19 de junho de 2026

O Brasil é um país laico?, por Marcos Vinicius de Freitas Reis

Em um contexto de país laico, as instituições públicas e democráticas não devem privilegiar uma instituição religiosa em detrimento da outra.
Praying for the sun.

Religião e Sociedade na Atualidade

O Brasil é um país laico?

por Marcos Vinicius de Freitas Reis

A pergunta no título desta coluna é muito sugestivo e polêmico ao mesmo tempo. Alguns pesquisadores dizem que o Brasil pouco avançou no debate sobre a liberdade religiosa, outros estudiosos dizem que o Brasil nunca foi uma nação que respeitasse a escolha de ter ou não uma religião. O tema carece de explicações para entendermos este fenômeno atual e importante na vida do brasileiro.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A laicidade consiste no respeito a escolha de ter ou não uma religião. As escolhas da relação com o sagrado são de fórum íntimo. Ou seja, cabe as pessoas a decisão de quererem ou não praticarem alguma religião ou religiosidade em seu âmbito privado. O particular é o local do exercício da fé. Fé esta que ajuda o sujeito a enfrentar as adversidades da vida cotidiana. Fé que auxilia no conforto emocional nos momentos de tristeza e também em outras áreas da vida humana. O homem é um ser que tem necessidades do contato com o sagrado.

O contato com o sobrenatural não é feito de uma única forma. São inúmeras expressões religiosas que coexistem atualmente: Igreja Católica, Igrejas Evangélicas, Espiritismo, Candomblé, Umbanda, Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, Adventistas, Santo Daime, União do Vegetal, Judaísmo, Vale do Amanhecer, Racionalismo Cristão, Paganismo, Budismo, Igreja Messiânica, Seicho-No-Ie, Fé Bahai, dentre outras propostas. Por serem diversas não podem ser hierarquizadas. Obrigatoriamente devem ser tratadas de forma igual por parte da sociedade.

Em um contexto de país laico, as instituições públicas e democráticas não devem privilegiar uma instituição religiosa em detrimento da outra. O Estado obrigatoriamente deve ser neutra em matéria de religiosidade. As autoridades públicas não devem impor e nem bloquear o exercício de culto. Isto é constitucional. Repito: O Brasil não tem uma religião oficial. As decisões políticas e administrativas dos serviços públicos devem ser baseadas nos princípios constitucionais e dos regimento dos seus órgãos e não a partir dos fundamentos religiosos de alguma instituição religiosa, crença ou filosofia de vida.

Em um país democrático como o Brasil a laicidade precisa ser pauta de políticas públicas. Necessária ações para o combate as formas de intolerância religiosa e racismo religioso. Promover a boa harmonia de convivência entre os grupos religiosos. Estimular a criação de comitês nos estados, municípios e no distrito federal com o tema pela preservação e defesa da diversidade religiosa. Acionar o ministério público quando ocorrer proselitismo religioso ou intolerância religiosa ou racismo religioso nas repartições públicas. A defesa da laicidade deve ser uma das pautas prioritárias.

Esta realidade que apresentamos acima não condiz com a realidade em que vivemos. Há aumento do número de casos de intolerância religiosa no Brasil. De uma forma ou de outra todas as confissões religiosas, espiritualidades, crenças, filosofias de vida e ateus sofrem por suas escolhas ou não ter escolha no exercício na relação com o sagrado. Não raros os momentos lemos nos jornais que Igrejas Católicas são invadidas e seus santos são quebrados. Igrejas Evangélicas possui bíblias queimadas e são criticados pela sua postura rígida sobre pautas de costumes. Maçons são acusados de terem pacto com o Diabo. O espiritismo e as religiões de matriz africanas são associados com demônios. Os adeptos do uso da substância da ayahuasca são acusados de estimulares o uso das drogas. Curandeiros e benzedeiros são vistos como feiticeiros ou charlatões. Adeptos do paganismo são vistos como bruxos com pacto com o diabo, e os atues por não terem religião é comum dizer que são pessoas ruins por não acreditarem em Deus.

Sem sobre de dúvidas o grupo religioso que mais sofre intolerância religiosa são as religiões de matriz africana. A situação mais dramática é no Rio de Janeiro. Os terreiros são invadidos por outros segmentos cristãos e suas imagens são quebradas, outros acessórios são queimados e alguns líderes até mortos ou espancados. Andar na rua de branco as sextas pode acontecer de algum radical religioso promover alguma forma de violência contra o afro religioso.

O fenômeno dos traficantes evangélicos é algo assustador. Como sabemos os evangélicos cresceram muito nos últimos anos. Há quem diga que daqui no máximo 30 anos seremos maioria de adeptos evangélicos. A maioria da população pobre do Estado do Rio de Janeiro mora nas favelas ou outros locais de baixo saneamento básico e são identificados com os valores evangélicos. Nestes locais moram traficantes que diariamente praticam o tráfico de drogas. Os terreiros de umbanda e candomblé a mando dos traficantes invadem os templo das religiões de matriz africana e quebram tudo o que tem por lá e ainda matam o pai ou mãe de santo. Alegação que as religiões de inspiração na cosmovisão africana são demoníacas, patológicas, desviantes e erradas. Na visão destes traficantes é vontade de Deus que os umbandistas e candomblés sejam convertidos ou combatidos.

No Estado do Amapá as práticas de intolerância religiosa tem crescido. Nos últimos anos tivemos situações vexatórias. Em julho de 2019 em terreiro de Pai Salvino, as atividades religiosas e sociais são desenvolvidas no bairro das Pedrinhas, durante a festa do glorioso São João um grupo de religiosos iniciaram atitudes que podem ser caracterizadas como intolerantes. Quem estava no local disserta que religiosos jogavam pedras no telhado do templo, faziam orações efusivas para que os demônios saíssem de lá, usavam caixas de som e cânticos altíssimos para atrapalhar as atividades. Tentativa clara de proselitismo religioso e desrespeito ao exercício religioso em culto privado do outro.

O Brasil historicamente avançou em parte na liberdade religiosa. Não temos mais uma religião oficial. As pessoas em suas casas possuem certa autonomia para praticarem ou não uma religião ou espiritualidade. Mas, ao olharmos as questões públicas não é bem assim. As decisões políticas beneficiam católicos e evangélicos. Exemplos: partidos confessionais, bancadas religiosas, concessão de rádio e tv, feriados religiosos, financiamento público em projetos religiosos, dentre outras situações. Esperamos que a situação supracitada modifique.

Marcos Vinicius de Freitas Reis – Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Membro do Núcleo de Estudos de Religião, Economia e Política (NEREP-UFSCAR/CNPq). Pesquisador do Observatório em Direitos Humanos da Amazônia (OBADH-UNIFAP/CNPq), Líder do Centro de Estudos Políticos, Religião e Sociedade (CEPRES-UNIFAP/CNPq). E-mail para contato: [email protected]

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados