Laerte transborda, por Douglas Portari

O poeta Ezra Pound disse certa vez que os artistas são a antena da raça. Não há outra explicação pra Laerte.

Laerte

Laerte transborda, por Douglas Portari

Com um trabalho de fôlego em processo, a história autorreferente de uma artista e seus conflitos, a quadrinista Laerte deixa de lado a linguagem rápida das tirinhas e das histórias curtas, para abarcar toda uma vida. “Eu sinto que estou apresentando o que tenho de melhor, não um pastiche”. Mas o calhamaço, que deve parar de pé mas ainda não tem data pra sair, a assusta: “Quem lê 500 páginas??”

Por Douglas Portari

Laerte quadrinista, cartunista, premiada; Laerte roteirista, atriz, ativista; Laerte apresentadora, palestrante. Laerte que desenha seu caminho há mais de 40 anos, Laerte que apagou as linhas de uma divisão binária macho-fêmea. Laerte porralouca e insegura. Laerte pai e avô que não cabe em definições – e não consegue se definir: “excesso de focos”, diz. Laerte transborda.

Aos 68 anos, um dos traços mais bonitos entre os ilustradores de sua geração, ela muitas vezes faz pouco deles – dos traços. Tem mais sorte que técnica? “Ah, muito mais sorte!” E ri. Se Glauco era o esporro em forma de papel e tinta e Angeli o cronista do zeitgeist burguês e urbano, Laerte, que fechava a trinca de quadrinistas da defunta revista Chiclete com Banana, trazia o trocadilho com pé na filosofia, a piada que puxava o novelo do metafísico. Bandoleira de Los Três Amigos si, pero sin perder la ternura jamás. 

Laerte

O poeta Ezra Pound disse certa vez que os artistas são a antena da raça. Não há outra explicação pra Laerte. “Eu era a mais vagabunda das estudantes… eu tenho problema com concentração, sabe? Eu leio bastante, mas estudar eu estudei muito pouco, ler sistematicamente, isso eu tenho muita dificuldade”. E pur si muove, uma sensibilidade para captar o que vai no pulso da sociedade. “Eu chuto, chuto muito. O que eu não chuto, eu chupo” (risos).

Tá no Netflix?
Quem duvida que assista à Transando com Laerte, quarta temporada de seu programa de entrevistas no Canal Brasil. E assistam, porque no que depender dela, que foi roteirista nos anos 1980 e 1990 de humorísticos como TV Pirata e Sai de Baixo e do infantil TV Colosso, não há audiência. “Eu não assistia nada… minha televisão nem pegava a Globo”. Laerte aplica a velha máxima de Chico Anysio, “Sou pago pra fazer TV. Pra assistir eu cobro mais caro”.

E há Laertes para todos os lados – e gostos. Ela tem um documentário no Netflix pra chamar de seu, Laerte-se, além de histórias em quadrinhos travestidas (opa) para curtas-metragens, caso de Penas. Publica na Folha de S.Paulo, em seu blog Manual do Minotauro, e também nas redes sociais. Em 2017, lançou, com o velho amigo Angeli, a Baiacu, um “revistão em quadrinhos”, mais fotografias e prosa, que nasceu de uma residência artística com 20 profissionais.

Vai, Laerte, ser ‘guache’ na vida
Inquietude que a acompanha desde sempre. Como no fim dos anos 1960, quando abandonou a música na USP graças ao professor que lhe citou o poeta Rilke (que ela não leu, aliás) e a empurrou ao traço. Período pesado, tendo o desenho como protesto, sindicato como missão e vocação pelo lado gauche da vida como certeza. Num flashback de bad trip, ela tem agora que protestar pela democracia de novo. “A gente trata o Bolsonaro como um chimpanzé engraçado. Não é. Ele vai levar o país pra um desastre”.

Aqui entra a Laerte ativista, militante, entre outros, do movimento trans. “Eu gosto de bandeiras. Seguro todas as bandeiras”. Hoje, inclusive, 29 de janeiro, Dia Nacional da Visibilidade Trans, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) divulga os dados de assassinatos no país em 2019: 124. Uma queda em relação aos 163 mortos de 2018, mas número que pode ser maior devido à subnotificação e que ainda mantém o Brasil com o título de lugar que mais mata pessoas trans no mundo.

