Eric Clapton agulha I shot The xerife na guitarra e eu fiz a ponte com o xerife alvejado pelo The Intercept. Foi flagrado com a calça na mão e suas nádegas pútridas estão expostas nas janelas da Nação
Nesse governo com ressaca moral e à deriva, quando se descansa (das patifarias cotidianas), carrega-se pedras.
Achou-se pouco a tentativa, há pouco tempo atrás e, aparentemente, a troco de nada, do $ Moro turbinar o faturamento da indústria tabagista às custas do sistema respiratório da Nação, com redução abissal dos impostos sobre os cigarros, agora transporta-se pó na aeronave prisidencial.
Pó parar, Perrella
Bolsonaro critica fala de Angela Merkel sobre pauta ambiental do Brasil: ‘Temos muito a ensinar à Alemanha’
Este é o título de matéria de hoje na BBC News Brasil. Fala por si. Porém, o mais importante, o comportamento, a atitude, o despreparo e o visível desequilíbrio do presidente durante a entrevista não consegue ser captado em palavras. Isso pode ser visto no vídeo da entrevista postado em https://www.youtube.com/watch?v=n1xCk8T8E_M.
Muito se tem dito sobre a personalidade de Bolsonaro, a maioria das vezes menosprezando-o, como se fosse uma grande piada. Não cabe, mesmo em um país de especialistas em tudo, diagnosticar alguém, muito menos baseado em observações à distância e menos ainda tratando-se de um presidente da República. Todavia, é preciso passar a olhar Bolsonaro de outro modo, como o que de fato aparenta ser.
Na entrevista, além de se referir à declaração de Merkel com agressividade, com argumentos vazios e falaciosos como de hábito e com a usual dificuldade de articulação das palavras, ataca a imprensa e ao ser questionado sobre suas próprias postagens nas redes sociais, encerrou a entrevista com grosseria e retirou-se, abruptamente, de cena.
Bolsonaro, por mais histriônico, intelectualmente primário e ausente de qualquer comportamento mínimo de civilidade é, acima de tudo, um tirano. Não admite sequer ser indagado sobre fatos, reage com violência à crítica e se acuado deixa entrever em toda a extensão o autoritarismo, marca da tirania e do despreparo, o que, via de regra, acompanha desvios de personalidade. Sempre que acuado, como ora está pelo conjunto da obra, mas, especialmente pelas sucessivas derrotas no Congresso, circunstanciadas pelos problemas com o seu ministro da Justiça e pela enorme falha do GSI que permitiu transformar um avião da comitiva presidencial em transporte de cocaína, reage extremado.
É senso comum que seu governo não chega ao fim, ao menos em um bom fim e ele, a cada dia, deve tomar mais consciência da situação. Logo, não se deve tergiversar com figura com Bolsonaro, muito menos se estiver em posição de exercer poder, as consequências podem ser fatais.
Quem ainda não assistiu a série Dark está, literalmente, perdendo tempo. É excelente. Aborda quanticamente a viagem no tempo. Grosso modo, tem o seu start com o que chamo de paradoxo de Mikkel: o menino que subitamente volta ao passado para que então o futuro aconteça e, assim, o próprio passado se materialize.
Para mim, o ensinamento maior da série, no entanto, não é o de trazer à tona os paradoxos temporais, os encontros e desencontros e as mudanças de possibilidades através de viagens no tempo. O que a série me mostra é que, na verdade, o maior paradoxo de todos é a realidade. Viajar no tempo e refazer ações e passar mensagens ou previsões a si mesmo não é paradoxal, assim o entendo. É materialização de um ‘caos calculado’ que abre janelas para novos erros e imperfeições do universo. Isso a série deixa claro. Mas a meu ver, o grande questionamento que Dark traz é o de mostrar quão absurda e paradoxal é a própria realidade, esta realidade linear que nós estamos inseridos.
E Dark tem como pano de fundo, seja em 1921, 1953, 1986, 2019, 2052 etc, o próprio curso linear de nossa existência e o Zeitgeist que nos molda: o fim do humanismo. Este é o espírito do tempo. Em Dark, se viajamos no tempo e não encontramos humanismo – só se vê a crise do humanismo por todo lado – , como teríamos humanismo no decorrer linear do tempo? Não temos e não teremos. Ambos estão colados e o tempo linear se torna um mau agouro para os otimistas.
Dito isto, paradoxal mesmo é a realidade tal como estamos inseridos. É altamente paradoxal uma realidade linear, que flui e produz eventos que vão se sucedendo e que nos faz, ao mais das vezes, sermos impotentes. É um paradoxo ainda insolúvel viver sob o manto da realidade e dela tirar algo que transforme a maneira como temos esta mesma realidade. Afinal, quando se pode viajar no tempo deixa-se de lado o respeito ao outro, imagina vivendo de maneira linear. No fim do humanismo, em que Voltaire já não interessa mais, o ser humano como solidário do outro está morto na linearidade, na realidade em que vivemos.
Entendo que o que somos é e não é palpável, tal como o gato que está morto e vivo ao mesmo tempo no paradoxo de Schrödinger. Vivemos uma realidade em que podemos ser tautológicos nas palavras, mas não conseguimos fazer isso na vida real. Eu estou escrevendo este texto agora. Eu sabia como ia começar, mas não tenho ideia do seu fim. Estou desenvolvendo ele. Eis o paradoxo da realidade.
Mas o que isso tem a ver com Lula? A situação de Lula é uma manifestação efetiva do paradoxo de realidade. Estamos vivendo ela. Por pior que seja, precisamos aprender com ela, porque dentro da linearidade surreal em que vivemos, a única forma de crescer é aprender com a realidade. Não teremos outra chance de ela se repetir da mesma forma.
