4 de junho de 2026

As religiões e os direitos civis LGBT

Gays rezam? Claro que sim. Ateus e agnósticos são minoria no Brasil. LGBTs nascem em famílias de todo tipo, logo, na maior parte delas são influenciados por elas, instruídos por elas. Eventualmente não concordam com a doutrina da família e se entendem como agnósticos ou optam por outra doutrina. Tal qual héteros. Existem conflitos internos específicos, mas não é o foco aqui. Afinal, católicos também não observam evitar anticoncepcionais, certo?

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Li um comentário mais ou menos assim neste blog : “É bom essa briga entre evangélicos e gays.” Que absurdo é esse? A quem, que grupo, poderia interessar uma assertiva assim, se fosse verdadeira?

Então, para recolocar os fatos nos seus devidos lugares, vamos evitar esse reducionismo que coloca LGBTs como antagônicos a evangélicos? Ou antagônicos a religiões. LGBTs são (somos) antagônicos a qualquer discurso que lhes (nos) desqualifique como cidadãos. E que nos impeça de ter os mesmos direitos que heteronormativos. Registro civil equivalente a casamento, por exemplo. 

Ocorre que uma minoria de líderes religiosos, circunstancialmente evangélicos pentecostais (mas isso não é uma relação causal), é quem ainda faz algum discurso desqualificador dentro e, mais importante, também fora de igrejas. O resultado é que, como visto na pesquisa Ibope de 2011 sobre o tema, cerca de ¾ dos espíritas se declararam simpatizantes, cerca da metade dos católicos e sem religião também, mas apenas 25% dos evangélicos (denominações misturadas na pesquisa.) 

Mas isso, o preconceito em relação a LGBTs ser mais difundido em igrejas denominadas evangélicas, não quer dizer que um fiel evangélico per si seja preconceituoso. Quer dizer que é informado de modo diferente. A maioria é de conversão recente e ainda na primeira geração. Quando tiverem filhos e netos LGBTs veremos como fica o discurso. Principalmente não deve levar ao reducionismo de considerar todos os evangélicos “iguais”, o que é um preconceito também.

Note-se que, quando houve a discussão do PLC-122, que buscava reduzir a discriminação em ambientes de trabalho e escolas – e não se referia em nada a igrejas – , não houve nenhuma grande escola ou grande empresa se manifestando em contrário. Nenhum filósofo, pedagogo, advogado, jornalista, psicólogo ou cientista social de renome se manifestou contra. Mas houve alguns líderes religiosos que conseguiram barrar o projeto.

Algumas pessoas encontram ganchos para se passar por messiânicos e defensores da família. Isso acontece de tempos em tempos, em vários momentos da história, contra várias categorias. Canhotos e ruivos. Artistas de teatro. Mulheres independentes. Pessoas de outra fé. Pra ser demônio ou inimigo da família qualquer um serve. Essa estratégia vem sendo desenvolvida principalmente nos EEUU e desde os anos 1920. é teologia isso?

Com estas pistas, o leitor pode buscar entender porque Malafaia, Edir Macedo, o presidente da FEB, o presidente da CNBB, etc,  fazem discursos muito diferentes entre si. Não são todos igualmente religiosos? Também não quer dizer que os fiéis sigam ao pé da letra o que líderes dizem. Todos são dotados de instrução e livre-arbítrio.

Mas, voltando ao foco.

Temos três causas básicas em pauta:

(A)   Registro civil igualitário (A);

(B)   Inclusão da orientação sexual na legislação antipreconceito (tal qual ocorre com intolerância religiosa) Tanto na lei 7716/89 como no Código Penal (B);

(C)   Investimento do Estado no combate à homofobia na educação pública (o que significa uma redução de classismo, posto que na educação privada já há iniciativas.) (C)

Eu não sei dizer em profundidade como as principais religiões brasileiras colocam as questões em privado. Mas anoto coisas quando aparecem em público e resumo aqui. Não quero cometer erros, mas posso estar fazendo-os por desinformação. E agradeço muito quem complementar ou corrigir as informações. É tudo na base do “que eu saiba”, “até onde eu sei”, mas debate começa assim, não é?

Não me refiro a seguir à postura doutrinária sobre homossexualidade, isso não interessa, mas observo a rejeição (ou não) a que LGBTs obtenham direitos civis plenos.

Espíritas, umbandistas, candomblé – não fazem nenhuma objeção à total inclusão legal de LGBTs (curiosidade: há uma editora, de vertente muito popular no Brasil, que edita uma série de romances psicografados explicitamente simpatizantes.)

Judeus, muçulmanos, budistas, hinduístas, baha’i, seicho-no-ie, xamanistas – não tenho referências.

ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana) / CNBB – obstam (A) acima, inclusive mandaram representante no julgamento do STF a respeito da União Homoafetiva. Não vejo muito movimento contra (B) e (C).

Canção Nova (divisão mais conservadora da ICAR) – obstam (B).

Anglicanos – Aparentemente não objetam os direitos LGBT. Não tenho informação sobre outras denominações protestantes tradicionais ou de missão (Adventistas, Batistas, Presbiterianos, Metodistas.) Curiosidade: Garotinho, do PR-RJ, presbiteriano, sancionou a lei antihomofobia de seu estado em 2000.

IURD (Igreja Universal do Reino de Deus/ Edir Macedo) – obstam (C ) e os representantes do PRB se uniram às bancadas do PSC e PR para inviabilizar o kit anti-homofobia junto ao Min. da Educação. Mas, das igrejas neopentecostais, é a menos preconceituosa, inclusive em relação a aborto. Não vejo questionarem (A) e (B), mas se omitem se outros o fazem. [ A TV Record, a propósito, passou em 16/09/12 um “especial” imenso no programa do Gugu sobre a importância de respeitar a orientação sexual e combater a homofobia (uma entrevista com Léo Aquila.) ]

Renascer, Mundial, Internacional – neopentecostais sobre as quais não tenho informação. Talvez não sejam tão ativas em política. E seus líderes mais discretos. (Exceção talvez seja o senador Magno Malta, da Mundial, do PR-ES)

Assembleia de Deus – obstam tudo através de seu braço político, o PSC. Cerca de 80% das representações no Congresso contra leis e normas inclusivas (Imposto de Renda, Previdência, etc) têm origem em pastores-deputados ou juízes dessa denominação. (Um deles é do PSDB-GO e é criticado internamente pela “Diversidade Tucana”. Outro deputado federal, muito atuante na internet em divulgação de preconceitos, é do PSC-SP. Menos enfático, talvez por não ser pastor, é Carlos Apolinário, ex-deputado e atual vereador do DEM-SP.)

Vitória em Cristo  – antiga ramificação da Assembleia de Deus, desde 2010 sob liderança de Malafaia. É quem divulga no Brasil o livro “A Estratégia”. Quase toda auto-vitimização (dizer-se perseguido por LGBTs) é dele.

Igreja Metropolitana – fundada e frequentada por evangélicos LGBTs.

Então, viram que a questão não pode ser vista com simplismo? Direitos civis LGBT não são uma questão de religião. São uma questão de manipulação política.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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