Dicas para protestar nas ruas contra Bolsonaro com o mínimo de segurança na pandemia

"Quando um governo é mais letal do que o vírus, as pessoas tomam consciência da necessidade de saírem para o enfrentamento"

Jornal GGN – Enquanto o Brasil ultrapassa a trágica marca de 450 mil mortes por Covid-19, movimentos sociais, centrais sindicais e lideranças políticas e partidárias começam a organizar protestos presenciais contra o governo de Jair Bolsonaro. Inseguro e receoso pelo impacto que as manifestações podem causar sobre as estatísticas, ainda mais na iminência de uma terceira onda, o campo progressista se vê diante de um dilema: é hora de marchar pelo fim da necropolítica? É possível que os atos anti-Bolsonaro sejam feitos com alguma segurança sanitária e sem equivaler às aglomerações sem máscara promovidas pelo atual presidente da República?

No próximo dia 26, em Brasília, centrais sindicais farão um ato em frente ao Congresso em favor das vacinas e pela volta do auxílio emergencial no valor de R$ 600. Os organizadores afirmam que será “sem aglomeração e sob todos os protocolos sanitários para evitar contágio e propagação do coronavírus, em respeito à vida, à ciência e às famílias de quase meio milhão de pessoas que morreram nem de Covid-19 e em consequência do negacionismo e incompetência do governo federal.” No dia 29, um “Ato Nacional pelo Fora Bolsonaro” promete se fazer presente em todas as regiões do país, com apoio das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo.

Nas redes sociais, nem sempre a oposição a Bolsonaro converge com a ideia dos protestos no atual estágio da pandemia, com mais de mil mortes acontecendo dentro de 24 horas e um plano nacional de vacinação andando lentamente. “Ou você aplaude Flávio Dino porque multou Bolsonaro por promover aglomerações [no Maranhão] ou você apoia a convocatória de setores de esquerda para aglomerar no dia 29. As duas coisas não dá”, postou um internauta que se identifica no Facebook como “petista”, “ativista” de direitos humanos e LGBT e professor universitário.

“Não houve mobilizações da esquerda nos últimos meses pela gravidade da situação sanitária. Mas agora está se construindo um clima para o retorno às ruas. Quando um governo é mais letal do que o vírus, as pessoas tomam consciência da necessidade de saírem para o enfrentamento. É o que está acontecendo na Colômbia, mesmo com a pandemia em alta. Vamos às ruas com máscaras, orientações de distanciamento, todas as precauções sanitárias. Queremos um calendário unificado com a Frente Povo sem Medo, com a Frente Brasil Popular e com os movimentos sociais e de juventude”, afirmou o ex-presidenciável do PSOL, Guilherme Boulos, liderança da frente Povo Sem Medo, nas páginas amarelas da última edição da revista Veja.

A Colômbia não é o primeiro nem único país a convulsionar em plena pandemia. No ano passado, milhares deisraelenses protestaram com distanciamento na Praça Rabin, em Tel Aviv, contra o que chamaram de “erosão da democracia sob o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu”.

Os Estados Unidos também assistiram a um levante da população indignada com o racismo e a violência policial que marcaram o assassinato por asfixia de George Floyd. As ruas não se calaram. E a tensão aumentou ainda mais quando mais de 1 mil profissionais da área da saúde assinaram uma carta em defesa dos protestos, muitos deles membros da Divisão de Alergia e Doenças Infecciosas da Universidade de Washington. Chamados de “hipócritas” por concordarem com os atos do Black Lives Matter na pandemia, eles argumentaram que os problemas políticos e sociais do país não poderiam ser escanteados nem desconectados da crise sanitária e do fato de que a população negra e pobre é a que mais morre por Covid-19.

O Chile também foi palco de protestos presenciais pela nova Constituinte no ano passado. As aglomerações logo foram seguidas por um aumento no número de novos casos e mortes. O governo precisou retomar medidas de mitigação contra o vírus.

SIM, É POSSÍVEL PROTESTAR COM RELATIVA SEGURANÇA

No Twitter, a epidemiologista e vice-presidente do instituto Sabin, nos EUA, Denise Garrett, publicou uma mensagem compartilhada mais de 800 vezes indicando que, sim, “manifestações ao ar livre durante a pandemia podem ser feitas de maneira segura, com risco mínimo de transmissão e sem resultar em aumento do número de casos.”

