Fascismo: revolta e renascimento, por Carlos Russo Jr.

Barbárie e fascismo. Resistência e revolta. Para além do niilismo, em meio aos escombros da sociedade, preparemos um Renascimento

Imagem: Geledés

do Espaço Literário Marcel Proust

Fascismo: revolta e renascimento

por Carlos Russo Jr.

As duas as primeiras liberdades a serem aniquiladas pelo fascismo, e banidas da forma mais brutal, antes mesmo da adoção ou a promulgação de leis ou decretos com o exercício da violência pura e simples, são, primeiramente, a liberdade de organização e manifestação dos trabalhadores e a liberdade de opinião e de expressão. Para Gramsci, nisto já estará contida a essência mesma do fascismo.

E no avanço do mesmo, ainda é Gramsci quem destaca duas consequências: “A primeira é que, quando o fascismo se organizou no poder, primeiramente substituiu ou expulsou o velho pessoal dirigente político, sempre na esteira de denúncias contra a corrupção. A segunda, é que o governo fascista arrasta atrás de si até o fim, uma trupe, um bando de inconscientes, recalcados, aventureiros, corruptos e delinquentes”.

Pois os grupos que se reúnem em torno de um líder fascista, na expressão de Werneck Sodré, mostram uma mentalidade do capitalismo nascente, do tipo agressivo, que se define no absoluto desprezo pelas leis escritas, pelas regras éticas e morais, desprezo pela pessoa humana pelas conquistas da civilização, da cultura e pela natureza,.

O fascismo incorpora como nunca a servidão, a mentira e o terror, flagelos que buscam fazer reinar o silêncio entre os homens, obscurecendo-os uns aos outros e impedindo que se reencontrem no único valor que poderia salvá-los: a longa cumplicidade cujo limite é precisamente o poder de revolta dos homens em conflito contra o despotismo e a opressão.

Albert Camus, em “O Homem Revoltado”, trabalha especificamente a temática da destruição, da opressão e do despotismo, cujo mais importante contraponto será a resistência e a revolta social, e é sobre este trabalho que lhe rendeu o Prêmio Nobel de 1957 (juntamente com “A Queda”), que nos debruçaremos nesse ensaio.

“O revoltado ao soerguer-se frente ao opressor defende exclusivamente a causa da vida”. O homem revoltado não humilha ninguém; a liberdade que deseja é a mesma que ele reivindica para o outro.

Ao contrário do fascismo, a lógica profunda da revolta não é a da destruição, mas a da construção. Pois a lógica do revoltado é querer servir à justiça a fim de não aumentar a injusta condição humana, esforçar-se no sentido de uma linguagem clara para não aumentar a mentira universal e apostar, diante do sofrimento, na felicidade.

A revolta contesta o poder ilimitado que permite ao superior, aos poderosos, violarem a fronteira proibida. Logo, ataca a liberdade total e longe de reivindicar uma independência geral, o revoltado quer que se reconheça que a liberdade possui limites em qualquer lugar em que se encontre o ser humano, já que o limite é o seu próprio poder de revolta.

A história das revoluções mostra que quase sempre elas terminam em um conflito entre a justiça e a liberdade, como se estas fossem inconciliáveis. Ora, a liberdade absoluta é sempre o direito do mais forte dominar. Quando absoluta ela mantém os conflitos que beneficiam a injustiça.

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Se a revolta pudesse criar uma filosofia, afirma Camus, esta seria a dos limites, da ignorância calculada e do riso. Aquele que não pode saber tudo também não pode tudo mudar. Logo, o revoltado não nega a história que o cerca, pelo contrário nela tenta firmar-se, vendo-se como o artista diante do real, rejeitando a realidade sem dela poder escapar, mas buscando sua transformação.

Na sociedade capitalista monopolista e globalizada não há justiça e nem direitos naturais e civis que a fundamentem. Acontece que não há direito sem a expressão do direito. Para conquistar a existência é preciso partir do pouco de existência que descobrimos em nós, e não negá-la desde o início. Fazer com que o direito emudeça até que a justiça seja estabelecida é emudecê-lo para sempre. É confiar a justiça aos poderosos. Mesmo quando a justiça não é realizada, a liberdade preserva o poder de protesto e salva a comunicação.

O mesmo raciocínio aplica-se à violência. A não violência absoluta funda negativamente a servidão e suas violências; a violência sistemática destrói positivamente a comunidade viva e a existência que dela recebemos. Para serem profícuas, a violência e a não violência devem encontrar seus limites.

E o revoltado deve preservar seu caráter provisório de rompimento com a realidade, sempre ligada, se não puder ser evitada, a uma responsabilidade pessoal, a um risco imediato.

Afinal, os Fins justificam os Meios? É possível, mas quem justificará os Fins? A revolta responde: os Meios. A revolução, após duzentos anos de experiências (nos quais Camus insere a Revolução Francesa de 1789 e a Revolução Soviética de 1917), perdeu seu prestígio de festa e muito produziu sobre o que se refletir.

As ideologias que orientaram o século XX nasceram nos tempos das grandezas científicas absolutas; hoje todas as certezas científicas são relativizadas. O próprio espírito revolucionário se quiser continuar vivo deve voltar a retemperar-se na revolta, inspirando-se no único pensamento fiel a essas fontes, o pensamento dos limites.

Nem o real é inteiramente racional, nem o racional é totalmente real. Heráclito, inventor do devir, fixava um marco para esse processo contínuo. Esse limite era a nemisis, deusa da medida, fatal para aqueles que ultrapassam limites, cometem a desmedida e incorrem na hybris. Logo, é dever da revolta também amparar-se no equilíbrio que estas divindades estipulam.