Viver as perguntas
A cartunista sabe que é uma privilegiada. “Eu fui muito bem recebida. Ao contrário do que acontece com as trans no Brasil, sabemos. Pra mim, a coisa foi muito suave por que eu sempre fui entendida como uma artista, como alguém que meio que tem o direito de fazer uma coisa dessas”. Uma coisa dessas foi Laerte, aos 50 e poucos anos, decidir entrar no universo feminino, travestindo-se. Por pouco tempo, contudo. Nas suas próprias palavras, “deixei de me travestir e passei a me vestir”.

E, agora, despir. “Estou existindo como uma coisa que não é exatamente uma mulher – eu não sou uma mulher –, mas eu sou alguém que eu não era. Eu não sou um homem”. Como dizia Leminski: “isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”.

Quanto ao novo trabalho, dúvidas sobre um filhote ainda sem nome e sem data para lançamento. “Sinto que eu tenho questões ali. Não só formais, de narrativa, roteiro. De fundo: pra quem que eu tô fazendo isso? Pra quê que eu tô fazendo isso? Eu não tenho respostas, mas tô com boas perguntas”. Talvez Laerte precise ouvir seu velho professor de música novamente e, dessa vez, ler Rilke: “Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. Pois trata-se precisamente de viver tudo. Viva por enquanto as perguntas”.

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Confira essas e outras Laertes abaixo:

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Velha pirataria e autocensura
Laerte explica por que ela e Angeli abandonaram a ideia de relançar os personagens Los Três Amigos.
A gente acha que ia ficar alinhado ao humor de Gentilis… um sub-humor, um discurso cruel e vazio, que é politicamente muito retrógrado, conservador. E a gente fazia uma porralouquice. Era um humor conservador? Não sei, mas a gente mexia com coisas, sei lá, falar de fanho, falar de anão, falar de matar crianças… estupro… A cada três por dois, Los Três Amigos estupravam alguém… atiravam nos Miguelitos… claro que no contexto dos bandoleros que eles eram, mas…

Mas não era um niilismo de fantasia?
Não importa. À luz do que está se discutindo hoje a gente não ia nem conseguir galgar o púlpito (risos) pra fazer uma defesa, não ia nem conseguir chegar ao microfone.

Você acha que todo o humor feito à época, então, é descartável?
Não, eu não tenho problema de ter feito, mas eu não faço a mesma coisa hoje. Por quê? Por vergonha do que eu fazia, da linha de trabalho? Não. Porque o humor é um discurso intelectualmente contextualizado na época em que você está, no ambiente que você está, na história que você teve… tudo isso justificava o que eu fazia. Mas eu não faria hoje, nem, provavelmente, os Piratas do Tietê. Eu tenho vergonha disso? Não publicaria de novo? Eu publicaria. Mas a gente achou que estrategicamente é um momento muito pouco sereno pra argumentação.

É uma autocensura?
Sempre há autocensura. Eu acho que em alguns momentos, como no underground americano, rompeu-se tudo, estava valendo tudo. Mas está valendo tudo ou tudo que possa se apoiar em uma ideia de liberdade total? Eu sempre me policio. Mas de outra forma, e a palavra é ruim, policiar remete à exclusão de conteúdos. O que eu penso é uma edição eficiente de conteúdo. Eu me edito, procuro me editar da melhor forma possível. Principalmente porque eu sei que a barra tá pesada, o momento que a gente tá vivendo é muito tenso, agudo. Então, o momento de fazer uma charge na terça-feira [na Folha de S.Paulo] precisa ser pensado. E muitas vezes faço coisas pra publicar fora.

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O que eu acho que não devo fazer numa charge é uma carga muito pesada, que envolva questões pessoais, coisas que sei que vão magoar ou ferir certas pessoas amigas, queridas. E isso vai aumentando com a experiência de vida que a gente tem. Viver é colecionar dor. A gente vai encontrando gente fodida, dores novas, vai enchendo cada vez mais nosso acervo de como um ser humano pode se magoar. Então, às vezes, eu mudo a piada.

