28 de outubro de 2026

Lênio Streck aponta a negligência na segurança como o grande erro da esquerda

Para o jurista, o desinteresse em criar um Ministério da Segurança Pública e em dialogar com o sentimento de insegurança do cidadão custou caro nas urnas

O resultado das urnas não pode ser encarado com surpresa por quem acompanha a política com realismo. A negligência histórica com a pauta da segurança pública acabou por se consolidar como o verdadeiro calcanhar de Aquiles do campo progressista, abrindo caminho para que a extrema-direita monopolizasse o debate e transformasse o medo da violência urbana em dividendos eleitorais.

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A análise é do jurista e professor Lênio Streck, apresentada durante a live especial de apuração da TV GGN. Em conversa com o jornalista Luis Nassif, Streck apontou as graves falhas de articulação e de projeto do governo, destacando que a recusa em encarar a segurança como prioridade central cobra agora um preço político alto.

“É um desastre, né, o resultado? Embora não tenha que surpreender muito, porque não cuidar da segurança pública, que é o discurso da extrema-direita e da direita, tem um custo muito alto”, alertou o jurista.

Streck lembrou que vinha alertando sobre essa lacuna estrutural desde antes do início da atual gestão, em artigos e debates na imprensa alternativa. “Nós falávamos muito isso, Nassif. Eu, você, eu falava isso nos veículos progressistas. Escrevi muito dizendo que esse governo devia ter feito um Ministério da Segurança Pública, devia ter cuidado disso. A violência ataca, é terrível”, pontuou.

Para ilustrar a dor concreta da população, o professor citou a perda de um amigo próximo, o jornalista e fundador do Conjur, Márcio Chaer. “Agora nós perdemos o nosso querido Márcio pela violência urbana. As pessoas cobram isso. Há um direito das pessoas à segurança pública. Aí você tem todos os caras, por exemplo, os dois que se elegeram no Rio Grande do Sul senadores pelo PL [Ubiratan Sanderson (PL) e Marcel Van Hattem (Novo)] são gente que trabalha com o discurso da segurança pública. E se você pegar no Rio de Janeiro, em todos os lugares, em São Paulo. Tanto o discurso tanto do André do Prado (PL) como do Guilherme Derrite (PP) são discursos da segurança pública. Por que o outro campo não cuidou disso? Isso é um dos pequenos detalhes que acabam vindo com juros de cartão de crédito. Essa conta vem.”

Um dos pontos centrais do diagnóstico de Streck reside no abismo entre a divisão formal das atribuições constitucionais e o sentimento real do cidadão comum. Embora a segurança pública seja uma obrigação direta dos governos estaduais, a população cobra o governo federal e atribui a ele a culpa pela sensação de desamparo.

“É dos estados, mas na cabeça das pessoas não. Porque há toda uma percepção. Não é o que é, é a percepção das pessoas, o imaginário sobre algo. São profecias autorrealizáveis. Toda vez que eu faço uma narrativa, essa narrativa acaba se concretizando. Eu criei uma concretude a partir do nada, fiz coisas com palavras simplesmente.”

Durante o debate, Nassif ponderou que “a segurança pública é responsabilidade dos estados, o governo nem chamou a si e teve que pagar a conta ainda, porque não soube explicar”.

O jurista observou que essa falha de comunicação engole outras instâncias republicanas, como o próprio Supremo Tribunal Federal (STF). “Aqui não se fala tecnicamente, se fala politicamente nesses casos. E porque o Supremo tá associado no imaginário… conceitos que nós perdemos com o tempo. O açougueiro da esquina acha que o governo e o STF são a mesma coisa. E as consequências são essas que estão aí.”

Com a autoridade de quem atuou no Ministério Público por três décadas, Lenio Streck revelou ter apresentado propostas concretas à cúpula do governo ainda durante a transição presidencial, defendendo a criação de estruturas focadas no enfrentamento do crime e no aperfeiçoamento das instituições.

“Eu propus numa reunião em que estavam ministros desse governo, o alto escalão. Eu propus antes da posse do Lula. Eu disse ‘há que se criar uma supersecretaria da reforma das instituições e há que se criar o Ministério da Segurança Pública’. Porque eu fui promotor 30 anos, eu sei o discurso, a percepção da violência que as pessoas têm.”

