,se bem que contra tucano e seus aliados delator só tem valiade se vier abarrotados de provas como se não fosse papel das Instituições investigar, pelo menos o min Marco Aurélio Melo acabou de arquivar o processo do trensalão tucano pq o delator não teria apresentado provas, segue link para o desfalque praticado pela Fundação Roberto Marinho
https://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/mpf-investiga-a-fundacao-roberto-marinho
altamiro souza
26 de setembro de 2014 12:11 amhá um livro do daniel herz
há um livro do daniel herz chamado
“afundação roberto marinho”,
histórico.
hc.coelho
25 de setembro de 2014 11:13 pmCriança esperanç para quem matou o CIEPS?
Ver a globo falar em educação infantil e lembrar o que ela fez com o cieps é ilustrador. Lobos se vestidno de cordeiros.
E o alexandre garcia, o heroi do fato, da destruição do cieps, dando lições de moral, pode? Coitada da itatiaia!
Miguel Zibboni
25 de setembro de 2014 11:37 pmSem contar a famosa dedução do IR
Quem doa para o Criança Esperança não pode deduzir a quantia do seu IR, já que a marca não é entidade beneficente, Já a Globo deduz do imposto dela , uma vez que ”’doa” o total para a UNICEF , essa sim entidade beneficente.
Quanto aos Cieps, é a febre do horário eleitoral. Não sei se o resto do Brasil tem conhecimento, mas 80% dos partidos e candidatos prometem fazer escolas de tempo integral. Do PT de Lindberg (com os Cieps do século 21) ao PRB de Crivela, passando por deputados e senadores até do PSDB e PMDB .
Claro que nada disso é à toa. É fruto de pesquisas internas dos partidos.
O povo exigiu. 20 anos depois o Ciep venceu.
Fulvia
26 de setembro de 2014 3:02 pm(Sem título)
[video:http://youtu.be/t191LEATbt8%5D
emerson57
26 de setembro de 2014 12:08 amCampanha
Toda vez que ouço falar no “Criança Esperança” , por algum motivo que não sei qual, me vem à cabeça a “Dei Ouro para o bem do Brasil” .
altamiro souza
26 de setembro de 2014 12:16 amdesconfio que essas
desconfio que essas parcerias
do criança esperança pode estar
sendo feita com programas já em desenvolvimento.
as próprias matérias da globo sobre os
programas demonstram que algumas ongs ou iniciativas populares
já existiam,
então o criança esperança dava apoio etc e tal.
além do que, acho que o mpf deveria averiguar essas doações.
já ouvi falar que unicef não
apóia tanto assim como propala a globo.
a ver.
Clarice P
26 de setembro de 2014 1:41 pmReconhecer o que dá certo
Prezado Roberto,
Achei interessante o seu artigo, mas discordo um pouco da postura final. A pergunta que me fiz é: “não importa qual o contexto, estarei contra tudo que a Globo apoia.” O que difere a sua postura daquela da emissora?
Discordo quando fala “As Organizações Globo, nesses longos anos de governo Sérgio Cabral Filho no Rio de Janeiro, um governo que fechou mais de 200 escolas, raramente criticaram a política educacional do recém ex-governador. Na verdade, a Globo não gosta da educação pública concebida como política de Estado. Não digere essa história de dinheiro público sendo destinado à escola pública.”
O resultado do Ideb acaba de sair e o Rio de Janeiro ficou na 4ª. posição dentre todos os Estados e DF. Goiás assumiu a primeira posição. Pode-se dizer que o ranking tem suas falhas, mas foram ações reais que tornaram isso possível. E essa melhora não dependeu de apoio da Globo, mas sim da gestão da Secretaria e, sim, do apoio do Governador.
Não é a Globo que define se teremos ou não política pública de educação, nem o Governador, necessariamente. A vontade de fazer fez muita diferença entre aqueles que estiveram envolvidos no processo.
Não discorro que o CIEP foi uma grande proposta. E é realmente uma pena que ele não se perpetuou. Mas como lidar com esse fato hoje? Recupera-se a proposta do CIEP e reimplementa? Sem considerar que a sociedade mudou, que temos novas demandas, temos novas metodologias pedagógicas?
A implantação de escolas em tempo integral é um consenso. Não conheço ninguém que seja contra, seja um partido qualquer ou a mídia.Porém, escola em tempo integral precisa de planejamento. Hoje, aproximadamente, 80% da população estuda em escolas públicas. Se pensarmos que as escolas funcionam em tempo parcial com, no mínimo, dois turnos (muitas funcionam em três turnos), fazendo uma conta grotesca, se todas funcionassem amanhã em tempo integral, significaria reduzir à metade o número de alunos atendidos. Simples assim… Se uma escola atendia mil alunos em dois turnos, 500 pela manhã e 500 pela tarde, amanhã ela atenderá apenas 500 num único turno.
Fico muito satisfeita com o discurso da Dilma, trazendo os dados e falando com mais clareza o que é realmente possível e com planejamento. Eu votarei na Dilma e não acho que a Globo não criticou o Rio por interesses meramente políticos. Goiás fez um excelente trabalho. O Rio fez um excelente trabalho. Seria errado reconhecer isso? São unidades que estão fazendo uma enorme diferença e, antes de escolher a posição de ser do contra, o melhor seria entender o que aconteceu nessas unidades. Sabe por quê? Porque se discursos como o seu são reforçados nada avança, porque parece que tudo é interesse, parece que todo mundo está à mercê das ideologias de cada um. E os avanços ocorreram, mas é politizado e recomeçamos sempre do zero… Com todo respeito pela sua matéria, sua postura assemelha-se à da Globo quando foi contra o CIEP.
Luiz Carlos Ramos Cruz
26 de setembro de 2014 3:09 pmCriança esperança x cieps
Fato – Simple assim:
“A Globo não gosta da educação pública concebida como política de Estado. Não digere essa história de dinheiro público sendo destinado à escola pública. Não entende a educação pública como direito dos cidadãos e dever do Estado…”
Parabéns ao autor Roberto Bitenco, que revela a linguagem nebulosa que as organizações Globo, utiliza para esconder seus interesses mesquinhos-privados-obscuros…
Fulvia
26 de setembro de 2014 3:14 pm(Sem título)
[video:http://youtu.be/rC1p-JqCFOw%5D