Laerte percebe que o jornalista anota a frase “viver é colecionar dor” e emenda:
Mas a frase não me representa muito. Viver é colecionar dor, mas é colecionar gozos também! (risos)

Novo trabalho, novo parto
Estou fazendo uma história que é grande e cada vez com mais problemas. Sinto que eu tenho questões ali. Não só formais, de narrativa, roteiro. De fundo: pra quem eu tô fazendo isso? Pra quê que eu tô fazendo isso? Não é pra ganhar dinheiro. A resposta não está nas coisas objetivas e prosaicas. É uma questão de fundo, o que justifica existencialmente eu estar me dedicando a essa tarefa?

É algo que eu nunca fiz e tá saindo de um jeito dolorido, custoso. Primeiro, porque nunca fiz uma coisa nessas dimensões, tá com quase 500 páginas. Segundo, porque ela é… não é autobiográfica, mas é autorreferente, muito. Terceiro por que eu não sei se estou sentindo nela uma raiz. Qualquer coisa que eu fiz na minha vida tinha uma raiz muito clara, porque era algo muito rápido e objetivo, tchá-tchá-tchá…

Essa história, por ser um projeto meio megalomaníaco pros meus padrões, eu nunca desenhei tanto e tão rapidamente. Mas quem lê um livro de 500 páginas?? E depois a pessoa lê assim pá-pá-pá [faz um movimento rápido de virar de páginas]… algo que eu levei dois anos pra fazer…

Laerte

Mas tá consistente, o roteiro tá praticamente desenhado. A personagem principal é alguém… é autorreferente, lógico, uma pessoa que faz música. Eu fico cercando ela e sentindo ela pra que ela me mostre qual o propósito, qual é a consistência dela. O que me preocupa é se ela tem raízes, se ela suga de alguma fonte. Claro, evidente, que tudo aquilo que está no roteiro são coisas que de alguma forma eu vivi. Agora, as coisas que eu vivi resultaram na minha vida concreta, real, numa quantidade de coisas muito grandes. Quando você reduz uma vida a uma história, você reformata tudo. Escrever uma história não é a mesma coisa que viver uma vida. Qualquer escritor sabe disso.

Momento atual
O que eu acho do que a gente está vivendo é que introduziu-se essa variante das redes sociais, do Whatsapp, que é decisivo. Você pega as pessoas que não estão sindicalizadas, que não têm partido político, não têm associações de bairro, não têm grupos de discussão, ou uma Pastoral operária, só têm Whatsapp, não existe politização. O Whatsapp entrou nesse vazio com uma potencialidade fenomenal, que a gente não previa.

E esse sujeito que é o presidente da República, foi eleito depois de falar uma das coisas mais feias que eu já ouvi na História do Brasil, que é reverenciar o Ustra – e ainda por ser o “terror de Dilma Rousseff”. Isso, se não motivo de uma condenação judicial, deveria merecer uma condenação ética. Mas é absolutamente intocável…

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A besteira que você fala sempre tem um contexto. O Bolsonaro pode falar um monte de besteiras porque isso combina com ele, é aquilo que o faz ser Bolsonaro. Ele ainda foi aplaudido e aquilo virou uma bandeira: Ustra vive. Até hoje a gente não o leva a sério, a gente trata ele como um chimpanzé engraçado. Não é. Ele vai levar o país pra um desastre sangrento e mortal.

Laerte

Quem é Laerte?
Eu não sei (risos), pode deixar essa pro fim? Pergunta sacana logo pro começo… a princípio, seria uma resposta super simples, objetiva: sou jornalista, ou sou travesti. Não tenho como responder agora… é muita coisa… excesso de focos.

Do piano para a prancheta
Comecei fazendo música na USP, mas estudava tão mal… eu era a mais vagabunda das estudantes… eu tenho problema com concentração, sabe? Eu leio bastante, mas estudar eu estudei muito pouco, ler sistematicamente, isso eu tenho muita dificuldade. Como eu nunca precisei prestar conta de conhecimentos… eu nunca me formei… tomei todos os zeros que podia tomar. Entrar na universidade foi me liberar da tirania de ter de passar de ano (risos).

Eu não estudei porra nenhuma na coisa da música… sei um pouquinho, muito pouco. Mas eu fiz a [revista] Balão junto com o Luiz Gê, fiz política estudantil… fui do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e não li porra nenhuma… li um pouco do Gramsci, um pouco do Mariátegui… tentei começar uma adaptação d’O Capital, mas eu não terminava essas coisas, eu ia até certo ponto e dizia ‘Ah, eu estou lendo O Capital‘ (risos). E é uma pena porque Marx escreve muito bem.

