4 de junho de 2026

Maranhão, Amado, Dobal e Cunha: Cem anos em quatro poemas

Enviado por Felipe A. P. L. Costa

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Maranhão, Amado, Dobal e Cunha: Cem anos em quatro poemas

Por F. Ponce de León, do blogue Poesia contra a guerra

Quatro joias raras – e estou a me referir tanto aos autores como aos poemas – das quais, arrisco dizer, o leitor talvez nunca tenha ouvido falar. Seria uma pena, pois há aí versos que deveriam ser mais bem conhecidos e apreciados – em aulas de língua portuguesa, por exemplo. (Entre colchetes, ao lado do título, cito o ano de publicação em livro. ‘Soror Teresa’ consta da coletânea Poesia contra a guerra, os outros três foram extraídos do blogue homônimo.)

*

Soror Teresa [1908]

Maranhão Sobrinho [1]

 

… E um dia as monjas foram dar com ela

morta, da cor de um sonho de noivado,

no silêncio cristão da estreita cela,

lábios nos lábios de um Crucificado…

 

Somente a luz de uma piedosa vela

ungia, como um óleo derramado,

o aposento tristíssimo de aquela

que morrera num sonho, sem pecado…

 

Todo o mosteiro encheu-se de tristeza,

e ninguém soube de que dor escrava

morrera a divinal soror Teresa…

 

Não creio que, do amor, a morte venha,

mas sei que a vida da soror boiava

Dentro dos olhos do Senhor da Penha…

*

Alma sonora [1917]

Gilberto Amado [2]

 

Sobe, às vezes, em mim uma revoada

De tantos versos soltos murmurando,

Que eu me assemelho a uma árvore encantada,

Cujas folhas são pássaros cantando.

 

E o canto dessas aves prisioneiras

Enche-me o peito de harmonia tal,

Que eu fico sem sentir horas inteiras

Debaixo de uma sombra musical.

 

Num silêncio sonoro transformado.

*

Homem [1966]

H. Dobal [3]

 

Sua ração de vida o homem vê minguando

a cada dia. Mas duro recomeça

como se o tempo lhe sobrasse. E vagaroso

não conta as eras que se extinguem.

Nem conta a solidão dos dias claros

se desdobrando iguais como esquecidos

de mudar. Nem a distância

que o grito não transpõe, a passagem da vida

cumprida só em mínimos desejos.

Sua lástima no piar das nambus, sóbrio

se esquiva às armadilhas da tarde.

A incerteza nos paióis, o chão batido

em que levanta sua casa, o amor

como a água das cabaças.

Lavrador do milho e do feijão, sua frugal colheita

em gleba alheia. Passa-lhe a vida,

e queima o céu com a cinza de suas roças.

*

Formas de abençoar [2006]

Alberto da Cunha Melo [4]

 

Fique aqui mesmo, morra antes

de mim, mas não vá para o mundo.

Repito: não vá para o mundo,

que o mundo tem gente, meu filho.

 

Por mais calado que você

seja, será crucificado.

Por mais sozinho que você

seja, será crucificado.

 

Há uma mentira por aí

chamada infância, você tem?

Mesmo sem a ter, vai pagar

essa viagem que não fez.

 

Grande, muito grande é a força

desta noite que vem de longe.

Somos treva, a vida é apenas

puro lampejo do carvão.

 

No início, todos o perdoam,

esperando que você cresça,

esperando que você cresça

para nunca mais perdoá-lo.

*

Notas

[1] [José Américo Augusto Olímpio Cavalcanti de Albuquerque] Maranhão Sobrinho (1879-1915).

[2] Gilberto [de Lima Azevedo Sousa Ferreira] Amado [de Faria] (1887-1969).

[3] [Hindemburgo] Dobal [Teixeira] (1927-2008).

[4] [José] Alberto [Tavares] da Cunha Melo (1942-2007).

*

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