
Luis Antonio Simas, pelo Facebook
(Acabei de receber uma mensagem pedindo indicações sobre botequins. O negócio é o seguinte: eu só conheço realmente o Bode Cheiroso, buteco que fica pertinho da minha casa. O conhecimento de um botequim é parecido com o de uma cidade ou da pessoa amada; é necessário o convívio sistemático, constante. Reproduzo, por isso, um texto de 2011, em que falo sobre a minha relação com o Bode. É apenas sobre ele que posso dar pitaco com conhecimento de causa.)
Certa feita escrevi sobre o que espero de um botequim. Cito:
‘O velho buteco, o pé-sujo, é a ágora carioca. No botequim não há grifes, não há o corpo-máquina, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que cumpram-se seus rituais.
O buteco é a casa do disforme, do arroto, da barriga indecente, da porrada, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da alegria do novo amor, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar.
A luta pelo boteco é a possibilidade de manter viva uma ágora popular, espaço de geração de ideias e utopias – sem pedantismos intelectuais, mas fundadas na sabedoria dos que precisam inventar, por escassa, a vida – que possam nos regenerar da falência de uma (des)humanidade que limita-se a sonhar com a roupa nova e o corpo moldado. O botequim é o anti-shopping center, é a anti-globalização, é a recusa mais veemente ao corpo-máquina dos atletas olímpicos ou ao corpo doente das anoréxicas – doença comum nesse mundo desencantado.
Ali, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, daquele mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o deus e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o ser humano é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória – a capacidade de sonhar seus delírios e afogar suas dores e medos na próxima cachaça. É onde a alma da cidade grita – Não passarão!’
Pois bem, camaradas, o Bode Cheiroso, portentoso buteco carioca na General Canabarro, funciona mais ou menos assim. A começar pelo Bigode, que controla o balcão feito Domingos da Guia dominava a grande área e abre cerveja atrás de cerveja como Garrincha enfileirava os marcadores. É craque.
Eu só acredito em garçons que pareçam egressos do cangaço. São cada vez mais raros, diante da profusão dos garotões de aventalzinho e das moças moderninhas que pululam feito mato nos bares de grife. A destreza com que Bigode abre uma ampola cu de foca – como se fizesse isso desde que o primeiro hominídeo caminhou ereto na Serra da Capivara – é a mesma com que Lampião manuseava o fuzil parabelo.
Não, no Bode não tem Comida Di Buteco. Até porque os frequentadores do Bode são do tempo em que Di era só o Cavalcanti, fauno tropical que retratava as mulatas mais gostosas com as tintas brasileiras. Vez por outra, é justo recordar, aparecia algum bandido de um metro e meio com a clássica alcunha de Di Menor. E a onda do Di parava por aí.
Espero apenas que o Bode não acabe sucumbindo aos apelos modernosos dos pés limpos e de seus programadores visuais e assessores de imprensa. Sou um sujeito tradicional, o que não se confunde com um conservador. Refiro-me a uma tradição que não é estática. Falo dela como o ato de transmitir ou entregar algo para que o receptor tenha condições de colocar mais um elo numa corrente. A cultura que aprendi nos terreiros de macumba e nos botequins é essa; a capacidade de criar e recriar a partir do legado dos ancestrais.
Vivemos, porém, tempos desencantados em que acredita-se na tábula rasa. Rompa com o passado , ignore o que é antigo , olhe sempre pra frente , a vida começa agora, danem-se os cinquenta anos que passaram – o negócio são os dez anos que virão por aí. Enchamos as burras.
Pé de pato, mangalô, três vezes. Que isso não ocorra e eu continue tendo, ao morar perto do Bode, o mesmo prazer do egiptólogo que mora quase ao lado das pirâmides de Gizeh.
Não sou profeta e não conduzo ninguém. Quero apenas ter o direito de buscar, quando a tarde cai numa esquina da Zona Norte carioca, o meu cadinho da Canaã, a terra prometida aos homens simples de boa vontade.
(l.a. simas)
ps: Bigode, citado no texto, se aposentou. O Paulinho, sob comando doLeonardo Lelê, vem cumprindo com galhardia as mesmas funções.