Então eu não estudei, mas passei por experiências muito legais, inclusive, sair do curso de música. O Willy [Corrêa de Oliveira, do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da USP] que me instigou a esse passo, ele que me falou “Você não leu Rilke, né?”. Eu não li. “Então, lá no Cartas A Um Jovem Poeta ele fala que você tem que fazer aquilo sem o qual a sua vida perde o sentido”. Não com essas palavras, claro*. “Música é isso pra você? Se você não puder fazer música, você prefere morrer?”

E eu [ela faz uma careta] “Ehhhhhhh…”. “Tá, e desenhar?”. “Ah, desenhar é bem mais a minha…”. “Então, para e vai fazer isso, que você faz bem.” Eu ficava na aula desenhando, direto, e o santo Willy foi quem me abriu os olhos – Isso é um professor, né? Ele não tava querendo fazer eu virar música, tava querendo fazer eu virar eu.

*Quase com essas palavras, o poeta checo Rainer Maria Rilke (1875-1926) disse: “Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Descubra a razão que lhe comanda a escrever, veja se ela já espalhou suas raízes pelas profundezas do seu coração, confesse a si mesmo se você preferiria morrer caso lhe fosse proibida a escrita.”Laerte

Então, tive meu início, em 1972, revista Balão foi na faculdade, antes de ir trabalhar no sindicato [dos Têxteis de São Paulo], aí, a Oboré [uma agência que fazia comunicação popular para o sindicalismo], a revista Banas, revista Placar, onde estavam amigos muito queridos, comunistas também, então essa parte de ser do Partidão ajudou. Diziam que três coisas funcionavam como máfia: ser gaúcho, ser gay e ser comunista (risos). Tem emprego em qualquer lugar… (risos)

Quando comunista não tava preso, tava empregado.
Mas não é verdade, tá? (risos)

Assumir-se uma mulher trans mudou seu trabalho?
Mudou e não mudou. Por que não é uma mudança pequena. Mudou o olhar dos outros, muda, portanto, o modo como as expectativas se cruzam. O que mudou mesmo foi o movimento anterior, por volta de 2003, 2004, quando eu comecei a questionar o meu trabalho. A natureza do meu trabalho, principalmente as tiras: o uso de personagens, o uso de humor como base de construção roteiro, tal como eu vinha usando. Isso foi mais decisivo.

Em 2005 fiz uma mudança radical, um pouco motivada também pela morte do Diogo [filho de Laerte, morto em um acidente de carro, aos 22 anos, em 2004]. Foi um momento em que eu falei “ou eu paro de fazer o que tô fazendo ou faço algo diferente”. E aí resolvi. E, claro, perdi muito leitor, perdi freguês também. O Zero Hora interrompeu o contrato, Tribuna de Vitória também. Eles voltaram depois, quando eu virei mulher, entre aspas (risos). Isso me beneficiou.

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Transmundo
Meu primeiro problema foi ser gay e não assumir, algo que eu reprimi por 30 e tantos anos. Quando eu resolvi isso essa coisa da mulher veio como um bônus. O que é botar um batom, o que é me autorrepresentar como mulher? Não é nada demais. É estético. E o sexo é, em grande parte, estético. Não existe esse desejo absoluto e imbatível por qualquer coisa. Não. E a estética também não é essa bola toda… A ideia da pessoa trans querer ser mulher (ou homem) incorpora uma quantidade de questões que não pode se limitar a uma coisa só.

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Eu gosto de bandeiras. Seguro todas as bandeiras. Mas eu acabo não dando certo nos lugares, nem sempre é harmônico. Já me enfiaram a mão na cara e disseram ‘cadê teu peito?’. E eu sou assim, tô cagando pra peito. E as meninas botando aqueles puta peito… ou seja, cagação de regra, querendo fazer carteirinha de travestis. Tem que ter peito, tem que ter bunda… (risos)

Já a Associação Brasileira de Transgêneros (Abrat) é a Márcia [Rocha, advogada e empresária], Maite [Scheineder, consultora e ativista do movimento trans], a Letícia [Lanz, psicanalista] e eu. A gente fundou porque somos amigas e falamos vamos fazer alguma coisa juntas, uma iniciativa, um movimento, promover coisas. Fizemos seminários e tal. O que colou, que foi bem sucedido, foi o TransEmpregos, que é basicamente uma iniciativa da Márcia. Ela que lutou por isso, encheu o saco dos amigos empresários que ela tem, lutou, batalhou. E quem hoje toca é a Maite, principalmente. Eu tô junta, mas ali, desenhando, divulgando, vendo a coisa crescer.