A revolução só pode firmar-se numa civilização, não no terror, nem na tirania. O pensador se questiona: a criação e a revolução hoje são possíveis? A resposta é única e diz respeito ao renascimento de uma civilização.

A sociedade capitalista escraviza o homem ao meio- produção industrial. Faz promessas em nome de princípios formais que o capital é incapaz de gerar e que é negado pelos meios que ele emprega. Já aquela que no século XX era conhecida como o “socialismo real”, a sociedade de produção, do “progresso”, era apenas produtiva, não criadora.

Qualquer processo civilizatório só será possível se, ao renunciar ao niilismo dos princípios formais e ao niilismo sem princípios, se possibilite que o mundo reencontre o caminho da síntese criadora.

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A arte e a sociedade devem, para tanto, reencontrar a origem da revolta, na qual recusa e consentimento, singularidade e globalização, indivíduo e história se equilibram na tensão mais crítica.

Mas Camus faz questão de frisar que a revolta não é um elemento da civilização, ela, na realidade, precede a toda à civilização.

Diz Nietzsche: “Em vez do juiz e do repressor, o criador”. Acontece que toda criação nega em si mesma o mundo do senhor e dos escravos.

Mas o fato de que a criação seja necessária, não quer dizer que ela seja possível. Se a criação é impossível em meio à opressão e às guerras, não teremos processos criativos.

O mito da produção indefinida traz em si a guerra e a destruição do meio ambiente, assim como a nuvem carrega a tempestade. Se afinal, se o mundo se curvasse à lei dos exploradores, isso não provaria que a quantidade é soberana, e sim, que este mundo é um inferno. Mas o inferno só tem um tempo, a vida um dia sempre recomeça.

Talvez a mesmo a história tenha um fim; nossa tarefa, no entanto, não é terminá-la, mas criá-la à imagem daquilo que sabemos verdadeiro. A arte nos ensina que o homem não se resume somente à história, que ele encontra também razão de ser na natureza.

O grande Pã não morreu! Sua revolta mais instintiva, ao mesmo tempo em que afirma o valor e a dignidade comum a todos, reivindica obstinadamente, satisfazendo sua fome de unidade, uma parte intacta do real cujo nome é beleza!

Os revoltados que ignorarem a natureza e a beleza estão condenados a banir da nova história que desejam construir a dignidade do trabalho e da existência humana. Ao manter a beleza, preparamos o dia do renascimento em que a civilização colocará no centro de sua reflexão, longe dos princípios formais e valores degradados da história, essa virtude viva que fundamenta a dignidade comum do mundo e do homem, e que agora devemos garantir diante de um mundo que a insulta.

Se a revolta quer uma revolução, ela a quer a favor da vida, de baixo para cima. Longe de ser romântica, ela toma o caminho do verdadeiro realismo.

A Comuna contra o Estado, a sociedade concreta contra a absolutista, a liberdade refletida contra a tirania racional e, finalmente, o individualismo altruísta contra a colonização das massas: são as antinomias que traduzem o longo confronto entre a medida e a desmedida que animam a história do Ocidente desde o mundo antigo.

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Como já vimos a medida não é o contrário da revolta. A revolta é a medida, é ela quem a exige, quem a defende e recria através da vida e dos seus distúrbios; por outro lado, a medida nascida na revolta só pode ser vivida pela revolta, pois a desmedida conservará sempre o seu lugar no coração do homem, um lugar de solidão e niilismo.

Todos carregamos pela vida nossas próprias masmorras espirituais, nossos crimes e nossas devastações. A tarefa não é soltá-los pelo mundo, mas combatê-los dentro de nós próprios e nos outros. A revolta, a secular vontade de não ceder de que falava Barrès, ainda hoje está na base desse combate. Mãe das formas, fonte da vida verdadeira, ela nos sustenta no movimento selvagem e disforme da história.

A revolta confronta incansavelmente o mal, do qual só lhe resta tirar um novo ímpeto. Nenhuma sabedoria atualmente pode pretender dar mais.

O homem pode dominar em si tudo aquilo que deve ser dominado. Em seu maior esforço o homem deve propor-se uma diminuição aritmética do sofrimento do mundo. E se a injustiça e o sofrimento permanecerem, não deixarão de ser um escândalo. O porquê de “Irmãos Karamasovi” continuará a ecoar: a arte e a revolta só morrerão com a morte do último homem!

Acontece que há vinte séculos, a soma total do mal não diminuiu no mundo. Nenhuma Parúsia, nenhuma Jerusalém rediviva, quer a divina ou a revolucionária, se realizou. Agora, sem a revolta, aqueles que não encontram descanso nem em Deus e nem na História estão condenados a viver como humilhados. Vale sempre o grito de Ivan Karamasov: “se não forem salvos todos, de que serve a salvação de um só?”.

A verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente. A revolta é o próprio movimento da vida; por isso ela é amor, humanismo e fecundidade ou ela não é nada. A revolução sem honra, que coloca o homem abstrato no lugar do de carne e osso, coloca o ressentimento no lugar do amor. A revolta, quando se contamina pelo ressentimento deixando suas origens generosas, nega a vida e corre para a destruição, fazendo sublevar-se a turba de pequenos escravos que se oferecem aos mercados da servidão e do enriquecimento de poucos.

Barbárie e fascismo. Resistência e revolta. Para além do niilismo, em meio aos escombros da sociedade, preparemos um Renascimento. Para tal, devemos aprendera viver e a morrer para sermos homens.

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