LACosta
27 de dezembro de 2014 11:22 amDigno
Senti ai umas pitadas do molho do Aldir, o Blanc. Não faria vergonha ao mestre. Digno. Por aqui não há “ampola de cú de foca” mas várias ampolas de esteróides anabólicos congeladas.
jns
27 de dezembro de 2014 11:27 amBoteco
Eu quero tchu!
“É onde a alma da cidade grita: – Não passarão!”
Enquanto isso, em uma das mesas do bar do Carlinhos:
[Jorge]: Cumpade, ontem a noite foi boa!
[Pereira]: O que aconteceu de diferente?
[Jorge]: Troquei a agulha da vitrola porque, você sabe, o bolachão está na moda de novo; coloquei aquela música do filme que o cara morre, mas o espírito volta e fica com a mulher, e relembrei os velhos tempos com a Neusa.
[Pereira]: Nossa, cumpade, depois de tanto tempo?
[Jorge]: Pois é. Se eu soubesse que era só trocar uma agulha…
[Pereira]: Me passa o nome da música.
[Jorge]: Não é assim! A música é boa, mas marcou momentos bons da nossa vida.
[Pereira]: Ah, entendi! Então já sei qual vai embalar a noite de hoje com a Cleuza.
[Jorge]: Esses dias lembrei daquela que tocava no clube, quando éramos bons de bola.
[Pereira]: E tem aquela que tocava, quando a galera ia de Fusca à casa da Lurdes. Lembra?
[Jorge]: Bons tempos!
[Pereira]: E trilha sonora boa também!
Enquanto isso, na mesa ao lado:
[Pedro]: Amor, fiquei animado com a conversa desses dois. Assim que chegarmos em casa, vamos ouvir a nossa música?
[Ana]: Claro, amor! Qual vamos ouvir?
[Pedro]: Pode ser “Ai se eu te pego”. Não, não, melhor ainda, pode ser “Eu quero tchu, eu quero tcha”. O que acha?
[Ana]: Amor, tudo bem se deixarmos para outro dia. De repente me deu uma dor de cabeça.
Voltando à mesa ao lado:
[Pereira]: Cumpade, fala para o moço aqui do lado onde você trocou a agulha da vitrola!
“Espero apenas que o Bode não acabe sucumbindo aos apelos modernosos dos pés limpos e de seus programadores visuais e assessores de imprensa.”
&
A crônica “Conversa de Boteco” foi publicada por Antonio Carlos no seu Blog
http://www.blogantoniocarlos.com/2014/02/cronica-conversa-de-boteco-bar-do.html
Lucinei
27 de dezembro de 2014 1:59 pmMuito boa. Acho que essas
Muito boa. Acho que essas histórias de buteco chegam a ser um gênero especial.
Maria Luisa
27 de dezembro de 2014 11:46 amEncanto
Um brinde ao Bode Cheiroso! Que os velhos botequins continuem fazendo face aos bistrôs ‘di’ qualquer coisa.
Lucinei
27 de dezembro de 2014 1:53 pmO “meu” buteco de uns dez
O “meu” buteco de uns dez anos pra cá é o Panamá, na Domingos Ferreira, quase esquina com a Bolívar. É da classe dos “pé limpo”. O Banheiro é incrivelmente cheiroso pra um boteco, e a cozinha também é limpíssima. O dono é um espanhol de 84 anos, há mais de 60 aqui no Brasil. A descrição do Bigode fez lembrar o Freitas, que também está prestes a se aposentar.
Uma Brahma, porém, está R$ 8. Uma Bohemia ou Original, R$ 11.
Por tras disso está o absurdo aumento dos aluguéis da classe rentista que chega a pagar R$ 14 na mesma Original num “bar de grife”. Nessa área repleta desses bares chiquezinhos os preços dos aluguéis vêm apertando o pescoço dos inquilinos. Um pastelzinho, um bolinho de bacalhau, uma empada de camarão já aumentaram mais de 300% nesses últimos anos. Aquela carne assada boa pra fazer um sanduíche também. Até o jiló cozidinho e bem acebolado está com os preços bombados.
Fernando J.
