4 de junho de 2026

Crise: Solidariedade Européia às Avessas

Solidariedade estilo euro

– Empréstimos finlandeses, compras de títulos pelo BCE, o duro amor do EFSF e variadas histórias de horror da Euro-casa Correccional pós-moderna

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por Yanis Varoufakis

Casa Correccional, Arq. Sampson Kempthorne, 1835.O mundo parece convencido de que a Europa, talvez sob coacção, constituiu um grande Fundo de Solidariedade (o EFSF) com o objectivo de ajudar os estados-membros da Eurozona aflitos em termos fiscais a evitar a bancarrota uma vez que foram excluídos dos mercados monetários. As críticas verificadas quanto a este tipo de “solidariedade” centraram-se em duas questões: Primeiro, que a dimensão do Fundo não era suficientemente grande (e portanto era incapaz de ajudar a Itália e a Espanha). Segundo, que este Fundo assemelha-se mais a uma Casa Correccional Vitoriana (Victorian Workhouse) cuja finalidade real não era mostrar solidariedade para com os seus residentes e sim, ao contrário, tornar a sua vida tão desagradável ao ponto de dissuadir os trabalhadores fisicamente aptos de procurarem a sua assistência. 

A primeira crítica, acerca da dimensão do EFSF-MEE, é verdadeira mas irrelevante. Como tenho argumentado desde o primeiro dia da criação do EFSF, o seu problema não é a sua dimensão mas a sua estrutura semelhante ao CDO . Quanto à segunda crítica, de que se assemelha a uma Casa Correccional do tempo de Charles Dickens, a actual situação da Espanha é instrutiva. Para obter dinheiro para dar aos seus bancos decrépitos, o país deve ser humilhado e submetido a novo afogamento fiscal a fim de que a Itália e outros sejam dissuadidos de se voltarem para a ajuda do EFSF. Neste sentido, quando funcionários da Europa dizem que não há necessidade de nova acção sobre a Espanha uma vez que o EFSF está disponível para ajudar, eles estão a convidar os espanhóis a entrarem na Casa Correccional para uma vida de miséria não merecida em prol dos seus banqueiros. E eles têm a audácia de chamar a isto “solidariedade” com o povo espanhol. 

Mesmo assim, muitos comentadores estão preparados para dar aos líderes da Europa o benefício da dúvida. Pensam da Casa Correccional EFSF tal como os vitorianos pensavam: é melhor do que a alternativa de serem deixados na rua para morrer; um lugar onde é praticado o “duro amor vitorianos” a fim de refrescar a ética puritana da Europa. Bem, se isso é assim, convido aqueles que gostariam de pensar deste modo a considerarem os seguintes dois exemplos tendo em vista determinar se eles são mesmo consistentes com esta visão vitoriana de “solidariedade”. 

“Solidariedade”, Manifestação A: Impor mais empréstimos sobre a bancarrota 

Como escrevi recentemente em artigo no Le Monde , o estado grego em bancarrota foi forçado pela troika a tomar emprestado 4,2 mil milhões do EFSF a fim de transferi-los imediatamente para o Banco Central Europeu (BCE) para resgatar os títulos governamentais gregos que o BCE havia comprado anteriormente numa tentativa fracassada de sustentar o seu preço. Este novo empréstimo promoveu substancialmente a dívida da Grécia mas o BCE recolheu um lucro em torno de 840 milhões (graças ao desconto de 20% com que o BCE havia comprado estes títulos). Será isto “solidariedade com os caídos”, mesmo de um tipo Casa Correccional Vitoriana? 

“Solidariedade”, Manifestação B: Tomar dinheiro da bancarrota para investir em países prósperos 

Quando foi acordado o 2º “salvamento” grego, pode-se recordar que o governo finlandês pediu garantias, como colateral, que reduziriam sua exposição à Grécia. O governo grego concedeu-as, prometendo um colateral no valor de 925 milhões. Alguém poderia ser esperado que o dito colateral fosse constituído na forma de activos (exemplo: imóveis possuídos pelo governo grego). Mas não! Helsínquia não queria nada disso. Eles exigiram, ao contrário, cash! E eles receberam cash. No mês passado, em Maio de 2012, Atenas transferiu €311 milhões para o governo de Helsínquia , como primeira prestação. As minhas fontes aqui nos Estados Unidos contam-me que agora o governo finlandês procura investir este dinheiro em joint ventures com os EUA e outras firmas europeias. É isso a que chamo solidariedade com a Grécia… 

Para concluir numa triste e desesperada nota, gostaria de apelar aos governos da Europa do Norte para cessarem e desistirem de mais ofertas de “solidariedade” aos nossos países fiscalmente aflitos e em rápido empobrecimento. A sua “solidariedade”, o seu “duro amor” está a matar nossos orgulhosos países e, neste processo, a destruir o tecido moral, político e económico da Europa.

O original encontra-se em yanisvaroufakis.eu/… 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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