À época, Streck chegou a indicar nomes capazes de conduzir essa articulação. “Eu até sugeri o Paulo Teixeira como ministro dessa supersecretaria, que reuniria um conjunto… Paulo Teixeira, que conseguiu aprovar depois, com todo brilho, a Lei de Defesa do Estado Democrático de Direito. Não tô falando de qualquer um, tô falando de um homem competente na frente de uma supersecretaria dessa para reformar desde a Defensoria Pública. O Brasil é um país incrível, a Defensoria Pública atua como assistente de acusação, o Brasil é o único país assim.”

Contudo, os alertas foram ignorados e o momento oportuno acabou se esvaindo. “Essas coisas chegam tardiamente. Quando o governo estava assumindo em 2023 devia fazer imediatamente. E a reforma das instituições. Não tô falando da reforma do Judiciário, que é só uma questão. Tinha que ser, mas quando você está no comando. Agora, fazer a reforma quando você não está mais no comando, que reforma é essa?”

Para o jurista, o momento exige coragem política e uma autocrítica severa sobre concepções ultrapassadas mantidas pelo campo progressista. “Essas coisas nós temos que discutir, meus amigos. E eu temo que seja tarde. Eu temo que seja tarde”, concluiu o jurista.

Assista a um trecho da entrevista abaixo:

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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6 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    7 de outubro de 2026 6:34 pm

    Isso é besteira. Segurança é questão estadual e quem fracassou foram os governadores. Mas a imprensa empurra a culpa para Lula porque recebe muito dinheiro dos Estados membros para publicar atos oficiais e fazer propaganda das obras iniciadas e em curso. Quem o articulista Lenio Streck quer proteger falando sandices? A população desinformada ou as empresas de comunicação regiamente pagas pelos governos estaduais para desinformar o respeitável público?

  2. Aristóteles Cardona

    8 de outubro de 2026 7:04 am

    Tenho um respeito enorme pelo Sr lênio, porém o que nos levará a uma derrota vergonhosa foram os conchavos vergonhosos do Sr Lula da Silva, com a direita para governar o Brasil. De esquerda no último governo, só os votos. Como explicar o acordo com Arthur Lira, para derrotar um aliado?

  3. Rui Ribeiro

    8 de outubro de 2026 7:37 am

    Tem certas coisas que eu não dizer, diria Lulu Santos nos anos 80. Os institutos de pesquisa, de direita, diga-se de passagem, davam a liderança de intenções de voto no Lula, até com cinco pontos de vantagem para Lula, dois ou três dias antes da eleição. Acho que 85% aprovaram o fim das bets, quem não aprova é Bolsonarista em regra; com indicadores sociais e econômicos bons, como o Flávio pode ter passado à frente com essa margem de votos, sem apresentar qualquer novidade, a não ser escandâlos e mais vindo à tona da sedimentação do esgoto bostonarista? Prá onde eu vou, eu vejo a maioria das pessoas tristes, cabisbaixas, e falando que votaram no Lula, que vão votar, senão não vai ocorrer o fim da escala 6×1, etc. Só alguns evangélicos defendem o Bostonaro, por causa dos “costumes”, mamadeiras de pirocas, cura gay, família, etc. Na cara desses eu digo o que Lula fez de bom, por exemplo, Luz para Todos, Minha Casa, Minha vida, e mostro o que Flávio Bostonaro fez: rachadinha, orgia, telefonemas pro Irmãozão, etc. Não faz sentido essa votação toda do Bostonaro. Agora, o TSE, comandado por um sujeito sorrateiro, que come pelas beiradas, contrata a empresa do Golpista na vontade do povo Boliviano e onde mais quiser, para cuidar dos votos dos locais de dificil acesso. Tá tudo armado.