Todos os que defendem a democracia e a justiça, de maneira racional e humanista, com toda a razão, percebem o quão injusta é a condição de Lula. Mas todos, todos nós, diante de uma realidade paradoxal por si só, mas que está se materializando, estamos agindo e respondendo errado frente à ela. Nossa sociedade está vivendo como se estivesse diante do buraco de minhoca e acreditando que aquilo é apenas um efeito especial, um truque, e não a realidade flagrante que nos derruba. Estamos tomando rasteira e achando que isso é apenas um filme, um game sofisticado e não a realidade paradoxal que nos enxurra.
Lula só continua preso porque é preso político, evidente. Mas a materialização de sua prisão, ainda que não haja o mínimo rubor dos juízes em afirmar isso, é a questão da dúvida. Na verdade, ninguém tem dúvida: não houve crime, não houve materialidade, há agora o Intercept etc. Não há dúvida. Mas, no teatro montado, a dúvida é se houve parcialidade ou não, se houve materialidade ou não.
Se Lula fosse de fato um réu culpado, ou seja, comprovadamente corrupto, com todas as provas indiscutíveis e até mesmo com direito à ampla defesa e ao falacioso in dubio pro reu, etc, ele já estaria solto. Resumindo: se Lula fosse comprovadamente o que se convencionou chamar de ‘ladrão’, ele já estaria solto.
Mas, por haver (hipocritamente e circunscrito ao paradoxo de nossa realidade) a tal dúvida, ele está preso.
E mais: no dia em que sua inocência for provada por A+B (e este dia vai chegar) de maneira escancarada, sei lá, com áudios periciados indicando as armações, documentos falsificados contra ele, revisionismo jornalístico, ou seja, o mundo desabando e mostrando que ele foi vítima de uma injustiça, aí é que ele não sairá mesmo da cadeia: terá prisão perpétua.
Na verdade, isto é uma situação extrema, porque o dia em que todas as provas provarem que ele era realmente inocente, ele já estará morto: a prisão perpetua já terá cumprido sua função.
A prisão política não é porque ele é um grande líder e sua liberdade pode mudar os rumos da política no Brasil. Este é um pensamento pequeno, de retrovisor, nostálgico, institucional. A sua prisão é na verdade um retrato do fim do humanismo, fenômeno que pode ser retratado, na minha percepção, como o direito legal da pessoa de suicidar a si e aos outros sem sofrer consequências, posto que é ela quem dita o que é certo ou o que é errado. Esta pessoa possui um vizinho, que também possui este direito, que possui outro vizinho, que também possui este direito etc…
Para Lula ser solto, ele realmente precisaria ser um criminoso, o que ele não é. Infelizmente não foram encontradas provas concretas de seus crimes. Houvesse, ele estaria livre, seria de novo um ator político, teria algum poder de mobilização, nem de longe reverteria a crise do humanismo, mas traria um pouco de dignidade à nossa sociedade. É óbvio. Mas, lamentavelmente, não há provas de seus crimes.
Por isso, diante do paradoxo da realidade tal como vivemos, exige-se das pessoas que sinceramente querem de fato o Lula Livre, um entendimento e uma ação à luz do arcabouço paradoxal. Não há o privilégio de um buraco de minhoca. O desafio é infinitamente maior em uma realidade linear, o que é inacreditável, pois uma realidade linear deveria trazer um pouco de segurança pelo simples fato de sabermos que, ceteris paribus¸ houve o ontem e, de alguma maneira um pouquinho racional, pode-se prospectar o amanhã.
Só se defende o indefensável quando se causa vergonha e dor naquele outro que o defende.
Tal como os negros que se ofereciam para ser presos na luta dos direitos civis norte-americanos, deve-se clamar por mais injustiças. Quem está angustiado de ver o Lula preso, tem que pedir mais prisão para Lula, com trabalhos forçados, humilhações e ódios. Com desdém e raiva. Com petições públicas de mais injustiça. Para ser um pouco humano, paradoxalmente, é preciso manifestações públicas de todos as pessoas que de fato o querem bem desejando-lhe o mal, o mal insuportável de uma realidade paradoxal do qual nos tornamos cúmplices e vítimas. Claro que isso é Nietzche na veia. Levar o horror às últimas consequências para que ele próprio se envergonhe de si mesmo, ainda que até para a vergonha, como diria o Chaves, “a gente aguenta”.
Mas os códigos da realidade paradoxal que vivemos estão se replicando dentro de si mesmo, não geram nada novo e só geram outros paradoxos que se tornam o nosso cotidiano. Isso não vai mudar porque se retroalimenta e se auto mutila. Está confortável assim. Nas palavras de Adorno e Horkheimer:
“Uma vida feliz num mundo de horror é refutada como algo de infame pela mera existência desse mundo. Este torna-se assim a essência, aquela algo de nulo. Certamente, o assassinato dos próprios filhos e esposas, a prostituição e a sodomia, são muito mais raros entre os governantes durante a era burguesa do que entre os governados, que adoptaram os costumes dos senhores de épocas anteriores. Em compensação, quando estava em jogo o poder, estes ergueram montanhas de cadáveres mesmo nos séculos mais recentes. Comparada à mentalidade e aos actos dos senhores no fascismo, onde a dominação realizou sua essência, a descrição entusiástica da vida de BrisaTesta (na qual, porém, é possível reconhecer aquela) cai ao nível de uma banalidade inofensiva. Os vícios privados são em Sade, como já eram em Mandeville, a historiografia antecipada das virtudes públicas da era totalitária. O facto de ter, não encoberto, mas bradado ao mundo inteiro a impossibilidade de apresentar um argumento de princípio contra o assassinato ateou o ódio com que os progressistas ainda hoje perseguem Sade e Nietzsche. Diferentemente do positivismo lógico, ambos tomaram a ciência ao pé da letra. O facto de que insistem na ratio de uma maneira ainda mais decidida do que o positivismo tem o sentido secreto de liberar de seu invólucro a utopia contida, como no conceito kantiano de razão, em toda grande filosofia: a utopia de uma humanidade que, não sendo mais desfigurada, não precisa mais de desfigurar o que quer que seja. Proclamando a identidade da dominação e da razão, as doutrinas sem compaixão são mais misericordiosas do que as doutrinas dos lacaios morais da burguesia. “Onde estão os piores perigos para ti?”, indagou um dia Nietzsche “Na compaixão”. Negando-a, ele salvou a confiança inabalável no homem, traída cada vez que se faz uma afirmação consoladora.” (Excurso II, Dialética do Esclarecimento.)