O que você perdeu e o que você ganhou?
Em termos de trabalho, de posição, coisas assim, ter entrado na vivência trans, estar vivendo isso, só me beneficiou. Primeiro, do ponto de vista pessoal, porque me representa muito mais. É muito bom, mesmo, pro meu íntimo, eu sozinha lá, com minha gata, meu espelho, sabonete. Sozinha percebo que sou o que sou e isso é muito melhor. Eu fiz um gesto com a vida que foi decisivo e é muito bom.

Laerte

Eu me construo, me depilo, cuido da minha apresentação. Não fazia isso, faço agora. Não sou vaidooosa, não sou a Letícia Sabatella. Eu sei o que eu sou. Eu tento ser o melhor possível, agora esse melhor possível é altamente polêmico, é muito discutível. Eu não sou uma mulher, eu não sou uma mulher bonita. Eu conheço muita gente que tem algum tipo de desejo comigo e é com isso que eu trabalho. Minha mãe no começo me perguntava “Isso aí é pra sempre?”. “Mãe, como é que eu vou saber?” (risos). Mas tá muito bom.

Pra mãe e pai é sempre uma fase… (risos)
Uma fase, provavelmente, porque eu já estou com 60 e poucos anos… (risos)
Mas não vejo nada de errado, nem de problemático. Eu fui muito bem recebida. Ao contrário do que acontece com as trans no Brasil, sabemos. Pra mim, a coisa foi muito suave por que eu sempre fui entendida como uma artista, como alguém que meio que tem o direito de fazer uma coisa dessas.

Novamente, quem é Laerte?
Tento entender o que é essa pergunta. Existem expectativas no mínimo sintetizantes. Eu tô cada vez mais analítico e menos sintético. Eu tô longe do final, eu tô cada vez mais me colocando problemas. Quando eu investi na orientação sexual e aquilo me abriu uma porta pra uma questão que eu nunca tinha pensado – a não ser em termos de fantasia: me vestir de mulheeeeer. Fantasia antiga, mas que era coisa de histórias. E não estou mais na fantasia, estou vivendo isso e está legal.

E estranhamente é muito mais real do que o que eu vivia. Então, o que que está acontecendo? Eu não tô chegando numa síntese, eu tô o contrário. Eu tô despedaçando tudo e o mais espantoso disso é que isso não está me assustando. Estou existindo como uma coisa que não é exatamente uma mulher – eu não sou uma mulher –, mas eu sou alguém que eu não era. Eu não sou um homem.

Isso te preocupa?
Sim, me preocupa. Mas a preocupação que isso me gera não é improdutiva ou paralisante. Tenho uma consciência do que está acontecendo e sei que isso não está me fazendo mal. E eu sei que o que estou produzindo disso em relação aos meus filhos, aos meus netos, com as pessoas com quem convivo, também é bom, é produtivo. É confuso, mas não é mau, não é um problema.

Laerte

A gente não tem de ter resposta pra tudo.
Então, acho que é isso que tenho vivido. Eu não tenho respostas, mas tô com boas perguntas. E em relação ao meu trabalho também, não só com relação à expressão de gênero, ao meu modo de me apresentar como autora. E isso tá cada vez mais claro que é uma coisa diferente do que eu fazia nessa época [aponta pras revistas], da Piratas, Striptiras e tal. Mas ao mesmo tempo é consistente com isso também. Eu sou a mesma pessoa, não sou alguém diferente. Eu tenho uma história, história evolutiva, amadurecimento. Eu sinto que estou apresentando – e a parte que me deixa sossegada é isso – o que tenho de melhor. Não estou apresentando um pastiche.

Will Eisner criou sua primeira graphic novel, Um Contrato com Deus, em 1978, já com 61 anos.
Conheci Eisner, ele era maravilhoso. Ele tava inquieto, ele sentiu que ele não tinha resolvido aquilo e é o que eu sinto também. Não resolvi essa porra toda ainda.

Fotos e imagens: Carolina Vianna, Douglas Portari e ilustrações de Laerte

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