  4. Pedro Rocha

    8 de outubro de 2026 7:50 pm

    Por vias tortas, a população está certíssima em apontar a responsabilidade do Governo Federal. A visão formal jurídico formalista, impregnada na cabecinha de milhões de “pensadores” de esquerda é simplesmente PATÉTICA. 1. A percepção e compreensão da realidade não calcula fronteiras, competências legais etc. 2. Os estados não possuem recursos suficientes, inclusive os financeiros, para resolver problemas muito menos complexos, como questões menores de infraestrutura. 3. O responsável não é a esquerda, BURRO, é o Lula! Foi ele que lá atrás já dizia, como sempre TODO BONACHÃO, que homicídio é assunto dos estados. Assim, não existe uma única esquerda, existe um lulismo fracassado, um petismo, esquerdas tradicionais etc. Meu Deus, vcs são MUITO FRACOS!!!

  5. ed.

    9 de outubro de 2026 12:49 am

    O PT não “falhou” com a segurança. Falhou em deixar que a míRdia e a oposição colassem essa pecha nele.
    Um problema de COMUNICAÇÃO, um ponto fraco do PT, que já teve bastante tempo pra se corrigir, pois começou a governar em 2003 (há 23 anos).
    Como já ressaltou o Fabio, a segurança pública é uma RESPONSABILIDADE PRIMÁRIA DOS ESTADOS e seus GOVERNADORES.
    Ou alguém vai dizer que o território do crime que se tronou o Rio não é problema dos governadores presos e cassados?
    Estes adoram ter suas polícias em suas mãos e não as abrem delas. É um “tremendo”poder, acham eles. Até pra praticar seus crimes.
    O governo Federal tem (ainda) a melhor polícia do Brasil, mas não pode (em geral) se intrometer nos estados.
    Ocorre que a segurança pública que o PÚBLICO (a população) SENTE E RECLAMA é o dos furtos, roubos, assaltos, etc. nas ruas e domicílios.
    PF não policia ruas e domicílios. Os crimes que a PF cuida (bem mais efetivamente) são os de tráfico internacional, contrabandos, imigração, etc.
    Tais crimes não afetam diretamente o dia-a-dia das pessoas.
    Óbvio que há uma interseção, mas o fato é que os Estados não querem integração pois acham que vão perder poder.
    E a míRdia finge que quem tem que resolver o dia-a-dia que afeta de verdade os cidadãos não é o governo de estado…é o federal.
    Então o “problema” é que o PT não consegue esclarecer isso há décadas. Deixa a míRdia pautar a farsa.
    Mas o efeito na perda de votos é o mesmo.
    Vale o que está na cabeça do eleitor.

  6. Pedro Rocha

    9 de outubro de 2026 10:48 am

    Cada país organiza de um modo suas operações internas, inclusive ao tratar da segurança das pessoas. Assim, há várias e várias maneiras. Há ao menos duas vinculações federativas trágicas no Brasil: o cuidado com a violência e com a urbanização. E há também uma bola na marca do penalti para ser batida: a obrigatória (e nunca assumida) capacidade de articulação e combinação de esforços federativos a partir do Governo Federal. É um potencial gerancial gigantesco que ao longo dos décadas é submetido à visão ultra tacanha das competências formalistas constitucionais. Quando o PCC surgiu num auto anúncio de nascimento em São Paulo ninguém precisaria ter dúvida sobre seu alvissareiro futuro. Claro, prevaleceu a visão formal: assunto dos paulistas. O que acontece na verdade? A questão não é dizer ao governo a necessidade de qualquer coisa, a questão é que a competência que este e todos os governos tem no PROCESSO DECISÓRIO. Neste processo, informações são recolhidas, analisadas, ponderadas e, principalmente, dipostas numa ordem de prioridade de AÇÃO. Nesta ação significa um espaço de condução de atividades estabelecida a partir da AGENDA do alto comando de um país. Quanto mais prioritário é o assunto, maior o tempo da agenda requerido na AGENDA do chefe de estado. Verifique na AGENDA do Lula (ou de QUALQUER OUTRO presidente do país) quanto tempo gasta com PROBLEMAS prioritários do país. É uma coisa irrisória. Os problemas são largados prá lá, viram paisagem natural, ninguém lembra deles até explodir no colo do cara. Lamento dizer e repetir o que digo e repito desde 2008: a maior tragédia da esquerda e do país foi a ilusão de uma Messias salvador da pátria.

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