Como um micro remédio em favor de Lula, é preciso furar um pouco este paradoxo. É preciso usar os códigos do horror para superar o horror. Eu não sou filósofo nem intelectual. É apenas uma contribuição angustiada.
Quem ainda não assistiu a série Dark está, literalmente, perdendo tempo. É excelente. Aborda quanticamente a viagem no tempo. Grosso modo, tem o seu start com o que chamo de paradoxo de Mikkel: o menino que subitamente volta ao passado para que então o futuro aconteça e, assim, o próprio passado se materialize.
Para mim, o ensinamento maior da série, no entanto, não é o de trazer à tona os paradoxos temporais, os encontros e desencontros e as mudanças de possibilidades através de viagens no tempo. O que a série me mostra é que, na verdade, o maior paradoxo de todos é a realidade. Viajar no tempo e refazer ações e passar mensagens ou previsões a si mesmo não é paradoxal, assim o entendo. É materialização de um ‘caos calculado’ que abre janelas para novos erros e imperfeições do universo. Isso a série deixa claro. Mas a meu ver, o grande questionamento que Dark traz é o de mostrar quão absurda e paradoxal é a própria realidade, esta realidade linear que nós estamos inseridos.
E Dark tem como pano de fundo, seja em 1921, 1953, 1986, 2019, 2052 etc, o próprio curso linear de nossa existência e o Zeitgeist que nos molda: o fim do humanismo. Este é o espírito do tempo. Em Dark, se viajamos no tempo e não encontramos humanismo – só se vê a crise do humanismo por todo lado – , como teríamos humanismo no decorrer linear do tempo? Não temos e não teremos. Ambos estão colados e o tempo linear se torna um mau agouro para os otimistas.
Dito isto, paradoxal mesmo é a realidade tal como estamos inseridos. É altamente paradoxal uma realidade linear, que flui e produz eventos que vão se sucedendo e que nos faz, ao mais das vezes, sermos impotentes. É um paradoxo ainda insolúvel viver sob o manto da realidade e dela tirar algo que transforme a maneira como temos esta mesma realidade. Afinal, quando se pode viajar no tempo deixa-se de lado o respeito ao outro, imagina vivendo de maneira linear. No fim do humanismo, em que Voltaire já não interessa mais, o ser humano como solidário do outro está morto na linearidade, na realidade em que vivemos.
Entendo que o que somos é e não é palpável, tal como o gato que está morto e vivo ao mesmo tempo no paradoxo de Schrödinger. Vivemos uma realidade em que podemos ser tautológicos nas palavras, mas não conseguimos fazer isso na vida real. Eu estou escrevendo este texto agora. Eu sabia como ia começar, mas não tenho ideia do seu fim. Estou desenvolvendo ele. Eis o paradoxo da realidade.
Mas o que isso tem a ver com Lula? A situação de Lula é uma manifestação efetiva do paradoxo de realidade. Estamos vivendo ela. Por pior que seja, precisamos aprender com ela, porque dentro da linearidade surreal em que vivemos, a única forma de crescer é aprender com a realidade. Não teremos outra chance de ela se repetir da mesma forma.
Todos os que defendem a democracia e a justiça, de maneira racional e humanista, com toda a razão, percebem o quão injusta é a condição de Lula. Mas todos, todos nós, diante de uma realidade paradoxal por si só, mas que está se materializando, estamos agindo e respondendo errado frente à ela. Nossa sociedade está vivendo como se estivesse diante do buraco de minhoca e acreditando que aquilo é apenas um efeito especial, um truque, e não a realidade flagrante que nos derruba. Estamos tomando rasteira e achando que isso é apenas um filme, um game sofisticado e não a realidade paradoxal que nos enxurra.
Lula só continua preso porque é preso político, evidente. Mas a materialização de sua prisão, ainda que não haja o mínimo rubor dos juízes em afirmar isso, é a questão da dúvida. Na verdade, ninguém tem dúvida: não houve crime, não houve materialidade, há agora o Intercept etc. Não há dúvida. Mas, no teatro montado, a dúvida é se houve parcialidade ou não, se houve materialidade ou não.
Se Lula fosse de fato um réu culpado, ou seja, comprovadamente corrupto, com todas as provas indiscutíveis e até mesmo com direito à ampla defesa e ao falacioso in dubio pro reu, etc, ele já estaria solto. Resumindo: se Lula fosse comprovadamente o que se convencionou chamar de ‘ladrão’, ele já estaria solto.
Mas, por haver (hipocritamente e circunscrito ao paradoxo de nossa realidade) a tal dúvida, ele está preso.
E mais: no dia em que sua inocência for provada por A+B (e este dia vai chegar) de maneira escancarada, sei lá, com áudios periciados indicando as armações, documentos falsificados contra ele, revisionismo jornalístico, ou seja, o mundo desabando e mostrando que ele foi vítima de uma injustiça, aí é que ele não sairá mesmo da cadeia: terá prisão perpétua.
