3 de junho de 2026

Mídia ocidental, LGBTs e uma questão para as esquerdas

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Não acho a FSP ‘em cima do muro’ em questões LGBT. Seria injusto pensar isso em função de apenas um artigo muito equivocado.

Aliás, aquilo de ‘sim’/’não’, tão típico desse jornal, não teria como se aplicar ao combate da homofobia, que, como o combate ao racismo e à misoginia, só tem um lado, o do avanço civilizatório.

A FSP foi dos primeiros, senão o primeiro grande jornal a ter uma coluna semanal, a GLS, lá pelos começos dos anos 1990.

E, como a maior parte da grande mídia (com a provável exceção de Veja em anos recentes) é notoriamente simpatizante a causas LGBT. O que não é sequer ‘bondade’, pois seu público consumidor, as classes médias urbanas do Centro-Sul, são a porção da sociedade que em pesquisas se revela menos preconceituosa nesse aspecto.

O próprio conjunto de matérias sobre homofobia, recentemente publicado numa edição dominical (que também resultou em matéria para a TV Folha) são exemplo.

O que aconteceu é que houve um grave erro de interpretação, em uma matéria do dia 09-fev, que foi bastante criticado por todo mundo. Ninguém falou que a FSP é homofóbica ou é dúbia, falou-se que uma determinada matéria estava com uma abordagem totalmente errada.

A Ombudsman relutou em reconhecer o equívoco, mas ‘passa’. Houve muitas e muitas críticas, um post em “Vai Melhorar!” ( http://vidaquenaocessa.blogspot.com.br/2014/02/o-armario-nao-nos-protegera.html ) foi excelente, diz muito para todos os homens gays afetados, como eu, em particular, mas para todos os LGBT em geral. 

E, de fato, também houve editorial recente na FSP pedindo por maior combate da homofobia (assim como também houve em ‘O Globo’ no final de 2013.)

Enfim, se alguém deseja encontrar algum problema grave de abordagem ou contradições da grande mídia brasileira em relação a LGBTs pode focar apenas na Veja, pois a cobertura desta (Guzzo, Azevedo e Constantino) é sabidamente um desastre. Curiosamente similar aos discursos mais oficialistas que defendem a aliança programática com partidos conservadores morais (não obstante, quando o CNJ regulamentou o Casamento Igualitário, até essa revista fez matéria a respeito, sendo que nenhuma autoridade brasileira chegou perto…)

A questão LGBT está pendente de ser bem interpretada por relativamente amplos setores da ‘esquerda’, principalmente em países em desenvolvimento ou democracias jovens, como o Brasil. Eu atribuo isso à necessidade de obter voto junto a pessoas menos informadas quando realizações econômicas não são o suficiente.

Tais setores confundem as coisas ao ponto de que críticas ao falado ‘beijo gay’ na novela da Globo terem vindo quase que exclusivamente de militantes de esquerda (em geral não-LGBTs.). Foi o que, infelizmente, eu percebi na minha Linha de Tempo do facebook. 

Já foi pior: por volta de 2012 houve quem se deixasse contaminar por um sentimento antiamericano ao ponto de condenar as falas de Hillary (nov./2011) e Obama (mai./2012) sobre direitos civis de LGBTs, atribuindo-lhes oportunismo. Felizmente isso ‘sumiu’, já se sabe que Obama construiu uma muito boa imagem junto a LGBTs em geral. Essa parada definitivamente ele levou.

Isso foi particularmente uma abordagem inapropriada: críticas a entes ‘conservadores’ devem ser feitas quando erram, não quando acertam. Não aprendemos nada com Pavlov? Até acho que mídia e políticos de ‘direita’ possam ser criticados sim, não existe isso e ‘amigo de meu amigo é meu amigo’. Só que criticar Obama, Globo ou FSP no que se refere a questões LGBT fica o que se chama, no popular, ‘tosco’.

