Esquerda tem capilaridade, mas falta narrativa própria e estratégia nas redes sociais, diz Letícia Sallorenzo

A mestra em Linguística da UnB é a convidada do Cai Na Roda da TV GGN. Em pauta, a batalha comunicacional nas redes sociais

Publicada originalmente em 29/08/2020

Jornal GGN – O ativismo digital da militância de esquerda garante ao campo progressista uma “capilaridade orgânica” nas redes sociais. Mas por falta de narrativa própria e novas estratégias, essa força é “muito mal aproveitada e explorada” em tempos de bolsonarismo digital.

Dois anos depois de uma derrota histórica na disputa presidencial de 2018, as esquerdas ainda não demonstram total compreensão e domínio sobre o modo como a extrema-direita instrumentaliza a internet para ganhar eleições, nem indicam como pretendem confrontá-la neste terreno em 2020 e 2022. “Ninguém entendeu exatamente qual é a das redes sociais, a do microtargeting, qual é a do processo de internet”, disse.

A avaliação é da jornalista e mestra em Linguística da UnB Letícia Sallorenzo, a convidada especial deste sábado (29/8) no Cai Na Rodao programa semanal de entrevistas no Youtube com as jornalistas do GGN. A batalha comunicacional entre direita e esquerda nas redes e a gramática da manipulação na imprensa foram os temas centrais do episódio que será divulgado a partir das 10h.

Ao longo da entrevista, Letícia fez uma análise crítica do papel da grande imprensa e da mídia progressista na política nacional. Ela também detalhou aspectos da eleição de Donald Trump em 2016 que antecederam o fenômeno bolsonarista de 2018 – este último mudou o foco de atuação do Facebook para o WhatsApp.

Ela também alertou sobre como a esquerda infla a narrativa da extrema-direita em suas manifestações nas redes sociais. E apontou a urgência da descoberta de meios de coibir práticas sem nenhuma ética na internet. A continuar do jeito que está, e sem um plano para reagir à altura, as esquerdas tendem a sofrer um novo baque em 2020 e 2022, disse.

Confira pontos de destaque abaixo:

A MANIPULAÇÃO NA GRANDE MÍDIA

Na eleição de 2014 a gente via que a imprensa ainda tinha alguma influência. Houve um trabalho para enaltecer Aécio Neves e denegrir a imagem de Dilma Rousseff. O WhatsApp não era tão influente como foi em 2018. “O que percebi em 2018 foi que uma parte da imprensa fez a tentativa de desmerecer Dilma. Estadão fazia isso de maneira mais descarada. O Globo não ficava atrás. Folha tentava se fazer de isentona, mas dava suas escorregadas.” Havia uma necessidade muito grande de demonizar o PT, mas erraram na dose e acabaram demonizando a política. Isso abriu a porta para a entregada da extrema-direita. A imprensa agora está sem nenhuma influência.

Trazendo isso para a situação atual: no Jornal Nacional, por exemplo, o discurso do “fique em casa” por causa da pandemia do novo coronavírus “enfraqueceu”. “Significa que o discurso do Bolsonaro venceu.” As mortes estão em 1 mil por dia e todos estão na rua ou trabalhando. “Quem manda nesse País, quem dita a narrativa, é a tia do zap.” De onde vem isso? Do gabinete do ódio? A gente conseguiu comprovar isso?

POR QUE BOLSONARO APANHA MENOS QUE O PT NA MÍDIA?

“Tem nome e sobrenome o motivo da imprensa não bater em Bolsonaro: Paulo Guedes. Enquanto Guedes mantiver alguma esperança ou chance de cumprir com a agenda neoliberal dos poderes financeiros, Bolsonaro será mantido.”

A COMUNICAÇÃO DA ESQUERDA DESDE A DERROTA EM 2018

“Se alguém disser que a esquerda foi pega de supetão em 2018, a minha vontade é de encher essa pessoa de sopapo, porque não foram pegos de surpresa. Foram avisados, reavisados, super avisados, reavisados de novo. Quantas vezes a gente viu a imprensa noticiando que o estrategista de Trump estava chegando ao Brasil? Ninguém viu o que estava acontecendo nos EUA? O pessoal que fez a estratégia do Trump estava chegando ao Brasil e isso não acendeu a sirene vermelha?”

“A gente tem uma capilaridade orgânica natural nas redes, a esquerda tem essa característica e é muito mal aproveitada e muito mal explorada hoje em dia. Em 2014 ela funcionou direitinho.”