Na verdade, isto é uma situação extrema, porque o dia em que todas as provas provarem que ele era realmente inocente, ele já estará morto: a prisão perpetua já terá cumprido sua função.
A prisão política não é porque ele é um grande líder e sua liberdade pode mudar os rumos da política no Brasil. Este é um pensamento pequeno, de retrovisor, nostálgico, institucional. A sua prisão é na verdade um retrato do fim do humanismo, fenômeno que pode ser retratado, na minha percepção, como o direito legal da pessoa de suicidar a si e aos outros sem sofrer consequências, posto que é ela quem dita o que é certo ou o que é errado. Esta pessoa possui um vizinho, que também possui este direito, que possui outro vizinho, que também possui este direito etc…
Para Lula ser solto, ele realmente precisaria ser um criminoso, o que ele não é. Infelizmente não foram encontradas provas concretas de seus crimes. Houvesse, ele estaria livre, seria de novo um ator político, teria algum poder de mobilização, nem de longe reverteria a crise do humanismo, mas traria um pouco de dignidade à nossa sociedade. É óbvio. Mas, lamentavelmente, não há provas de seus crimes.
Por isso, diante do paradoxo da realidade tal como vivemos, exige-se das pessoas que sinceramente querem de fato o Lula Livre, um entendimento e uma ação à luz do arcabouço paradoxal. Não há o privilégio de um buraco de minhoca. O desafio é infinitamente maior em uma realidade linear, o que é inacreditável, pois uma realidade linear deveria trazer um pouco de segurança pelo simples fato de sabermos que, ceteris paribus¸ houve o ontem e, de alguma maneira um pouquinho racional, pode-se prospectar o amanhã.
Só se defende o indefensável quando se causa vergonha e dor naquele outro que o defende.
Tal como os negros que se ofereciam para ser presos na luta dos direitos civis norte-americanos, deve-se clamar por mais injustiças. Quem está angustiado de ver o Lula preso, tem que pedir mais prisão para Lula, com trabalhos forçados, humilhações e ódios. Com desdém e raiva. Com petições públicas de mais injustiça. Para ser um pouco humano, paradoxalmente, é preciso manifestações públicas de todos as pessoas que de fato o querem bem desejando-lhe o mal, o mal insuportável de uma realidade paradoxal do qual nos tornamos cúmplices e vítimas. Claro que isso é Nietzche na veia. Levar o horror às últimas consequências para que ele próprio se envergonhe de si mesmo, ainda que até para a vergonha, como diria o Chaves, “a gente aguenta”.
Mas os códigos da realidade paradoxal que vivemos estão se replicando dentro de si mesmo, não geram nada novo e só geram outros paradoxos que se tornam o nosso cotidiano. Isso não vai mudar porque se retroalimenta e se auto mutila. Está confortável assim. Nas palavras de Adorno e Horkheimer:
“Uma vida feliz num mundo de horror é refutada como algo de infame pela mera existência desse mundo. Este torna-se assim a essência, aquela algo de nulo. Certamente, o assassinato dos próprios filhos e esposas, a prostituição e a sodomia, são muito mais raros entre os governantes durante a era burguesa do que entre os governados, que adoptaram os costumes dos senhores de épocas anteriores. Em compensação, quando estava em jogo o poder, estes ergueram montanhas de cadáveres mesmo nos séculos mais recentes. Comparada à mentalidade e aos actos dos senhores no fascismo, onde a dominação realizou sua essência, a descrição entusiástica da vida de BrisaTesta (na qual, porém, é possível reconhecer aquela) cai ao nível de uma banalidade inofensiva. Os vícios privados são em Sade, como já eram em Mandeville, a historiografia antecipada das virtudes públicas da era totalitária. O facto de ter, não encoberto, mas bradado ao mundo inteiro a impossibilidade de apresentar um argumento de princípio contra o assassinato ateou o ódio com que os progressistas ainda hoje perseguem Sade e Nietzsche. Diferentemente do positivismo lógico, ambos tomaram a ciência ao pé da letra. O facto de que insistem na ratio de uma maneira ainda mais decidida do que o positivismo tem o sentido secreto de liberar de seu invólucro a utopia contida, como no conceito kantiano de razão, em toda grande filosofia: a utopia de uma humanidade que, não sendo mais desfigurada, não precisa mais de desfigurar o que quer que seja. Proclamando a identidade da dominação e da razão, as doutrinas sem compaixão são mais misericordiosas do que as doutrinas dos lacaios morais da burguesia. “Onde estão os piores perigos para ti?”, indagou um dia Nietzsche “Na compaixão”. Negando-a, ele salvou a confiança inabalável no homem, traída cada vez que se faz uma afirmação consoladora.” (Excurso II, Dialética do Esclarecimento.)
Como um micro remédio em favor de Lula, é preciso furar um pouco este paradoxo. É preciso usar os códigos do horror para superar o horror. Eu não sou filósofo nem intelectual. É apenas uma contribuição angustiada.
A FAB tirou o dela da reta e jogou 39kg de cocaína no colo do “degeneral”. Antes fosse de TNT, o tamanho da bomba. Vamos aguardar o tamanho do chilique do chefe da segurança INCOMPETENTE:
“Os procedimentos de verificação das bagagens por Raio-X são executados pelo GSI-PR.” http://www.fab.mil.br/noticias/mostra/34249/NOTA%20OFICIAL%20-%20Boletim%20Informativo%2001
Rui Ribeiro
27 de junho de 2019 2:17 amEric Clapton agulha I shot The xerife na guitarra e eu fiz a ponte com o xerife alvejado pelo The Intercept. Foi flagrado com a calça na mão e suas nádegas pútridas estão expostas nas janelas da Nação
Rui Ribeiro
27 de junho de 2019 7:29 amNesse governo com ressaca moral e à deriva, quando se descansa (das patifarias cotidianas), carrega-se pedras.
