Uma onda de indignação contra o governo da primeira-ministra Giorgia Meloni tomou as ruas da Itália nesta sexta-feira (30). Trabalhadores, estudantes, professores, aposentados e agricultores participaram de uma greve geral com manifestações em mais de 50 cidades, em protesto contra o aumento do custo de vida, a precarização dos serviços públicos e a ampliação dos gastos militares. As mobilizações também expressaram oposição à política de rearmamento e à participação italiana em conflitos internacionais.
Convocada pela União Sindical de Base (USB), a paralisação contou com o apoio de outras organizações trabalhistas e movimentos estudantis. Segundo estimativas divulgadas pelos sindicatos, até 1,5 milhão de pessoas participaram dos atos em todo o país. As maiores mobilizações ocorreram em Roma, Milão, Turim, Nápoles, Gênova e Bolonha, com bloqueios de vias, ocupações de espaços públicos e protestos nas proximidades de instalações portuárias.
A insatisfação tem como pano de fundo o agravamento das condições econômicas e sociais. Os manifestantes cobram reajustes salariais e das aposentadorias, medidas para conter a alta dos preços dos alimentos, combustíveis, aluguéis e energia, além de mais investimentos em saúde, educação, moradia e outros serviços públicos. Uma das principais críticas ao governo é a destinação crescente de recursos ao setor militar em detrimento das necessidades da população.
Com cartazes e palavras de ordem contra a guerra, os participantes denunciaram a política de rearmamento e a influência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) sobre as prioridades orçamentárias europeias. Uma das mensagens exibidas durante a marcha em Roma sintetizava o sentimento dos manifestantes: “Nós não vamos pagar pela guerra”.
Estudantes e trabalhadores contra o custo de vida
A participação expressiva da juventude foi uma das marcas da mobilização. Nas últimas semanas, estudantes italianos já vinham ocupando as ruas para exigir melhores condições de ensino, mais recursos para as universidades e políticas públicas capazes de enfrentar o encarecimento da vida. O movimento ganhou força em meio a protestos semelhantes registrados em outros países europeus.
Em Roma, milhares de pessoas partiram da estação ferroviária Termini em direção ao Coliseu. Entre as reivindicações estava o enfrentamento da crise habitacional, que afeta especialmente os jovens. A universitária Beatrice Chilelli afirmou à agência AFP que os estudantes haviam chegado ao limite, citando o custo de um quarto individual na capital italiana, que pode alcançar 1.200 euros mensais.
A crise também mobilizou trabalhadores de diferentes categorias. Em Milão, cerca de 30 mil pessoas participaram dos atos, segundo estimativas da imprensa italiana. Os manifestantes ocuparam parte do anel viário da cidade por aproximadamente uma hora e meia antes de seguirem em direção à Praça Leonardo da Vinci.
Em Bolonha, estudantes e trabalhadores bloquearam trechos do anel viário e da rodovia A14. Já em Cosenza, agricultores e caminhoneiros ocuparam pacificamente parte da autoestrada A2. Na Sicília, cerca de 5 mil pessoas participaram de uma marcha em Palermo, enquanto manifestações também foram registradas em Bari, Brindisi, Taranto, Lecce, Pisa e Aosta, entre outras localidades.
Portos entram na mobilização contra o comércio de armas
A dimensão internacional e antiguerra dos protestos ficou especialmente evidente nas cidades portuárias. Em Gênova, cerca de 15 mil pessoas, entre estivadores, estudantes e moradores, marcharam contra o tráfico de armas, os conflitos armados e o aumento do custo de vida. Trabalhadores portuários também denunciaram a militarização das instalações e tentaram impedir o transporte de armamentos destinados a regiões em conflito, incluindo Israel.
Em Ravenna, a mobilização de trabalhadores do transporte marítimo interrompeu operações e o tráfego portuário. Atos também ocorreram nas proximidades dos terminais de Nápoles, Livorno e Trieste, em articulação com uma jornada internacional de protestos de trabalhadores portuários contra o comércio de armas. Segundo os organizadores, mais de 100 portos, em cinco continentes, participaram da iniciativa.
Bandeiras palestinas e faixas contra a ofensiva militar israelense também foram vistas em diferentes manifestações. A rejeição ao genocídio em Gaza e à violência nos territórios palestinos da Cisjordânia integra uma sequência de mobilizações realizadas ao longo do ano na Itália, que relacionam a política de rearmamento europeia aos conflitos internacionais.
Confrontos pontuais e reação do governo
Embora a maior parte das manifestações tenha transcorrido de maneira pacífica, foram registrados episódios de confronto entre manifestantes e forças policiais em algumas cidades. Em Turim, agentes utilizaram canhões de água e gás lacrimogêneo após manifestantes lançarem objetos e tinta contra policiais posicionados em frente à prefeitura. Agricultores também despejaram esterco nas ruas da cidade.
Em Roma, um grupo de aproximadamente 300 pessoas se afastou da marcha principal e ergueu barricadas nas proximidades do Coliseu, utilizando contêineres de lixo. Houve lançamento de objetos contra policiais e incêndios de materiais nas ruas. Em outras cidades da região do Vêneto, como Vicenza e Mestre, também ocorreram confrontos, com registro de feridos.
O Ministério do Interior informou que realizou detenções preventivas antes das manifestações, sob a justificativa de evitar episódios de violência. Ainda assim, os incidentes foram isolados diante da dimensão nacional da paralisação.
A mobilização ocorre em um ambiente de crescente tensão entre o governo de Meloni e movimentos sociais. Depois de confrontos registrados em Milão nos dias 17 e 18 de outubro, o Executivo endureceu a legislação sobre manifestações públicas e flexibilizou regras para a detenção de menores de idade, medidas criticadas por setores ligados aos movimentos populares.
Na semana anterior à greve, o governo também havia aprovado um pacote de 175,2 milhões de euros em auxílio a caminhoneiros, agricultores e pescadores afetados pela alta dos combustíveis, em um cenário de pressão sobre os preços relacionada à guerra no Oriente Médio.
Uma onda de protestos atravessa a Europa
A greve italiana integra um ciclo mais amplo de mobilizações que vem atravessando a Europa desde o segundo semestre. Na França, professores e estudantes protagonizaram manifestações contra a falta de investimentos na educação e a precarização das condições de trabalho, que posteriormente incorporaram reivindicações relacionadas ao custo de vida.
Na Espanha e em Portugal, a crise habitacional impulsionou protestos e ocupações de praças públicas, enquanto na Albânia milhares de pessoas foram às ruas contra denúncias de corrupção e para exigir a saída do primeiro-ministro Edi Rama. Na Sérvia, manifestações lideradas por jovens também provocaram uma crise política que atingiu o governo de Aleksandar Vučić.
Na Itália, a participação de estudantes nas mobilizações recebeu apoio da ativista Greta Thunberg. A convergência entre as pautas sociais, educacionais e ambientais e a oposição ao aumento dos investimentos militares ampliou o alcance dos protestos, que passaram a questionar as prioridades políticas e econômicas dos governos europeus.
O cenário de mobilização que atravessa a Europa também dialoga com a recente vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro no Brasil. A derrota eleitoral do bolsonarismo, identificado com a extrema-direita internacional, foi recebida por movimentos progressistas como um sinal de que é possível barrar projetos autoritários por meio da mobilização popular e da disputa democrática.
Com informações da TeleSur, UOL e AFP.
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