23 de junho de 2026

Evangélico que criticou uso político da fé em ato bolsonarista relata ameaças

Ismael Lopes discursou contra a exploração da fé política durante vigília após a prisão de Jair Bolsonaro, em Brasília
Crédito: Reprodução/ TVGGN

Ismael Lopes, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, recebeu ameaças após discurso contra exploração política da fé em Brasília. A Frente atua como contraponto à bancada evangélica, defendendo diversidade e diálogo sobre justiça social e democracia. Ismael critica avanço da extrema direita entre evangélicos e defende fé baseada em acolhimento, justiça social e convivência entre diferenças.

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O evangélico Ismael Lopes, integrante da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, afirmou ter recebido ameaças após discursar contra a exploração política da fé durante uma vigília de apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, em Brasília. O episódio ganhou repercussão nas redes sociais pela coragem de Ismael ao se posicionar em meio a um grupo hostil e majoritariamente alinhado à extrema direita.

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Em entrevista ao programa TVGGN Justiça da última sexta-feira (12), Ismael contou que passou a receber mensagens com ameaças principalmente pelas redes sociais. Segundo ele, a maioria tem caráter religioso, com declarações de que “Deus o castigaria” ou o colocaria “em um leito de hospital”. Houve também ameaças mais diretas, que estão sendo reunidas e anexadas a um processo, junto com a identificação de pessoas que o agrediram durante o ato. “A vida ficou turbulenta depois do ocorrido, mas sigo firme”, afirmou.

Frente Evangélica

Ismael explicou que a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito surgiu em 2016, às vésperas do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Naquele contexto, um manifesto foi lançado em defesa da democracia, reunindo evangélicos contrários ao que classificavam como golpe. A partir daí, o grupo se organizou como movimento social.

Segundo ele, a Frente atua como um contraponto à chamada bancada evangélica no Congresso, buscando mostrar que não há homogeneidade política entre fiéis. “A gente funciona como um contraponto à voz da bancada evangélica, mostrando que, entre os evangélicos, não tem uma homogeneidade, não somos um grupo da população que é uníssono numa só voz”, disse.

O movimento reúne pessoas evangélicas, entre elas pastores, pastoras e membros de igrejas, de diferentes denominações, mas não se organiza como um movimento religioso nem discute teologia.

A proposta, de acordo com Ismael, é dialogar a partir da fé com temas ligados ao Estado Democrático de Direito, como justiça social, direito à alimentação, moradia, segurança pública e combate à violência. “O crente não é só crente, é trabalhador, é de alguma categoria, ele tem raça, ele tem gênero, ela tem gênero, enfim. Então, a gente tem diversidade dentro do ambiente evangélico para além da fé”, afirmou.

Reação

O discurso da Frente, segundo Ismael, é recebido de formas distintas no meio evangélico. Em igrejas fortemente alinhadas ao bolsonarismo e ao fundamentalismo, a reação costuma ser de rejeição. Já em outras comunidades, o diálogo encontra mais abertura, especialmente quando o debate parte das condições reais de vida dos fiéis.

“Quem é crente também precisa de casa, quem é crente também precisa de política de segurança que não mate os filhos deles e delas, quem é crente também precisa de uma política de alimentação segura e saudável”, explicou. Para ele, a Bíblia traz princípios que convergem com a defesa da democracia, como justiça que não favoreça os ricos e cuidado com os mais pobres.

Ismael também criticou o que chama de mercantilização da fé e o avanço de discursos de ódio dentro de setores evangélicos. Segundo ele, a igreja deveria ser um espaço de acolhimento, cuidado e solidariedade, e não de polarização política ou violência.

O integrante da Frente defendeu ainda a convivência com outras religiões, especialmente as de matriz africana. Ele lembrou que o cristianismo tem origem afro-asiática e destacou sua atuação no movimento inter-religioso e em iniciativas de combate à intolerância religiosa, como colóquios em escolas com lideranças de diferentes crenças e também pessoas sem religião.

“Eu entendo que a conversão na fé é uma questão individual. Meu irmão ou minha irmã que quer caminhar comigo na fé cristã, ela é bem-vinda, ele é bem-vindo. Se ele não quiser, ela é bem-vinda, ele é bem-vindo também. A gente vai sentar junto, vai tomar um café, vai conversar, vai contar da vida, vai se divertir junto, porque é isso. A gente não pode fazer guerra santa, pelo amor de Deus”, afirmou. Para ele, cabe ao Estado garantir o direito de crer e de não crer, sem impor crenças à população.

Extrema direita

Durante a entrevista, Ismael também fez críticas ao discurso do empreendedorismo individual associado a setores evangélicos. Para ele, a fé cristã aponta para soluções coletivas, como cooperativas, e condena a exploração do trabalho. “A propriedade privada dos meios de produção fere princípios cristãos”, disse, citando passagens bíblicas que defendem a partilha conforme a necessidade.

Ele avaliou que o avanço da extrema direita entre evangélicos se deu pela apropriação de problemas reais da população, como segurança e educação, mas com diagnósticos e soluções falsas.

“As pessoas estavam desesperançosas e elas se agarraram a quem consegue dar para elas alguma esperança de futuro. A direita fez isso, a extrema-direita fez isso de forma mentirosa, usando fake news, mas ela prometeu esperança”, afirmou, citando exemplos como o discurso contra a chamada “ideologia de gênero” nas escolas.

Crescimento do discurso democrático

Ismael reconheceu que a defesa de uma fé comprometida com a democracia ainda cresce de forma lenta entre os evangélicos, em parte por falta de recursos e estrutura de comunicação. Ainda assim, afirmou perceber avanços e maior adesão ao discurso, especialmente entre setores críticos à polarização política.

Ao final, ele defendeu a organização coletiva como passo fundamental após o episódio em Brasília. “Digo que todo tema é político em alguma medida, porque ele está construindo a nossa forma de pensar o mundo, de pensar a sociedade. Então, o primeiro tema principal é a comunhão, no sentido de que nós somos comuns, nós somos um só em Cristo. Então, essa unidade é o eixo central de toda a nossa pregação”, afirmou, convocando manifestações e ações contra projetos que, segundo ele, ameaçam direitos e aprofundam desigualdades.

Ismael Lopes mantém perfis nas redes sociais para articulação política e religiosa e afirma que seguirá atuando na defesa do Estado Democrático de Direito e de uma fé cristã baseada no acolhimento, na justiça social e na convivência entre diferenças.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

2 Comentários
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  1. Carlos

    14 de dezembro de 2025 8:20 pm

    Qualquer facção ligada a bolsonarismo é fascista, não aceita o contraditório.
    Estados ligados à este estrume, a esta escória, cria mecanismos para o ódio, o racismo e a separação de pessoas com eliminação dos desfavorecidos.
    Por exemplo, do Paraná (só vem merda daí né?) que expande o estupro educacional vulgo: escola cívico militar, onde um PM na porta representa o “militar”, vem está pérola do chorume:
    “Vídeo mostra adolescentes fazendo apologia da violência em escola cívico-militar no PR”
    A musiquinha cantada pelos idiotas marchando atrás de um PM “educador” recomendava entrar na favela e deixar corpos no chão.
    Escrotos sendo formados por débeis mentais.

    1. José de Almeida Bispo

      16 de dezembro de 2025 7:36 am

      Porque não se usa mais o termo PROTESTANTE?

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