Achou-se pouco a tentativa, há pouco tempo atrás e, aparentemente, a troco de nada, do $ Moro turbinar o faturamento da indústria tabagista às custas do sistema respiratório da Nação, com redução abissal dos impostos sobre os cigarros, agora transporta-se pó na aeronave prisidencial.
Pó parar, Perrella
Boeotorum Brasiliensis
27 de junho de 2019 9:50 amBolsonaro critica fala de Angela Merkel sobre pauta ambiental do Brasil: ‘Temos muito a ensinar à Alemanha’
Este é o título de matéria de hoje na BBC News Brasil. Fala por si. Porém, o mais importante, o comportamento, a atitude, o despreparo e o visível desequilíbrio do presidente durante a entrevista não consegue ser captado em palavras. Isso pode ser visto no vídeo da entrevista postado em https://www.youtube.com/watch?v=n1xCk8T8E_M.
Muito se tem dito sobre a personalidade de Bolsonaro, a maioria das vezes menosprezando-o, como se fosse uma grande piada. Não cabe, mesmo em um país de especialistas em tudo, diagnosticar alguém, muito menos baseado em observações à distância e menos ainda tratando-se de um presidente da República. Todavia, é preciso passar a olhar Bolsonaro de outro modo, como o que de fato aparenta ser.
Na entrevista, além de se referir à declaração de Merkel com agressividade, com argumentos vazios e falaciosos como de hábito e com a usual dificuldade de articulação das palavras, ataca a imprensa e ao ser questionado sobre suas próprias postagens nas redes sociais, encerrou a entrevista com grosseria e retirou-se, abruptamente, de cena.
Bolsonaro, por mais histriônico, intelectualmente primário e ausente de qualquer comportamento mínimo de civilidade é, acima de tudo, um tirano. Não admite sequer ser indagado sobre fatos, reage com violência à crítica e se acuado deixa entrever em toda a extensão o autoritarismo, marca da tirania e do despreparo, o que, via de regra, acompanha desvios de personalidade. Sempre que acuado, como ora está pelo conjunto da obra, mas, especialmente pelas sucessivas derrotas no Congresso, circunstanciadas pelos problemas com o seu ministro da Justiça e pela enorme falha do GSI que permitiu transformar um avião da comitiva presidencial em transporte de cocaína, reage extremado.
É senso comum que seu governo não chega ao fim, ao menos em um bom fim e ele, a cada dia, deve tomar mais consciência da situação. Logo, não se deve tergiversar com figura com Bolsonaro, muito menos se estiver em posição de exercer poder, as consequências podem ser fatais.
João da Silva
27 de junho de 2019 12:09 pmLula e o Paradoxo da Realidade
Quem ainda não assistiu a série Dark está, literalmente, perdendo tempo. É excelente. Aborda quanticamente a viagem no tempo. Grosso modo, tem o seu start com o que chamo de paradoxo de Mikkel: o menino que subitamente volta ao passado para que então o futuro aconteça e, assim, o próprio passado se materialize.
Para mim, o ensinamento maior da série, no entanto, não é o de trazer à tona os paradoxos temporais, os encontros e desencontros e as mudanças de possibilidades através de viagens no tempo. O que a série me mostra é que, na verdade, o maior paradoxo de todos é a realidade. Viajar no tempo e refazer ações e passar mensagens ou previsões a si mesmo não é paradoxal, assim o entendo. É materialização de um ‘caos calculado’ que abre janelas para novos erros e imperfeições do universo. Isso a série deixa claro. Mas a meu ver, o grande questionamento que Dark traz é o de mostrar quão absurda e paradoxal é a própria realidade, esta realidade linear que nós estamos inseridos.
E Dark tem como pano de fundo, seja em 1921, 1953, 1986, 2019, 2052 etc, o próprio curso linear de nossa existência e o Zeitgeist que nos molda: o fim do humanismo. Este é o espírito do tempo. Em Dark, se viajamos no tempo e não encontramos humanismo – só se vê a crise do humanismo por todo lado – , como teríamos humanismo no decorrer linear do tempo? Não temos e não teremos. Ambos estão colados e o tempo linear se torna um mau agouro para os otimistas.
Dito isto, paradoxal mesmo é a realidade tal como estamos inseridos. É altamente paradoxal uma realidade linear, que flui e produz eventos que vão se sucedendo e que nos faz, ao mais das vezes, sermos impotentes. É um paradoxo ainda insolúvel viver sob o manto da realidade e dela tirar algo que transforme a maneira como temos esta mesma realidade. Afinal, quando se pode viajar no tempo deixa-se de lado o respeito ao outro, imagina vivendo de maneira linear. No fim do humanismo, em que Voltaire já não interessa mais, o ser humano como solidário do outro está morto na linearidade, na realidade em que vivemos.
Entendo que o que somos é e não é palpável, tal como o gato que está morto e vivo ao mesmo tempo no paradoxo de Schrödinger. Vivemos uma realidade em que podemos ser tautológicos nas palavras, mas não conseguimos fazer isso na vida real. Eu estou escrevendo este texto agora. Eu sabia como ia começar, mas não tenho ideia do seu fim. Estou desenvolvendo ele. Eis o paradoxo da realidade.
Mas o que isso tem a ver com Lula? A situação de Lula é uma manifestação efetiva do paradoxo de realidade. Estamos vivendo ela. Por pior que seja, precisamos aprender com ela, porque dentro da linearidade surreal em que vivemos, a única forma de crescer é aprender com a realidade. Não teremos outra chance de ela se repetir da mesma forma.