“Em 2018 eles não sabiam o que fazer. O PT estava mais preocupado com Lula do que com a campanha em si, e isso se refletiu. A campanha do Haddad estava sem cabeça. Não tinha uma ideia, um norte, uma proposta de comunicação. Não tinha nada. E o pessoal não entendeu o que aconteceu. Essa falta de compreensão em 2018 ainda dá para dizer: ‘a gente não sabia o que acontecia’. Agora não dá mais não. Agora não. Agora tem documentário na Netflix chamado ‘Privacidade Hackeada’. É dever de casa todo mundo assistir. Além do documentário, tem um livro da Brittany Kaiser chamado Manipulados. A Brittany é a pessoa que saiu da Cambridge Analytica e começou a contar tudo que acontecia. Os capítulos 9 e 13 são obrigatórios no meu curso na UnB. Ali existe a descrição perfeita do que aconteceu em 2016 nos EUA e do que aconteceu em 2018 aqui no Brasil, e do que vai acontecer agora em novembro, porque vai acontecer, tanto aqui nas eleições municipais no Brasil, quanto lá [na presidencial] nos EUA.”

A CHAVE ESTÁ NA SEGMENTAÇÃO E NARRATIVAS PERSONALIZADAS

“A alma desse negócio é o microtargeting.”

Enquetes que respondemos no Facebook têm por trás delas uma pontuação chamada “pontuação ocean”, que verifica a empatia em relação a vários assuntos e, principalmente, o nível de neurose de cada um. Essa pontuação somada ao tipo de like que você dá no Facebook, à página que você visitou, “tudo mapeia seu perfil psicológico”. “Não estamos mais falando de invasão de privacidade, estamos falando de invasão de intimidade. Uma pessoa que não me conhece, não sabe quem eu sou, está antevendo e prevendo as minhas movimentações na rede mediante o que eu faço. Isso é muito sério. Não existe nada que regulamente isso, nem aqui, nem nos EUA, e na Europa, mal e mal estão começando a querer fazer alguma coisa.”

Em 2016 havia esse mapeamento no Facebook americano que atingia mais de 500 mil contas. Com tudo mapeado, era possível direcionar a campanha para o público-alvo com uma precisão que outros tipos de plataforma não oferecem. Não precisava ir a um local pedir voto, bastava fazer anúncios para as pessoas mais inclinadas a ouvir o discurso de Trump. “São os chamados Dark Ads”. Ads vem de “Advertisement”, em português: propaganda. 

“Quando isso chegou aqui, as pessoas decidiram fazer pelo WhatsApp porque é muito mais difícil de rastrear.”

“Em 2014, boa parte do trabalho do Muda Mais [que fez a campanha de reeleição da Dilma Rousseff nas redes sociais] era mapear as redes, levantar o que estava sendo dito e daí a gente sabia o que fazer, como proceder. Em 2018 não tinha como fazer isso [no WhatsApp]. A gente recebia a informação quando ela já estava há dois, três dias rodando pelos zaps da vida. Além dos zaps, a gente tinha um monte de pastor evangélico falando cobras e lagartos do PT, do Haddad e do Lula.”

A campanha, de forma alguma, de nenhum aspecto, ela foi uma campanha limpa.”

A COMUNICAÇÃO DO GOVERNO BOLSONARO

“Os Bolsonaro são quatro idiotas. Nós temos mais capacidade de bolar um plano e estratégia de comunicação do que eles. Isto posto, o que a gente conclui? Que tem gente por trás deles. Que toda a estratégia de comunicação vem de fora. Não me digam que Steve Bannon não comanda os Bolsonaro porque eu não acredito. Até porque Steve Bannon é a pessoa que faz a conexão da extrema-direita no mundo. Ele tem conexões na França, Itália, Hungria, Alemanha, Estados Unidos e Brasil. Tem uma comunicação da extrema-direita funcionando baseada em mentiras e fake news.”

Para que campanha institucional se a ideia é manter todo mundo coeso, seguindo o Bolsonaro, o ‘grande mito’? O que você tem que fazer é continuar alimentando a neurose dessas pessoas, a desconfiança, o medo, é isso que está acontecendo. Temos uma realidade de um presidente verdadeiramente populista de direita, que trabalha com inimigos. Bolsonaro só existe se houver um antagonista. Ele nunca vai governar, porque se ele conseguir eliminar todo mundo, ainda assim ele não vai saber o que fazer. No momento ele está lutando contra inimigos. Então como ele faz isso? Disseminando fake news.

E A ESQUERDA NAS REDES SOCIAIS?

“Fake news é mentira funcionalizada, ou seja, alguém está mentindo para conseguir um resultado final. Isso só funciona se no meio houver uma mídia de propagação rápida e imediata de grande volume. Sem as redes sociais, as fake news não funcionam.”

“Quem conta uma mentira está contando com que isso seja espalhado, disseminado. É uma das estratégias da firehosing.”

“Então a narrativa deles só funciona se for propagada em grande volume. Do lado de lá, quem propaga as mentiras, na grande maioria, é robô. Quem propaga do lado de cá é gente real. Gente de carne e osso que comenta, interage, diz que é absurdo e reproduz.”

