5 de junho de 2026

Meditações meditabundas sobre a crise histérico-política dos tucanos

É curiosa a atuação da oposição brasileira. Após perder a eleição presidencial o PSDB age como se fosse o único poder legítimo no Brasil.

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Os tucanos tentaram impedir a diplomação de Dilma Rousseff e falharam. Tentaram conseguir a posse do candidato derrotado e falharam. Tentaram anular o resultado da eleição e falharam. Agora eles embarcaram no golpe de estado marca “Impedimento sem causa” e, sem dúvida alguma, estão fadados a falhar novamente. Se não falharem, os tucanos correm o risco de perder numa guerra civil tudo que conseguiram roubar da União durante a gestão FHC e tudo que roubaram dos Estados que governaram nos últimos anos.

Entre a realidade imaginada pelo PSDB (de que o partido é o poder) e a realidade tal como ela se apresenta aos tucanos, petistas e cidadãos em geral (o poder foi atribuído ao PT) há um abismo imenso. Os tucanos querem exercer o poder sem maioria de votos, querem dar um golpe de estado sem soldados, querem derrubar Dilma Rousseff com resistência popular e, o que me parece mais grave, querem exercer o poder contra a vontade do povo brasileiro sem praticar um genocídio.

Nenhum filósofo que se ocupou da vida em sociedade seria capaz de fornecer aos tucanos uma saída do labirinto histérico-político em que eles se meteram. Se há uma crise no Brasil ela certamente não é apenas parlamentar, tampouco ética ou presidencial. A verdadeira crise do país é pragmática e afeta mais a oposição do que a situação. De tanto se entupir de cocaína, de bebidas alcoólicas, de remédios controlados e de consumir a propaganda jornalística que eles mesmos coordenam, os líderes da oposição perderam totalmente o contato com a realidade.

A relação dos tucanos com a verdade factual é mágica. Eles acreditam que podem transformar em fatos seus desejos frustrados nas urnas, na ruas e no STF. Agem como os neuróticos que fazem sexo com travesseiros certos de que seus cérebros não perceberão a diferença entre o corpo de uma mulher e os receptáculos das fantasias eróticas que eles alimentam. A única imagem que me vem a cabeça para representar a situação dos tucanos neste momento é aquela descrita pelos irmãos Villas Boas ao narrar um eclipse do sol vista por índios:

“Há grande expectativa no eclipse total do sol amanhã. Da United Press recebemos dois radiogramas pedindo nossa atenção nas reações que possam ter os índios diante do fenômeno. Os despachos, informam  ainda, serão divulgados na edição extraordinária, se forem interessantes. Uma rede seria formada para a transmissão.

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20 de maio de 1947, terça feira. Apesar do mau tempo da noite, amanheceu com um tempo muito bom. Sabíamos que o eclipse seria das oito e meia em diante, mas às oito entramos em contato com a nossa estação em Aragarças e esta, por sua vez, nos comunicou que estava com o Rio na escuta. Enquanto a nossa estação funciona, muitos índios  vem para a porta do rancho ouvir, mas não era preciso que viesse, estão acampados embaixo de uma árvores a menos de trinta metros do rancho. Nenhum deles podia sonhar com a surpresa que teriam dali a instantes. Nós três (Leonardo, Claudio, Orlando) observamos atentos todos os seus movimentos.

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Às oito e quarenta os índios ainda sossegados conversavam calmamente conosco.

Daí em diante começa a confusão. Gritos, choros, discursos, correrias, flechas com fogo para acender o sol. Mulheres e crianças, todas brancas de cinza e provocando vômito com pedaços de pau. Alimentos jogados no rio. Pálidos, os índios corriam e gritavam que o sol ia morrer. Flechas e flechas untadas de resina e incendiadas foram lançadas para acender o sol. Um grande quadro de aflição.

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Não acrescentamos nos nossos despachos, mas  anotamos, a preocupação e o ar de espanto dos sertanejos trabalhadores da Expedição. E a eles  desde ontem vínhamos falando e explicando o fenômeno do eclipse do sol.”  (A MARCHA PARA O OESTE, Villas Boas, editora Companhia das Letras, 2012, p. 250/251).  

Desde que FHC apeou do poder a luz eleitoral dos tucanos se apagou definitivamente em vários Estados da federação. Ao invés de se esforçar para reconquistar nas urnas o prestígio que perderam, eles atiram flechas na democracia que os rejeitou como se esta também pudesse ser facilmente apagada. A realidade, contundo, segue resistindo à magia. Adorável ironia. Os descendentes dos aristocratas coloniais se tornaram as principais vítimas da mentalidade primitiva que os antepassados deles combateram. A crise histérico-política do PSDB é uma prova inequívoca de que o Brasil realmente entrou numa nova fase histórica.

Um dos aspectos mais interessantes da crise da oposição é a confusão que os tucanos e seus aliados fazem entre “legitimidade jornalística” (que eles sempre tem) e “legitimidade jurídica” (que eles raramente conseguem). Eles venceram na imprensa todos os debates que travaram (cotas, ENEM, Mais Médicos, financiamento privado de campanhas etc…) e perderam no STF todas as respectivas demandas.

O fracasso eleitoral do PSDB tem um duplo: o fracasso jurídico do partido. Ninguém deve estranhar, portanto, que o principal herói no campo jurídico da oposição seja justamente Gilmar Mendes (um homem que faria alguns ex-ministros do STF rir e outros corar de raiva). O próprio Gilmar Mendes é uma figura escatológica. Corpulento como Gargântua e feio como um Gárgula, ele parece acreditar que seu voto tem mais valor do que os votos dos seus pares. Colecionar derrotas no STF é uma especialidade do principal consultor jurídico do PSDB. A única coisa que ele faz bem é entediar todo mundo com arengas pseudo-jurídicas que duram várias horas. Nem mesmo durante a Ditadura o STF teve um membro tão grotesco.

Há mais a ser dito, mas vou parar por aqui. Afinal, não quero cansar os leitores repetindo truísmos.

Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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