Todos os que defendem a democracia e a justiça, de maneira racional e humanista, com toda a razão, percebem o quão injusta é a condição de Lula. Mas todos, todos nós, diante de uma realidade paradoxal por si só, mas que está se materializando, estamos agindo e respondendo errado frente à ela. Nossa sociedade está vivendo como se estivesse diante do buraco de minhoca e acreditando que aquilo é apenas um efeito especial, um truque, e não a realidade flagrante que nos derruba. Estamos tomando rasteira e achando que isso é apenas um filme, um game sofisticado e não a realidade paradoxal que nos enxurra.
Lula só continua preso porque é preso político, evidente. Mas a materialização de sua prisão, ainda que não haja o mínimo rubor dos juízes em afirmar isso, é a questão da dúvida. Na verdade, ninguém tem dúvida: não houve crime, não houve materialidade, há agora o Intercept etc. Não há dúvida. Mas, no teatro montado, a dúvida é se houve parcialidade ou não, se houve materialidade ou não.
Se Lula fosse de fato um réu culpado, ou seja, comprovadamente corrupto, com todas as provas indiscutíveis e até mesmo com direito à ampla defesa e ao falacioso in dubio pro reu, etc, ele já estaria solto. Resumindo: se Lula fosse comprovadamente o que se convencionou chamar de ‘ladrão’, ele já estaria solto.
Mas, por haver (hipocritamente e circunscrito ao paradoxo de nossa realidade) a tal dúvida, ele está preso.
E mais: no dia em que sua inocência for provada por A+B (e este dia vai chegar) de maneira escancarada, sei lá, com áudios periciados indicando as armações, documentos falsificados contra ele, revisionismo jornalístico, ou seja, o mundo desabando e mostrando que ele foi vítima de uma injustiça, aí é que ele não sairá mesmo da cadeia: terá prisão perpétua.
Na verdade, isto é uma situação extrema, porque o dia em que todas as provas provarem que ele era realmente inocente, ele já estará morto: a prisão perpetua já terá cumprido sua função.
A prisão política não é porque ele é um grande líder e sua liberdade pode mudar os rumos da política no Brasil. Este é um pensamento pequeno, de retrovisor, nostálgico, institucional. A sua prisão é na verdade um retrato do fim do humanismo, fenômeno que pode ser retratado, na minha percepção, como o direito legal da pessoa de suicidar a si e aos outros sem sofrer consequências, posto que é ela quem dita o que é certo ou o que é errado. Esta pessoa possui um vizinho, que também possui este direito, que possui outro vizinho, que também possui este direito etc…
Para Lula ser solto, ele realmente precisaria ser um criminoso, o que ele não é. Infelizmente não foram encontradas provas concretas de seus crimes. Houvesse, ele estaria livre, seria de novo um ator político, teria algum poder de mobilização, nem de longe reverteria a crise do humanismo, mas traria um pouco de dignidade à nossa sociedade. É óbvio. Mas, lamentavelmente, não há provas de seus crimes.
Por isso, diante do paradoxo da realidade tal como vivemos, exige-se das pessoas que sinceramente querem de fato o Lula Livre, um entendimento e uma ação à luz do arcabouço paradoxal. Não há o privilégio de um buraco de minhoca. O desafio é infinitamente maior em uma realidade linear, o que é inacreditável, pois uma realidade linear deveria trazer um pouco de segurança pelo simples fato de sabermos que, ceteris paribus¸ houve o ontem e, de alguma maneira um pouquinho racional, pode-se prospectar o amanhã.
Só se defende o indefensável quando se causa vergonha e dor naquele outro que o defende.
Tal como os negros que se ofereciam para ser presos na luta dos direitos civis norte-americanos, deve-se clamar por mais injustiças. Quem está angustiado de ver o Lula preso, tem que pedir mais prisão para Lula, com trabalhos forçados, humilhações e ódios. Com desdém e raiva. Com petições públicas de mais injustiça. Para ser um pouco humano, paradoxalmente, é preciso manifestações públicas de todos as pessoas que de fato o querem bem desejando-lhe o mal, o mal insuportável de uma realidade paradoxal do qual nos tornamos cúmplices e vítimas. Claro que isso é Nietzche na veia. Levar o horror às últimas consequências para que ele próprio se envergonhe de si mesmo, ainda que até para a vergonha, como diria o Chaves, “a gente aguenta”.
Mas os códigos da realidade paradoxal que vivemos estão se replicando dentro de si mesmo, não geram nada novo e só geram outros paradoxos que se tornam o nosso cotidiano. Isso não vai mudar porque se retroalimenta e se auto mutila. Está confortável assim. Nas palavras de Adorno e Horkheimer:
“Uma vida feliz num mundo de horror é refutada como algo de infame pela mera existência desse mundo. Este torna-se assim a essência, aquela algo de nulo. Certamente, o assassinato dos próprios filhos e esposas, a prostituição e a sodomia, são muito mais raros entre os governantes durante a era burguesa do que entre os governados, que adoptaram os costumes dos senhores de épocas anteriores. Em compensação, quando estava em jogo o poder, estes ergueram montanhas de cadáveres mesmo nos séculos mais recentes. Comparada à mentalidade e aos actos dos senhores no fascismo, onde a dominação realizou sua essência, a descrição entusiástica da vida de BrisaTesta (na qual, porém, é possível reconhecer aquela) cai ao nível de uma banalidade inofensiva. Os vícios privados são em Sade, como já eram em Mandeville, a historiografia antecipada das virtudes públicas da era totalitária. O facto de ter, não encoberto, mas bradado ao mundo inteiro a impossibilidade de apresentar um argumento de princípio contra o assassinato ateou o ódio com que os progressistas ainda hoje perseguem Sade e Nietzsche. Diferentemente do positivismo lógico, ambos tomaram a ciência ao pé da letra. O facto de que insistem na ratio de uma maneira ainda mais decidida do que o positivismo tem o sentido secreto de liberar de seu invólucro a utopia contida, como no conceito kantiano de razão, em toda grande filosofia: a utopia de uma humanidade que, não sendo mais desfigurada, não precisa mais de desfigurar o que quer que seja. Proclamando a identidade da dominação e da razão, as doutrinas sem compaixão são mais misericordiosas do que as doutrinas dos lacaios morais da burguesia. “Onde estão os piores perigos para ti?”, indagou um dia Nietzsche “Na compaixão”. Negando-a, ele salvou a confiança inabalável no homem, traída cada vez que se faz uma afirmação consoladora.” (Excurso II, Dialética do Esclarecimento.)