Ela compartilhou 12 dicas para os manifestantes, que passam pelo uso de máscara PFF2, evitar horários de caos no transporte público, manter-se constantemente em movimento nas vias públicas, não interagir com pessoas fora do seu grupo, priorizar cartazes e megafones em vez de gritar espalhando gotículas de saliva.

Quando os protestos contra Floyd eclodiram nos EUA, a BBC fez uma reportagem sobre “como protestar em uma pandemia global”, com sugestão de medidas adicionais, como não ter contato com idosos após participar das manifestações. A matéria apontava também para inovações na modalidade virtual dos protestos.

À reportagem do GGN, o médico sanitarista Daniel Dourado disse ver duas dificuldades para or organizadores dos protestos anti-Bolsonaro. A primeira é observar os cuidados exigidos pela pandemia. Mas “é possível, é questão de distribuir máscaras de boa qualidade e tentar preservar distanciamento mínimo.” Para ele, “se tiver todo mundo de máscara (de preferência PFF2 e N95) e com distanciamento físico de 2 metros, é relativamente seguro considerando que as manifestações serão em ambiente aberto”. “Não é simples, mas seria um recado importante fazer assim. É a única maneira de ser responsável.” E “definitivamente não é igual aos bolsonaristas que não estão nem aí, monte de gente se máscara e etc”.

A segunda dificuldade é de ordem política. “Como a esquerda é majoritariamente mais preocupada com as questões de saúde pública, há real possibilidade de que as manifestações sejam esvaziadas. E isso seria bem ruim por passar a impressão de pouca mobilização.”

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2 comentários

  1. Olha o exemplo de falta de planejamento estratégico do desgoverno Bolsonaro:

    Em fevereiro o Brasil resolveu liquidar sua estatal fabricante de chips, a CEITEC:

    https://www.telesintese.com.br/governo-inicia-processo-de-liquidacao-do-ceitec/

    Agora veja o tamanho da burrice:

    https://epocanegocios.globo.com/Economia/noticia/2021/05/escassez-global-de-chips-comeca-afetar-outras-industrias-alem-da-automobilistica-e-de-tecnologia.html

    Muitas indústrias começam a embutir chips em seus produtos. A demanda explodiu e vai faltar chip para montar carros, por exemplo.

    O timing do fechamento da CEITEC foi perfeito para demonstrar o tamanho da miopia do desgoverno Bozo

  2. Política não é espaço catártico e não deve ser. Para se avançar no jogo do poder é necessário a frieza e a agudez de um enxadrista. Cada movimentação precisa ser pensada com o objetivo de aniquilar o inimigo, de evitar suas movimentações, acuá-lo em seu próprio campo, forçá-lo a jogadas que o levem a derrota. Para isso temos que antever TODAS as jogadas; as do oponente e as nossas. Não existe espaço para erros tolos, não se entrega vantagem para o inimigo. Quando questiono a escolha do dia 29/05 levo todos esses elementos em conta. Quais serão as próximas jogadas?? Quais serão os desdobramentos?? Quais as vantagens, que essa jogada pode trazer para a vitória contra os GENOCIDAS?? E não vejo NADA! Só o desejo catártico de obter um dia de êxtase. Já disse que discordo e continuo discordando dessa manifestação. Quero saber oq está promovendo essa mudança tática/estratégica. E com isso não estou dizendo que não devemos tomar as ruas e usar essa forma de luta, defendo que façamos sim, em outro momento, quando tivermos um maior número de vacinados. Mas a questão que levanto é pq agora, em pleno avanço da pandemia e com a entrada no Brasil da cepa indiana?? Cepa essa que se sabe pouco, ou quase nada. Pq entregaremos para os fascista uma arma contra nós?? Já que o isolamento e a não aglomeração está sendo usada contra eles e corretamente. Pq daremos para os defensores da terceira via munição para nos acusar de iguais?? Hoje a esquerda avança com a presença do Lula, e, já adianto que isso não é pouco, principalmente, para quem está lutando pela verdade e contra o golpismo e seus tentáculos. Também adianto que não defendo a espera das eleições pura e simplesmente. Contudo, entendo que uma manifestação sem um cronograma permanente é infrutífera e não acumula contra o inimigo. Portanto, volto a questionar que jogada é essa?? Vamos entregar peças para o adversário e nos colocar em Xeque?? E como será o dia seguinte? Quais são as nossas forças para a continuidade dessa nova estratégia?? OU só acordaremos com a ressaca da catarse do dia anterior tendo que refazer o caminha já percorrido, além de contarmos os mortos?? Boa tarde.

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