Na terra do MBL, Escola Sem Partido segue firme e forte

Professora da rede pública sofre processo disciplinar. Motivo: falar sobre feminismo em aula; processo foi arquivado seis meses depois por se considerar que não “houve configuração de irregularidade”

A cidade de Vinhedo, no interior de São Paulo - berço do Movimento Brasil Livre e onde um pai processou uma professora por falar de feminismo em aula. Foto: Reprodução

Jornal GGN – A cidade paulista de Vinhedo, berço do movimento direitista Movimento Brasil Livre (MBL) – é uma daquelas que colocou em prática o projeto Escola Sem Partido mesmo que de forma informal. E mesmo depois que dois projetos de lei sobre o tema terem sido arquivados na Câmara Municipal da cidade.

Um caso sobre isso aconteceu com a professora de inglês da rede pública Virginia Ferreira, de 58 anos (e há 20 no magistério). Ela sofreu um processo administrativo por falar de feminismo e violência contra as mulheres em sala de aula no ano passado. Embora seja filiada ao PSOL, ela explicou que seria antiético de sua parte misturar a militância com seu trabalho dentro da sala de aula.

O pai de uma aluna apresentou uma queixa na Ouvidoria da cidade, onde dizia que a professora usava suas aulas para ensinar sobre feminismo e “ideologia de gênero”. E que usava o português para se comunicar com os alunos.

De acordo com o jornal El País, Virgínia afirmou para a Secretaria de Educação da cidade que o papel do professor era de fazer uma reflexão sobre a condição da mulher e de se combater a violência contra ela. Ela conta já ter acolhido alunos que choravam por ter visto a mãe sendo agredida pelo pai em casa, ou ainda “casos de alunas que sofreram abuso e violência dentro do próprio lar”.

Em 14 de março, o MBL de Vinhedo publicou em sua página no Facebook a gravação que uma aluna —e filha do pai denunciante— havia feito de Ferreira. Essa gravação foi compartilhada por Fernando Holiday, vereador na cidade de São Paulo, e pelo vereador Rubens Nunes (MDB), presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Vereadores e autor dos dois projetos —arquivados— que instituíam o Escola Sem Partido em Vinhedo. Ele é também pai de Rubinho Nunes, um dos idealizadores do MBL. Tanto Rubinho como Renan Santos, outro membro fundador do grupo, são naturais de Vinhedo.

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A advocacia do município recomendou o arquivamento da denúncia, mas tanto a Secretaria de Educação como a Controladoria Geral do Município concluíram que um processo administrativo disciplinar deveria ser aberto. O processo foi aberto em agosto e, após seis meses, acabou arquivado nesta segunda-feira, por se considerar que não “houve configuração de irregularidade”.

Controlada pelo PSDB há duas décadas, a cidade de Vinhedo tem uma população majoritariamente conservadora: nas eleições de 2018, Jair Bolsonaro conseguiu cerca de 65% dos votos no primeiro turno e 80% no segundo.

“A direita faz uma relação entre doutrinação e grupos de esquerda, que são contrários ao Escola Sem Partido. E, na cabeça deles, falar de violência contra a mulher é uma pauta de esquerda e, portanto, uma doutrinação”, opina Virgínia Ferreira.

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2 comentários

    • Voce acha que numa cidade onde 80% dos eleitores votaram num misógino cretino, alguem estará preocupado se as mulheres entram ou não na porrada ou, se em casa, são abusadas ou não?

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