Como um micro remédio em favor de Lula, é preciso furar um pouco este paradoxo. É preciso usar os códigos do horror para superar o horror. Eu não sou filósofo nem intelectual. É apenas uma contribuição angustiada.
João da Silva
27 de junho de 2019 4:36 pmLula e o Paradoxo da Realidade
Quem ainda não assistiu a série Dark está, literalmente, perdendo tempo. É excelente. Aborda quanticamente a viagem no tempo. Grosso modo, tem o seu start com o que chamo de paradoxo de Mikkel: o menino que subitamente volta ao passado para que então o futuro aconteça e, assim, o próprio passado se materialize.
Para mim, o ensinamento maior da série, no entanto, não é o de trazer à tona os paradoxos temporais, os encontros e desencontros e as mudanças de possibilidades através de viagens no tempo. O que a série me mostra é que, na verdade, o maior paradoxo de todos é a realidade. Viajar no tempo e refazer ações e passar mensagens ou previsões a si mesmo não é paradoxal, assim o entendo. É materialização de um ‘caos calculado’ que abre janelas para novos erros e imperfeições do universo. Isso a série deixa claro. Mas a meu ver, o grande questionamento que Dark traz é o de mostrar quão absurda e paradoxal é a própria realidade, esta realidade linear que nós estamos inseridos.
E Dark tem como pano de fundo, seja em 1921, 1953, 1986, 2019, 2052 etc, o próprio curso linear de nossa existência e o Zeitgeist que nos molda: o fim do humanismo. Este é o espírito do tempo. Em Dark, se viajamos no tempo e não encontramos humanismo – só se vê a crise do humanismo por todo lado – , como teríamos humanismo no decorrer linear do tempo? Não temos e não teremos. Ambos estão colados e o tempo linear se torna um mau agouro para os otimistas.
Dito isto, paradoxal mesmo é a realidade tal como estamos inseridos. É altamente paradoxal uma realidade linear, que flui e produz eventos que vão se sucedendo e que nos faz, ao mais das vezes, sermos impotentes. É um paradoxo ainda insolúvel viver sob o manto da realidade e dela tirar algo que transforme a maneira como temos esta mesma realidade. Afinal, quando se pode viajar no tempo deixa-se de lado o respeito ao outro, imagina vivendo de maneira linear. No fim do humanismo, em que Voltaire já não interessa mais, o ser humano como solidário do outro está morto na linearidade, na realidade em que vivemos.
Entendo que o que somos é e não é palpável, tal como o gato que está morto e vivo ao mesmo tempo no paradoxo de Schrödinger. Vivemos uma realidade em que podemos ser tautológicos nas palavras, mas não conseguimos fazer isso na vida real. Eu estou escrevendo este texto agora. Eu sabia como ia começar, mas não tenho ideia do seu fim. Estou desenvolvendo ele. Eis o paradoxo da realidade.
Mas o que isso tem a ver com Lula? A situação de Lula é uma manifestação efetiva do paradoxo de realidade. Estamos vivendo ela. Por pior que seja, precisamos aprender com ela, porque dentro da linearidade surreal em que vivemos, a única forma de crescer é aprender com a realidade. Não teremos outra chance de ela se repetir da mesma forma.
Todos os que defendem a democracia e a justiça, de maneira racional e humanista, com toda a razão, percebem o quão injusta é a condição de Lula. Mas todos, todos nós, diante de uma realidade paradoxal por si só, mas que está se materializando, estamos agindo e respondendo errado frente à ela. Nossa sociedade está vivendo como se estivesse diante do buraco de minhoca e acreditando que aquilo é apenas um efeito especial, um truque, e não a realidade flagrante que nos derruba. Estamos tomando rasteira e achando que isso é apenas um filme, um game sofisticado e não a realidade paradoxal que nos enxurra.
Lula só continua preso porque é preso político, evidente. Mas a materialização de sua prisão, ainda que não haja o mínimo rubor dos juízes em afirmar isso, é a questão da dúvida. Na verdade, ninguém tem dúvida: não houve crime, não houve materialidade, há agora o Intercept etc. Não há dúvida. Mas, no teatro montado, a dúvida é se houve parcialidade ou não, se houve materialidade ou não.
Se Lula fosse de fato um réu culpado, ou seja, comprovadamente corrupto, com todas as provas indiscutíveis e até mesmo com direito à ampla defesa e ao falacioso in dubio pro reu, etc, ele já estaria solto. Resumindo: se Lula fosse comprovadamente o que se convencionou chamar de ‘ladrão’, ele já estaria solto.
Mas, por haver (hipocritamente e circunscrito ao paradoxo de nossa realidade) a tal dúvida, ele está preso.