27 de dezembro de 2014 2:11 pmCopacabana, quanto mais perto
Copacabana, quanto mais perto de Ipanema, é isso aí mesmo, Lucinei. Venha para o maravilhoso mundo dos botequins pés-sujos, seus banheiros e suas cozinhas “típicas”. Por exemplo, o Beco da Fome, rua ministro Viveiros de Castro, ao lado da boate Barbarella, maravilhosamente descrito pelo amigo Vinícius, há uma semana:
BAR DO BAHIA: Brahma de 600ml R$ 5,00; Jiló Recheado a 3,00 R$; Pão com Moela 4,00 R$
A sociedade elitista taxou os ambientes verdadeiramente felizes e populares como “pés-sujos”. Como se para ser limpo você necessite ter uma bela decoração, pessoas com roupas caras e estudantes de História ricos fingindo que são pobres ouvindo The Smiths.
Não. Tá errado.
Apesar do banheiro ser imundo e o copo de vidro transmitir tifo e hepatite, o Bar do Bahia é pé-limpo na alma.
Eu acho que todos nós devemos lutar contra esse preconceito e quebrar estes grilhões. Os ambientes sujismundos são belos e esfregam a verdade na nossa cara, do alto de suas lâmpadas amarelas de 100 watts que evidenciam a sua espinha, o seu cravo, o seu furúnculo e todos os seus pelos na orelha. E é por isso que estou neste momento, aqui, com um celular MP10 emprestado escrevendo isto.
O bar, ou melhor, esta ESPELUNCA, fica encravada na rica Zona Sul carioca na divisa entre os bairros do Leme e Copacabana. E apesar disto, os preços praticados por aqui são mais honestos que o 1° mandato do Brizola ou os discursos do Paulo Freire. E, pagar 5 r$ por uma Brahma geladíssima em plena zona sul, é uma aberração que chega parecer trapaça, daquelas do tipo: Garotinho fazendo greve de fome ou o sequestro da Patrícia Abravanel.
O clima de anarquia é tão grande que o Bahia é flamenguista, porém o bar é o único point de vascaínos da zona sul do Rio de Janeiro (região conhecida por ter menos torcedores do Vasco do que no deserto do Atacama), a bandeira do teto do boteco é do Botafogo, o local é frequentado por policiais a paisana, bicheiros, cafetões, moradores pobres de Copacabana e do Leme num geral, senhoras viciadas em bingo, taxistas, mendigos, travestis, funcionários do gatonet, a turma do caça-níquel e evangélicos indecisos.
A bebida é geladíssima, a comida é foda e mata fome (bate e entope), o clima é de amizade, o bar fica aberto até o último cliente e serve café da manhã (logo, ele é 24 horas, 7 dias por semana), e o café da manhã invariavelmente consiste em costela de boi assada na pressão com agrião e cuz-cuz. A segurança do local é desnecessária, pois a cara e o mau-humor do Bahia são tão feias que amedrontam até o cão. Além de que a quantidade de bicheiros, travecos, taxistas e malandros presentes neste quarteirão, o tornam mais seguro que a própria Casa Branca.
E como eu diria:
Diversão: 10
Iguarias: 10
Bebida: geladíssima
Localização: 10
Média Final: PICA DAS GALÁXIAS
— em Leme
Lucinei
27 de dezembro de 2014 6:43 pmHaha! Boa dica, Fernando
Haha! Boa dica, Fernando J.
Estou precisando mesmo dar umas caminhadas pra “derreter o toucinho”. Já sei a direção. 2015 vem aí, e, sabe como é, nesse começo de “treino” com certeza vai dar uma sêde danada. Já sei onde fazer o “pit stop”, hhaha!
Aliás, por ali tem o Cervantes, que foi ficando muito “bestinha”… E o El Cid, claro, que também salvou a madrugada várias vezes…
Saudações.
manoel davi
27 de dezembro de 2014 2:20 pmfim da tarde no bode
Que saudades do pé sujo da são josé do RIO.
Lucinei
27 de dezembro de 2014 7:16 pmVocê está se referindo ao
Você está se referindo ao Café Gaúcho, na esquina do Largo São José, bem próximo da Rio Branco com Almirante Barroso, manoel davi? Que tem um pão com linguiça “campeão” e o famoso “coquinho”, uma cachacinha que fica “curtindo” dentro de um côco sêco por uns trinta dias? Onde o pessoal fica bebendo chope no fim da tarde na calçada? Perto do sindicato dos bancários?
Lá é dez também!