James Bond e o espectro de Ethan Hunt

Hoje finalmente tive tempo de ir ver o filme “007 Contra Spectre”. Sai do cinema desapontado, mas o desapontamento foi se transformou em satisfação à medida que fui refletindo calmamente sobre o enredo.

O filme tem boas sequencias de perseguições de carros, lutas e tiroteios. O assassino grandalhão que utiliza o herói para quebrar paredes, espelhos e móveis de um trem tem a unha de aço. O corpo do espião inglês parece ter sido todo feito de aço. Tanto que após levar uma tremenda surra, 007 sobrepuja o adversário e recupera as energias fazendo sexo. Esta masculinidade elevada à décima potência faz rir qualquer machão que já trocou porradas na rua.

A relação infantil mal resolvida entre o herói e o vilão que impulsiona a trama é ridícula. Ninguém passa a vida toda querendo se vingar de um inimigo de infância. A vida real é dinâmica o suficiente para afastar as pessoas e para reaproximá-las de maneiras imprevisíveis. Certa feita reencontrei um inimigo de infância com quem brigava todo dia. Tomamos duas cervejas juntos e nenhum dos dois sequer foi capaz de lembrar a razão pela qual as brigas começavam. O irmão deste inimigo infantil, um molequinho enfermiço, esquelético e barrigudo, que não tinha ânimo para brincar com ninguém, sempre me vem a lembrança. Dos amigos com quem brincava mal consigo lembrar.

Tudo no filme “007 Contra Spectre” é previsível. Tão previsível quanto uma HQ ou uma fábula infantil. Num determinado o vilão tem herói à sua mercê, mas não o mata. Ele tortura 007 e faz longos discursos enquanto o espião usa a única arma que tem à sua disposição (um relógio explosivo). O tempo e o espaço também explodem na tela grande. Num momento 007 está em Londres, no outro aparece na Itália. De lá ele vai para a Suíça e reaparece no Norte da África, retornando à Londres numa velocidade inimaginável.

James Bond não salva o mundo. Ele apenas derrota o inimigo infantil que passou a vida toda se vingando do menino órfão que foi adotado pelo pai dele. E então, de maneira surpreendente, o espião faz a única coisa realmente adulta no filme: após derrotar o vilão James Bond joga a arma fora, abandona o emprego e fica com uma bela mulher que conquistou. Isto seria impensável num filme da série Missão Impossível. Ao contrário de 007, Ethan Hunt nasceu adulto, não tem traumas infantis e, portanto, é incapaz de evoluir: ele deve salvar o mundo a cada filme, exceto nos filmes que ele salva o sistema solar e a galáxia. O que mais um espião norte-americano poderia fazer senão isto?

Um encontro os dois maiores espiões do cinema é impossível. James Bond e Ethan Hunt não pertencem apenas a continentes, países e culturas diferentes. Eles pertencem a universos conceituais distintos. No planeta EUA, o James Bond interpretado por Daniel Craig seria tratado como um moleque infeliz. Na Inglaterra o espião imortalizado por Tom Cruise provavelmente provoca risos. Foi justamente quando comparei os dois que percebi o valor estético de “007 Contra Spectre”. Mesmo que seja improvável, um conflito entre adultos por causa de traumas infantis é bem mais engraçado e verossímil do que a irritante mania de acreditar que o mundo pode ser salvo apenas por uma pessoa.

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