“O jornalismo da Globo fala o óbvio porque ninguém está falando o óbvio hoje em dia! A gente só ouve absurdos.”

“Por mais que a gente negue, a gente está reforçando e repercutindo o que eles falam.”

“O principal é não citar o que eles dizem. No momento em que a gente repete o que eles dizem, a gente está reforçando. A ideia é: ele está falando besteira, deixa ele falar besteira. Esquece o que ele está falando.”

“Você não precisa deixar o absurdo passar batido. Mas você não precisa citar o que ele está falando. Em vez de dizer: ‘olha, o Bolsonaro está dizendo que pular de precipício é legal, que absurdo!”, melhor dizer: ‘tem gente incentivando as pessoas a se suicidarem’.”

“O nome disso é reforço de frame [ou reforço de narratiba]. Em vez de dizer: ‘Galera, o Bolsonaro está falando para a gente ir para a rua!’, a gente tem que dizer: ‘fique em casa’. O frame é fique em casa. A gente tem que ter uma narrativa nossa.”

“Não vamos pegar frase dele e aplicar no nosso discurso porque isso não funciona. Temos que ter discursos próprios.”

O PAPEL DA MÍDIA PROGRESSISTA 

“Não estão no caminho certo. Nós precisamos de uma narrativa nossa. Nós não temos nem o que falar.”

“O que o PT anda falando agora: ‘que o PT é quem defende você’. Ok, e aí? É só isso que tem para falar? A gente precisa de mais estofo, mais força nesse discurso. Mostrar para o trabalhador que ele está desamparado, sim. Que esse negócio de empreendedorismo não é para qualquer um.” 

“Em vez de falar “reforma da previdência”, por que ninguém fala “destruição da previdência?” É uma palavra que diz tudo. Taí o título “Jair Rousseff” que não me deixa mentir.”

O CAMINHO NA ELEIÇÃO 2020

“Para esta eleição, nós vamos tomar uma tunda bonita. Vamos ter que fazer trabalho de formiga. Chegar para cada um que diz que Lula e o PT roubaram e perguntar como era a vida dessas pessoas na época do PT. Colocar a sementinha da dúvida.”

“Está todo mundo preocupado com a fake news, achando que o mais importante é pegar quem financia o caixa 2. Isso também é importante, mas a minha preocupação é com a tia do zap. Como vai ficar a cabeça da tia do zap depois de receber mentiras incessantes. Como fica a cabeça dela? Está todo mundo desaprumado. Está todo mundo numa vibe em que começa a acreditar que pular de precipício não é tão ruim assim.” 

“No meu doutorado eu tenho a tese de que quem se alimenta de fake news é como se tivesse com vício em heroína. Você não vai dizer para uma pessoa delirando de heroína que ela deve correr uma maratona porque é saudável. Precisa levar essa pessoa a um condicionamento físico antes. É um trabalho de formiga, complexo, no mano a mano. O que temos a favor disso é: é o tipo de coisa que a gente adora fazer, que é falar, então vamos fazer. É falar e também aprender a ouvir. Entender o gatinho que fez essas pessoas pararem de ouvir aquele partido que deu boas condições de vida a elas?”

SE NADA MUDAR, BOLSONARO É REELEITO

“Sim, e está na hora da gente entender o que é isso. Porque ninguém aqui no Brasil entendeu exatamente qual é a das redes sociais, a do microtargeting, qual é o do processo de internet. E precisamos urgentemente descobrir maneiras de coibir isso.”

“Isso é coisa de submundo. Quem faz esse trabalho com fake news não são pessoas que prezam pela ética. Esse tipo de ação sempre vai acontecer. Temos que coibir o máximo possível. Temos que oferecer letramento digital e discurso para todo mundo. Fazer a tia do zap voltar a desconfiar de tudo que acontece. As pessoas têm que entender em quem ganha e quem perde com uma mentira, e como uma mentira é estruturada. O modus operandi deles não vai muito.”

“Lula Livre é importantíssimo, mas não é a única coisa a se fazer. Por que como vai ser o PT depois do Lula? É uma pergunta a ser feita.”

A esquerda tem que parar de classificar o mundo entre trabalhadores e empregadores. Não funciona mais do ponto de vista prático. A comunicação da direita não quer saber do papel social, ela ataca o indivíduo no seu íntimo. 

“Nós temos que pensar seriamente se vamos fazer esse jogo da direita para a gente brigar de igual para igual. O problema disso é que vamos nos igualar a eles em termos éticos e morais. E eles contam com a gente não se igualar a ele. É uma sinuca de bico. O que nos resta? Leis para coibir isso.”

“A gente precisa ver como falar com o lado de lá”, e reduzir o tempo perdido em debates nas bolhas das esquerdas.

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