Enviado por Felipe A. P. L. Costa
Maranhão, Amado, Dobal e Cunha: Cem anos em quatro poemas
Por F. Ponce de León, do blogue Poesia contra a guerra
Quatro joias raras – e estou a me referir tanto aos autores como aos poemas – das quais, arrisco dizer, o leitor talvez nunca tenha ouvido falar. Seria uma pena, pois há aí versos que deveriam ser mais bem conhecidos e apreciados – em aulas de língua portuguesa, por exemplo. (Entre colchetes, ao lado do título, cito o ano de publicação em livro. ‘Soror Teresa’ consta da coletânea Poesia contra a guerra, os outros três foram extraídos do blogue homônimo.)
*
Soror Teresa [1908]
Maranhão Sobrinho [1]
… E um dia as monjas foram dar com ela
morta, da cor de um sonho de noivado,
no silêncio cristão da estreita cela,
lábios nos lábios de um Crucificado…
Somente a luz de uma piedosa vela
ungia, como um óleo derramado,
o aposento tristíssimo de aquela
que morrera num sonho, sem pecado…
Todo o mosteiro encheu-se de tristeza,
e ninguém soube de que dor escrava
morrera a divinal soror Teresa…
Não creio que, do amor, a morte venha,
mas sei que a vida da soror boiava
Dentro dos olhos do Senhor da Penha…
*
Alma sonora [1917]
Gilberto Amado [2]
Sobe, às vezes, em mim uma revoada
De tantos versos soltos murmurando,
Que eu me assemelho a uma árvore encantada,
Cujas folhas são pássaros cantando.
E o canto dessas aves prisioneiras
Enche-me o peito de harmonia tal,
Que eu fico sem sentir horas inteiras
Debaixo de uma sombra musical.
Num silêncio sonoro transformado.
*
Homem [1966]
H. Dobal [3]
Sua ração de vida o homem vê minguando
a cada dia. Mas duro recomeça
como se o tempo lhe sobrasse. E vagaroso
não conta as eras que se extinguem.
Nem conta a solidão dos dias claros
se desdobrando iguais como esquecidos
de mudar. Nem a distância
que o grito não transpõe, a passagem da vida
cumprida só em mínimos desejos.
Sua lástima no piar das nambus, sóbrio
se esquiva às armadilhas da tarde.
A incerteza nos paióis, o chão batido
em que levanta sua casa, o amor
como a água das cabaças.
Lavrador do milho e do feijão, sua frugal colheita
em gleba alheia. Passa-lhe a vida,
e queima o céu com a cinza de suas roças.
*
Formas de abençoar [2006]
Alberto da Cunha Melo [4]
Fique aqui mesmo, morra antes
de mim, mas não vá para o mundo.
Repito: não vá para o mundo,
que o mundo tem gente, meu filho.
Por mais calado que você
seja, será crucificado.
Por mais sozinho que você
seja, será crucificado.
Há uma mentira por aí
chamada infância, você tem?
Mesmo sem a ter, vai pagar
essa viagem que não fez.
Grande, muito grande é a força
desta noite que vem de longe.
Somos treva, a vida é apenas
puro lampejo do carvão.
No início, todos o perdoam,
esperando que você cresça,
esperando que você cresça
para nunca mais perdoá-lo.
*
Notas
[1] [José Américo Augusto Olímpio Cavalcanti de Albuquerque] Maranhão Sobrinho (1879-1915).
[2] Gilberto [de Lima Azevedo Sousa Ferreira] Amado [de Faria] (1887-1969).
[3] [Hindemburgo] Dobal [Teixeira] (1927-2008).
[4] [José] Alberto [Tavares] da Cunha Melo (1942-2007).
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