O cientista político e escritor Leonardo Avritzer foi entrevistado na noite de quarta (19) pela jornalista Lourdes Nassif, no canal TV GGN, no Youtube, para discutir o seu novo livro, intitulado “O golpe bateu na trave: democracia, ordem e desordem no Brasil”. Avritzer explicou que uma das motivações para a escrita da obra era combater a dúvida que persistia na população brasileira, pelo menos antes do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro na Suprema Corte, sobre se de fato houve uma tentativa de golpe no país. O cientista político refutou a ideia de que a tentativa de golpe não se consumou porque não foi permitida ou porque o ex-presidente pensou, mas desistiu.
Segundo Avritzer, houve sim uma tentativa de golpe no Brasil, que está sendo punida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), culminando, por exemplo, na condenação de Bolsonaro a 27 anos e 3 meses de prisão devido a essa tentativa. O autor argumenta que um golpe se define pela presença de quatro elementos cruciais: planejamento, execução, busca por financiamento e propostas de alteração normativa da ordem legal, sendo que todas essas quatro dimensões ocorreram em 2022.
Apesar de o golpe não ter ocorrido, Avritzer observou que o bolsonarismo se manteve extremamente popular, citando uma pesquisa Datafolha de dezembro de 2023 que indicava que 91% dos brasileiros não teriam mudado sua intenção de voto se a eleição ocorresse naquele momento, mesmo após evidências contundentes relacionadas ao golpe. Por isso, o livro busca rastrear a origem desses elementos antidemocráticos que, de tempos em tempos, conseguem apoio entre as elites, os militares e até mesmo setores populares do Brasil.
A análise detalhada da tentativa de golpe começa no livro com a discussão de elementos não democráticos que ressurgem na política brasileira. No capítulo sobre o golpe, Avritzer inicia a discussão no dia 6 de dezembro de 2022. Seguindo a peça jurídica da Procuradoria-Geral da República (PGR), considerada muito interessante pelo autor, ele relatou o encontro de Mauro Cid com generais no Palácio do Planalto, onde o então presidente Bolsonaro lhes entregou o documento conhecido como “punhal verde amarelo”, ou a minuta do golpe. A partir desse ponto, o cientista político discute o que essa minuta mudaria na ordem normativa. Ele também aborda os eventos que se estenderam até o dia 14 de dezembro, acompanhando a peça da PGR e mencionando o envolvimento de seis pessoas, os chamados Kid Pretos, que foram condenados. Avritzer detalhou a operação, identificada como uma “Copa do Mundo”, na qual esses indivíduos foram a Brasília com o objetivo de sequestrar ou assassinar o Ministro Alexandre de Moraes, além de seguirem autoridades da República, como o então presidente e vice-presidente eleitos.
Sobre as origens do fenômeno, Avritzer dedicou um capítulo ao bolsonarismo, traçando a formação política de Jair Bolsonaro. Ele relatou que Bolsonaro reagiu contra a democratização e tentou um atentado nos anos 80, o que resultou em sua expulsão do Exército. A partir de 2010, no entanto, houve uma inflexão em sua personalidade política: ele deixou de ser apenas um líder militar de extrema-direita insatisfeito e passou a adotar um discurso anti-elite, defendendo o uso da violência para conter a violência. Avritzer detalhou como, entre 2010 e 2013, o ex-presidente ampliou seu círculo de seguidores por meio de programas de TV, consolidando uma concepção de política claramente antidemocrática, embora tenha sido eleito democraticamente em 2018.
O cientista político destacou que a condenação de Bolsonaro pelo STF representa um momento único na história do Brasil. Apesar de o país ter vivenciado inúmeros golpes e tentativas de golpe, algumas que deram certo e outras que falharam, esta foi a primeira vez que uma tentativa de golpe, com fortes conexões com as Forças Armadas, foi investigada, indiciada e julgada pelas regras do Estado democrático de direito. O processo se baseou em uma legislação de defesa da democracia que o próprio Bolsonaro havia sancionado.
Ao olhar para 2026, Avritzer avaliou que o Presidente Lula se encontra em um bom momento político. O governo conseguiu reverter um período de desorganização e derrotas no Congresso, ocorrido entre o final de junho e início de julho, reagindo com uma campanha que criticava o modo como o Congresso beneficiava os mais ricos, a qual foi chamada de “congresso inimigo do povo”. O governo conseguiu vitórias e, posteriormente, liderou uma campanha que resultou na derrota da “PEC da blindagem”, impedindo-a de passar pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
Contudo, o cientista político ressaltou que as forças de direita continuam muito poderosas no Brasil, detendo a hegemonia parlamentar, com o PL possuindo quase 100 deputados e com a força de federações como União Brasil, PP e Republicanos. Lula tem condições de ganhar a eleição de 2026, mas possui pouquíssimo espaço para erros. Por outro lado, Avritzer pontuou que a própria direita tem cometido mais erros recentemente, mencionando as seis versões da PEC de Derrit e a dificuldade da direita em lidar com as operações da Polícia Federal que têm desarticulado estruturas financeiras de seus apoiadores. O cientista político concluiu que a iniciativa política é atualmente do presidente, que saiu de uma situação de vulnerabilidade para uma posição de força.
Assista a entrevista completa com Leonardo Avritzer abaixo:
Nota da Redação: O Jornal GGN utiliza ferramentas de Inteligência Artificial para transcrever o conteúdo de vídeos do canal TV GGN, no Youtube. Os textos são gerados exclusivamente com base na programação, que contém entrevistas realizadas pelo jornalista Luís Nassif e sua equipe, além de análises e debates promovidos por outros coapresentadores e comentaristas do canal. As ferramentas não adicionam material externo ao conteúdo. Todo e qualquer material produzido com auxílio de I.A. é revisado e editado por um jornalista antes de sua publicação, para garantir a lisura das informações e coerência editorial.
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