E mais: no dia em que sua inocência for provada por A+B (e este dia vai chegar) de maneira escancarada, sei lá, com áudios periciados indicando as armações, documentos falsificados contra ele, revisionismo jornalístico, ou seja, o mundo desabando e mostrando que ele foi vítima de uma injustiça, aí é que ele não sairá mesmo da cadeia: terá prisão perpétua.
Na verdade, isto é uma situação extrema, porque o dia em que todas as provas provarem que ele era realmente inocente, ele já estará morto: a prisão perpetua já terá cumprido sua função.
A prisão política não é porque ele é um grande líder e sua liberdade pode mudar os rumos da política no Brasil. Este é um pensamento pequeno, de retrovisor, nostálgico, institucional. A sua prisão é na verdade um retrato do fim do humanismo, fenômeno que pode ser retratado, na minha percepção, como o direito legal da pessoa de suicidar a si e aos outros sem sofrer consequências, posto que é ela quem dita o que é certo ou o que é errado. Esta pessoa possui um vizinho, que também possui este direito, que possui outro vizinho, que também possui este direito etc…
Para Lula ser solto, ele realmente precisaria ser um criminoso, o que ele não é. Infelizmente não foram encontradas provas concretas de seus crimes. Houvesse, ele estaria livre, seria de novo um ator político, teria algum poder de mobilização, nem de longe reverteria a crise do humanismo, mas traria um pouco de dignidade à nossa sociedade. É óbvio. Mas, lamentavelmente, não há provas de seus crimes.
Por isso, diante do paradoxo da realidade tal como vivemos, exige-se das pessoas que sinceramente querem de fato o Lula Livre, um entendimento e uma ação à luz do arcabouço paradoxal. Não há o privilégio de um buraco de minhoca. O desafio é infinitamente maior em uma realidade linear, o que é inacreditável, pois uma realidade linear deveria trazer um pouco de segurança pelo simples fato de sabermos que, ceteris paribus¸ houve o ontem e, de alguma maneira um pouquinho racional, pode-se prospectar o amanhã.
Só se defende o indefensável quando se causa vergonha e dor naquele outro que o defende.
Tal como os negros que se ofereciam para ser presos na luta dos direitos civis norte-americanos, deve-se clamar por mais injustiças. Quem está angustiado de ver o Lula preso, tem que pedir mais prisão para Lula, com trabalhos forçados, humilhações e ódios. Com desdém e raiva. Com petições públicas de mais injustiça. Para ser um pouco humano, paradoxalmente, é preciso manifestações públicas de todos as pessoas que de fato o querem bem desejando-lhe o mal, o mal insuportável de uma realidade paradoxal do qual nos tornamos cúmplices e vítimas. Claro que isso é Nietzche na veia. Levar o horror às últimas consequências para que ele próprio se envergonhe de si mesmo, ainda que até para a vergonha, como diria o Chaves, “a gente aguenta”.
Mas os códigos da realidade paradoxal que vivemos estão se replicando dentro de si mesmo, não geram nada novo e só geram outros paradoxos que se tornam o nosso cotidiano. Isso não vai mudar porque se retroalimenta e se auto mutila. Está confortável assim. Nas palavras de Adorno e Horkheimer:
“Uma vida feliz num mundo de horror é refutada como algo de infame pela mera existência desse mundo. Este torna-se assim a essência, aquela algo de nulo. Certamente, o assassinato dos próprios filhos e esposas, a prostituição e a sodomia, são muito mais raros entre os governantes durante a era burguesa do que entre os governados, que adoptaram os costumes dos senhores de épocas anteriores. Em compensação, quando estava em jogo o poder, estes ergueram montanhas de cadáveres mesmo nos séculos mais recentes. Comparada à mentalidade e aos actos dos senhores no fascismo, onde a dominação realizou sua essência, a descrição entusiástica da vida de BrisaTesta (na qual, porém, é possível reconhecer aquela) cai ao nível de uma banalidade inofensiva. Os vícios privados são em Sade, como já eram em Mandeville, a historiografia antecipada das virtudes públicas da era totalitária. O facto de ter, não encoberto, mas bradado ao mundo inteiro a impossibilidade de apresentar um argumento de princípio contra o assassinato ateou o ódio com que os progressistas ainda hoje perseguem Sade e Nietzsche. Diferentemente do positivismo lógico, ambos tomaram a ciência ao pé da letra. O facto de que insistem na ratio de uma maneira ainda mais decidida do que o positivismo tem o sentido secreto de liberar de seu invólucro a utopia contida, como no conceito kantiano de razão, em toda grande filosofia: a utopia de uma humanidade que, não sendo mais desfigurada, não precisa mais de desfigurar o que quer que seja. Proclamando a identidade da dominação e da razão, as doutrinas sem compaixão são mais misericordiosas do que as doutrinas dos lacaios morais da burguesia. “Onde estão os piores perigos para ti?”, indagou um dia Nietzsche “Na compaixão”. Negando-a, ele salvou a confiança inabalável no homem, traída cada vez que se faz uma afirmação consoladora.” (Excurso II, Dialética do Esclarecimento.)
Como um micro remédio em favor de Lula, é preciso furar um pouco este paradoxo. É preciso usar os códigos do horror para superar o horror. Eu não sou filósofo nem intelectual. É apenas uma contribuição angustiada.
Almeida
27 de junho de 2019 8:20 pmA FAB tirou o dela da reta e jogou 39kg de cocaína no colo do “degeneral”. Antes fosse de TNT, o tamanho da bomba. Vamos aguardar o tamanho do chilique do chefe da segurança INCOMPETENTE:
“Os procedimentos de verificação das bagagens por Raio-X são executados pelo GSI-PR.”
http://www.fab.mil.br/noticias/mostra/34249/NOTA%20OFICIAL%20-%20Boletim%20Informativo%2001