Também houve tentativas na mídia alternativa (pelo menos a brasileira, digamos que representada pela ‘blogosfera progressista’, que eu gosto de apelidar de ‘Blogo’) de se omitir em relação a falhas na condução de questões LGBT em muitas situações, nomeadamente países governados por esquerda bolivariana, Brasil, Rússia e o conjunto África+Leste Europeu+Oriente Médio. 

Essa mesma mídia sequer aborda os problemas de homofobia no ‘campo’ ocidental/capitalista tão somente por seu telhado de vidro… Assim, em geral, preferem fingir que questões LGBT não existem, ou que não seriam ‘prioritárias’ para discussão, ou ainda lançando mão do surrado álibi da Arábia Saudita… Mas, desde o final de 2013, também já vemos ‘fissuras’ aí e os primeiros posts criticando o governo brasileiro e/ou russo já andaram aparecendo.

Questões LGBT entraram, nos últimos anos, na política de quase todo o mundo, como questões de gênero entraram já há cinco décadas. Como quaisquer questões, elas somente sumirão da pauta quando forem resolvidas, não escondidas.

Em política não há mais aquela visão tão anos 1970 de olhar as coisas apenas de um modo esquerda/direita e vinculado a políticas econômicas, sociais e desenvolvimentistas. As questões de valores entraram com força na pauta em torno do início dos anos 1980, desde o surgimento dos partidos verdes (como exemplo o alemão, em 1980), Gay Games (os primeiros foram em 1982), “Politicamente Correto” (uma questão de Comunicações complicada para abordar aqui), globalização da economia (China 1978…) Hoje até direitos dos animais são pauta política. Em um mundo onde há grande convergência em políticas econômicas não raro ‘valores’ servem para desempates eleitorais.

Mesmo entre ‘esquerda simpatizante’ a causas LGBT ainda há quem trate, a meu ver erroneamente, a questão de direitos civis como análoga a questões de classe (como muito propriamente se faz em relação ao racismo, esta sim, uma questão de classe, entre outras coisas complexas.)

Mas LGBTs não são classe social e estão presentes em todos os segmentos sócio-econômicos. Esquece-se com frequência que LGBTs pertencem a círculos familiares e sociais e que se distribuem ideologicamente do mesmo modo. 

E, ainda, definitivamente, orientação homossexual não é transgressão (a não ser em relação a uma ideologia de reprodução que está sendo abandonada em todo o Mundo.) Beijo gay não é (ou pelo menos não deveria parecer ser) revolucionário. Falamos aqui de normalidades que são presentes em qualquer sistema econômico ou cultura, apenas com graus variáveis de repressão a questionar e abandonar. É questão de se reconhecer que houve equívocos no passado na supressão de direitos, mas também que a mesma não foi monopólio nem do ‘capitalismo’ nem do ‘cristianismo’ (antes o contrário, talvez…)

Nos últimos anos (e a discussão se acelerou substantivamente desde que importantes países católicos começaram a seguir, em 2009, parâmetros de países desenvolvidos e protestantes do Norte da Europa) ficou cada vez mais aparente o seguinte fenômeno: amplos segmentos de direita (Democratas nos EUA, Conservadores no Reino Unido, mídias em países da América Latina, como exemplos) passaram a reconhecer a normalidade e que o combate à homofobia não pode ser postergado.

Paradoxalmente e simultaneamente, houve setores de esquerda que não somente abandonaram a pauta LGBT como inclusive se aliaram ao conservadorismo moral ou fundamentalista religioso. Esse movimento já recebeu um apelido: “esquerda beata”.

Essa inversão nas visões será mais e mais explorada pelo que se convencionou chamar de ‘campo da direita’. O que não é nenhum problema para causas LGBT per si.

Cabe às ‘esquerdas’ lidarem com isso. Caberia às mesmas, creio eu (podendo estar enganado, claro) fazer um discurso em relação a direitos civis LGBT melhor que o de Obama ou da Globo. 

Quem precisava sair do armário hoje em dia seria a ‘esquerda simpatizante’. Será que ela existe mesmo? 

[video:http://www.youtube.com/watch?v=_pj1s79M3PE

 

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