Maioria dos conselhos tutelares no Rio e SP são dominados por evangélicos

Reportagem mostra que conselheiros podem impor a religião como política pública ao, por exemplo, recomentar tratar criança LGBT com "sessão de descarrego na igreja"

Jornal GGN – Reportagem do El País divulgada nesta terça (15) aborda as consequências da penetração de igrejas evangélicas na eleição dos conselhos tutelares. Pelos dados oficiais, a cidade de São Paulo já tem 53% de seus conselheiros ligados a denominações neopentecostais. No Rio de Janeiro, uma pesquisa não oficial mostrou que o índice é maior, de 65%.

Jacqueline Teixeira, doutora em antropologia e pesquisadora do Cebrap, explicou que diferente de outras religiões, os evangélicos no Brasil têm uma ética de “intervenção na realidade” que visa dar visa à ideia de “ação salvadora”. Eles criam estratégias de “aproximação e ocupação de todas as instituições do Estado de Direito”, e é isso o que leva à presença destas igrejas nos Conselhos Tutelares.

Em alguns casos, essa visão de mundo detona as políticas públicas. É o que ocorre quando conselheiros sugerem que famílias impactadas pelo divórcio sejam tratadas como um problema de “falta de Deus na vida”, ou quando crianças LGBTs são encaminhadas para “sessão de descarrego na igreja”.

Em 2020, o Brasil assistiu a dois casos de grande repercussão em que conselheiros tutelares agiram motivados pela região. Um deles envolveu o aborto de uma menina de 13 anos, estuprada pelo tio, no Espírito Santo, que precisou viajar a Recife para realizar o aborto. As autoridades apuram o papel dos conselheiros e dos assessores de Damares Alves envolvidos na questão. Além disso, houve o caso de uma menina de 12 anos que foi retirada da mãe pela própria avó evangélica, que não tolerava a iniciação da neta no candomblé.

No Rio, a eleição do Conselho virou caso de polícia com o Ministério Público do Estado pedindo o afastamento de Ahlefeld Maryoni Fernandes, membro da Universal do Reino de Deus, do cargo de Coordenador dos Conselhos. Acusado de corrupção, ele chegou a perder o mandato de conselheiro tutelar no ano passado, mas foi conduzido à chefia dessas entidades pelo prefeito Marcelo Crivella.

Segundo El País, a Universal “leva a eleição para os conselhos a sério. No site da Igreja, uma página estimula os fiéis a votar ‘em pessoas de bem’.” Mas, procurada, a igreja nega participação nas eleições. “Contudo, como segmento da sociedade, defende que todos —fiéis ou não— envolvam-se ativamente com a vida brasileira”.

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