Dos mitos: singelo poema lusófono

Dos Mitos

 

Já sei: eis que irei me exilar

Nas caatingas espinhentas do cangaço,

Na mui remota floresta de Sherwood,

Nesta noite de alto índice ceraúnico;          

Nos grotões dos chapadões, onde jagunços

Esperam — entre tragos de pitu e prosa leve —

A poeira baixar…

 

Esconder-me-ei na quiçaça, no maqui,

A esquadrinhar os horizontes das veredas,

Atalaia em noite de cinco estrelas — quando muito! —

À espera de futuros dias;

 

Pois que os donos do mundo,

Os usurpadores de nossos devaneios

(Farsescos Napoleões de manicômio)

Reclamam para si

Mil salamaleques, mil mesuras

À sua brutal estultice,

Já tão aquinhoada com aquelas costumeiras

Lambidelas de ego, sempre vindas

Dos espertalhões de sempre.

 

Sim, nesta nigérrima invernada,

Me acoitarei

Nos mocambos de arredios quilombolas,

Nas moitas mais ermas das coxilhas,

Nos varadouros enoitecidos dos igapós,

Nos barrancos perdidos das gerais,

Nas penumbrosas bocainas dos tupis,

Desopilando a alma com estoicismo,

Entre escaramuças de cutelo,

Mas ruminando o bom dizer

Daquele doce nazareno — até

O certo retornar da alvorada,

Alvorada que (nos assevera Homero)

Possuía lindos, lindos dedos cor-de-rosa.

 

Janeiro de 2019.

 

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