“Não precisamos de mais uma Marielle”: Samara Sosthenes no Cai na Roda deste sábado

Integrante do mandato coletivo Quilombo Periférico, covereadora paulista fala as jornalistas do GGN sobre a tentativa de silenciamento político que sofreu no último domingo e conta sua trajetória de luta em prol do movimento negro, LGBTQIA+ e direito à moradia

TV GGN

Jornal GGN – No momento em que a violência é usada como arma de silenciamento político, a integrante do mandato coletivo Quilombo Periférico (PSOL) na Câmara de Vereadores de São Paulo, Samara Sosthenes, fala as jornalistas do GGN sobre o episódio aterrorizante que viveu no último domingo e conta sua trajetória de luta em prol do movimento negro, LGBTQIA+ e direito à moradia. Confira a entrevista na íntegra no Cai na Roda deste sábado, 6 de fevereiro, na TV GGN

Coordenadora da Uneafro Brasil, Sosthenes e sua família foram alvos de um atentado com arma de fogo na madrugada de 31 de janeiro. Um homem de capacete em uma motocicleta efetuou um disparo para o alto em frente à sua casa, na zona sul da capital paulista, de acordo com informações do boletim de ocorrência. 

Curiosamente, três dias antes do atentado contra Sosthenes, um homem tentou invadir o gabinete da vereadora Erika Hilton (PSOL), mas foi impedido, ele se identificou como “garçom reaça”. Ainda, há cinco dias, ao menos dois tiros foram disparados contra a casa de Carolina Iara, covereadora da Bancada Feminista (PSOL).

Todos esses ataques aconteceram na semana da visibilidade trans, contra mulheres transexuais e parlamentares da Câmara de Vereadores de São Paulo. 

“Tudo isso aconteceu na semana que marca as nossas lutas, as nossas pautas, que levamos as questões de gênero para o debate. Tanto eu, quanto Carolina Iara e Erika Hilton tínhamos agendas e algumas em comum e foi justamente nessa semana que nós três parlamentares sofremos ataques”, diz Sosthenes

Para a covereadora, a motivação dos ataques é política e tem como foco o próprio Psol, uma vez que muitos casos foram revelados essa semana, após um chamamento nacional da legenda. “Nós entendemos que é um crime político, porque não só nós fomos atacadas, houve outros ataques contra as mulheres do Psol. Nós entendemos que é sim um ataque transfobico, mas também é um ataque político partidário”, explica.

“Os ataques estão direcionados ao partido, que trouxe o novo (…) Nós reconhecemos que o meio político está revoltado, porque pela primeira vez nós temos representantes reais do povo, pessoas LGBTQIA+, pessoas periféricas e o melhor: pessoas que vem dos movimentos de base, que reconhecem as necessidades da população. Isso amedronta, isso afronta, isso fere as pessoas que ficaram durante anos na Câmara de Vereadores sem fazer nada. Como nós trazemos uma nova política, uma política participativa, isso gera um desconforto, que foi respondido com bala e agressão”, desabafa. 

Mas, a parlamentar garante que sua voz não será calada. “Isso incomodou e vai continuar incomodando, porque nós vamos continuar fazendo o que viemos pra fazer. Fomos eleitas legitimamente, pessoas foram às urnas e depositaram sua confiança de uma São Paulo mais digna para todos. Não vamos deixar de responder essas pessoas que votaram em nós”, afirma. 

Câmara nega segurança

Em meio aos ataques, Sosthenes ainda precisa lidar com a recusa de segurança da Câmara. A Casa, presidida por Milton Leite (DEM), disponibiliza dois agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) para cada gabinete que apresentar registro de boletim de ocorrência, em caso de violência. A medida protetiva, no entanto, só é válida para os titulares das cadeiras legislativas e não se estende àqueles que atuam como covereadores.

“Eu tinha trabalhos pra fazer e fui impedida, porque eu não tenho segurança. A Câmara negou a segurança, alegando que não sou nominalmente vereadora. Eu estou isolada, fazendo trabalhos remotos, em um dia importante na Câmara – de abertura dos trabalhos na casa – eu fui impossibilitada de mostrar o meu corpo trans ocupando aquele espaço. Essa tentativa de silenciamento teve consequências e uma delas foi eu ter essa semana interrompida, além de todo trauma e medo”, aponta. 

“Eu quero voltar para a Câmara e fazer as minhas obrigações de co-vereadora, mas eu quero segurança. Eu não quero ser mais uma Marielle [Franco], nós não precisamos de mais uma Marielle nesse país. Eu sei que meu corpo trans é o que mais morre no país, para eu morrer politicamente não seria difícil, não seria uma novidade, mas não é isso que nós queremos. Nós não precisamos de mártires, mas de povo de luta e nós fomos eleitas legalmente e precisamos do direito de exercer o que as pessoas responderam nas urnas”, completa. 

A ocupação é uma forma de denúncia

Durante cinco anos, Sosthenes também foi moradora de ocupações, que são marca da luta por moradia digna. Ela fez parte de uma ocupação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e, depois, da Prestes Maia, no centro de São Paulo. Durante a entrevista ela destaca a marca do movimento. 

“Uma ocupação não é apenas um prédio no centro da cidade que foi invadido, a ocupação é uma denúncia. Quando ocupamos um prédio, nós denunciamos ao estado que aquele prédio está abandonado, que não está cumprindo a sua função social, além da principal denúncia: estamos sem casa, sem moradia, que é um dever constitucional”, explica. 

Mulheres trans enfrentam o vírus da fome em meio a pandemia da Covid-19 

Ao ser questionada sobre a situação social da periferia em meio a crise sanitária causa pelo novo coronavírus, a covereadora faz o seu apelo para mulheres trans, que estão enfrentando a fome e o desemprego nesse período. Para ajudar: [ESPERANDO ASSESSOR]

Samara Sosthenes também comenta sobre toda suas raízes políticas, o que o Quilombo Periférico pretende fazer pela cidade e lamenta o desmonte da cultura negra pelo governo Bolsonaro. 

Participaram desta edição do Cai na Roda as jornalistas Lourdes Nassif, Cintia Alves e  Patricia Faermann. Assista:

Sobre o Cai Na Roda

Todos os sábados, às 20h, o canal divulga um novo episódio do Cai Na Roda, programa realizado exclusivamente pelas jornalistas mulheres da redação, que priorizam entrevistas com outras mulheres especialistas em diversas áreas. Deixe nos comentários sugestão de novas convidadas. Confira outros episódios aqui:

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