Rogério Studart, ex-diretor executivo do BID e do Banco Mundial, concedeu entrevista ao jornalista Luís Nassif para o programa TV GGN 20 Horas, no canal TV GGN, no Youtube, na noite de quarta, 28 de janeiro. Ele, que reside nos EUA há 25 anos, descreveu o clima político americano como “muito estranho, pesado e caótico”, uma situação que ele nunca havia presenciado antes. Ele considerou “extraordinário” o discurso de Lula no Fórum Econômico da América Latina, destacando a capacidade do presidente brasileiro de dialogar com diversos líderes, incluindo o presidente chileno e, de forma cordial, com a Argentina.
Studart mencionou a observação de um professor de relações internacionais de Harvard, que aponta Lula como um dos poucos líderes no hemisfério, e talvez no mundo, capaz de manter essa amplitude de diálogo. Ele ficou surpreso ao saber que Lula teve uma conversa de 50 minutos com Donald Trump, que inclusive o convidou para visitar os EUA em março.
Enquanto isso, Donald Trump faz um governo nos Estados Unidos marcado pela imprevisibilidade, apontando três características principais: a capacidade de mudar de rota a qualquer momento, a forte influência da imprensa e das mídias sociais em suas decisões, e a falta de escuta a seus próprios assessores, mesmo os mais ideológicos. Essa inconsistência, segundo Studart, gera uma “incerteza muito grande do futuro dessas relações” e está deteriorando a credibilidade e a confiança de parceiros históricos, como o Canadá e a Europa.
Apesar das dificuldades impostas pela instabilidade global, Studart acredita que Lula está construindo seu próprio espaço diplomático. Ele ressaltou a importância da conversa com o presidente chileno, Gabriel Boric, e a relação mantida com Milei como “sintomáticas” de uma nova abordagem.
Lula estaria abrindo canais de negociação que, embora não necessariamente multilaterais, envolvem diversos países, seguindo a linha do primeiro-ministro do Canadá de construir novos tipos de relações que não dependam exclusivamente da liderança hemisférica dos Estados Unidos.
A visão de Lula de que “o nosso único inimigo na região é a pobreza” foi elogiada por Studart como “extraordinária”, pois ressoa em toda a América Latina, unindo a região em torno de objetivos comuns, mesmo com diferenças políticas e ideológicas.
A entrevista também abordou o “soft power” brasileiro, encarnado por Lula, que, com seu jeito informal. Quanto aos organismos multilaterais, segundo Studart, eles estão se adaptando à era Trump, adotando um “low profile” e se aproximando de interesses geopolíticos mais conservadores.
Questionado se Trump é um ponto fora da curva ou um reflexo da sociedade americana, Studart afirmou que Trump representa uma parte significativa da sociedade que se sentiu abandonada pela globalização e desiludida com o “sonho americano”. No entanto, ele ressaltou que Trump está indo “muito além” e que há sinais de perda de apoio, inclusive na comunidade latina da Flórida.
A visão de Trump de uma divisão triangular do mundo, com a Rússia cuidando da Europa, a China da Ásia e os EUA de sua própria esfera de influência, foi apontada como uma possível explicação para sua postura em relação a países como Taiwan.
Assista abaixo:
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