
Labirinto
Luís Vaz de Camões
do autor queixando-se do mundo
Corre sem vela e sem leme
O tempo desordenado
Dum grande vento levado
O que perigo não teme
É de pouco exprimentado
As rédeas trazem nas mãos
Os que rédeas não tiveram
Vendo quanto mal fizeram
A cobiça e ambição
Disfarçados se acolheram
A nau que se vai perder
Destrui mil esperanças
Vejo o mau que vem a ter
Vejo perigo correr
Quem não cuida que há mudanças
Os que nunca em sela andaram
Na sela postos se vêm
De fazer mal não deixaram
De demônios hábito têm
Os que o justo profanaram
Que poderá vir a ser
O mal nunca refreado
Anda por certo enganado
Aquele que quer valer
Levando o caminho errado
É para os bons confusão
Ver que os maus prevaleceram
Posto que se detiveram
Com esta simulação
Sempre castigos tiveram
Não porque governe o leme
Em mar envolto e turbado
Que tem seu remo mudado
Se merece, grita e geme
Em tempo desordenado
Terem justo galardão
E dor dos que mereceram
Sempre castigos tiveram
Sem nenhuma redenção
Posto que se detiveram
Na tormenta se vier
Desespere na bonança
Quem manhas não sabe ter
Sem que lhe valha gemer
Verá falsar a balança
Os que nunca trabalharam
Tendo o que lhe não convém
Se ao inocente enganaram
Perderã o eterno bem
Se do mal não se apartaram
.
.
……………………………………………………………………………………………..
Fontes:
1. SARAIVA, Mº de Lurdes, ed. Lírica Completa de Luiz de Camões. Lisboa, IN-CM, 1980. 3 Vols.
Deixe um comentário