O Brasil enfrentará o efeito Coringa, por Luis Nassif

Cada dia a mais de Bolsonaro  significará maior acúmulo de frustrações, maior agravamento das duas crises, a de saúde e a econômica, e maior dificuldades em vencê-las.

O filme “Coringa” foi premonitório. Relata uma situação de extrema tensão que explode com um episódio específico, um grupo de yuppies de mercado que, em um vagão de metrô, humilha uma pessoa fantasiada de palhaço. Há uma reação, e a vítima mata os agressores. A partir daí, há uma pandemia de violência explodindo por toda a cidade e a vestimenta de palhaço torna-se o símbolo da reação.

O que ocorre hoje, nos Estados Unidos, é semelhante, uma reação espontânea provocada pela morte de George Floyd, cidadão negro detido pela polícia e morto, depois de 9 minutos de asfixia a que foi submetido por um policial.

O episódio deflagrou um festival de protestos por várias cidades, com a explosão da panela de pressão acumulada pelo racismo arraigado da sociedade americana, acentuado pela ascensão do supremacismo branco representado por Donald Trump. Em cima disso, a revolta contra o fracasso da luta contra o Covid-19, a explosão do desemprego, a incidência da doença, manifestando-se mais acentuadamente nas regiões pobres e junto às populações negras. E, no comando do país, uma luta intestina entre partidos políticos.

No Brasil, as mortes de negros por policiais tornaram-se banalizadas pela repetição. Mas a tensão social está cada vez maior, uma panela de pressão de alto teor. Não haverá como não emular a violência difusa americana.

Há a explosão do desemprego, o desmonte das redes de sociais, a quebra de pequenas e microempresas, a doença grassando nas periferias das grandes cidades. E, na Presidência, um desatinado provocando em doses iguais revolta e adesão de seguidores fanatizados.

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Nos próximos meses, haverá agravamento de todos esses problemas, o de saúde, o econômico, o aumento do desalento.

A expectativa de fim da pandemia evaporou-se. A pressão sobre governadores e presidentes está provocando uma flexibilização imprudente do isolamento, que agravará o problema no momento seguinte. Daqui a pouco tempo haverá um recuo, acentuando mais frustração popular.

O governo acabou, falhou em todas as frentes, na econômica, na política, na social. Há um grupo político envolvido em crimes explícitos, de alimentação da violência virtual à suspeita de crimes de morte.

A cassação de Bolsonaro ocorrerá mais cedo ou mais tarde, tal a disfuncionalidade do governo e o acúmulo de indícios de práticas criminosas. Cada dia a mais de Bolsonaro  significará maior acúmulo de frustrações, maior agravamento das duas crises, a de saúde e a econômica, e maior dificuldades em vencê-las.

É um caldo de violência que abre inúmeras possibilidades. Um governo que rompa com o dogmatismo de Paulo Guedes, com um plano bem articulado de emissão de moeda e gastos públicos, conseguirá resultados rápidos na economia. E, com isso, ganhará um trunfo político inigualável. Há um cadinho de cultura para a exploração da violência.

Nos anos 30 houve duas maneiras de enfrentamento da crise: Roosevelt com o New Deal, Hitler com o plano econômico articulado por seu Ministro da Economia. Na base, cidadãos desesperados, prontos a aderir ao primeiro salvador e a enfrentar qualquer fantasma, com as armas que lhes sejam indicadas, ou a solidariedade ou a violência mais selvagem.

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Haverá uma reação à queda inevitável de Bolsonaro. Hoje em dia, Bolsonaro é a referência maior das guerras virtuais, entre os contra e os a favor.

Expelido do poder, haverá dois movimentos inevitáveis. O primeiro, dos fanáticos, não se afastando a possibilidade de atos violentos, praticados por milicianos e associações de tiros. O segundo a violência difusa, à medida em que os Bolsonaro saiam do centro das atenções.

Há uma saída amadurecendo para a crise atual: a cassação rápida da chapa de Bolsonaro-Mourão pelo Tribunal Superior Eleitoral. Nesse caso, o governo será assumido pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, em um mandato tampão. Em todo esse período, Maia ganhou uma dimensão política insuspeita, tornando-se o centro de gravidade dos acordos políticos e da racionalidade.

Sendo mandato tampão, terá toda a boa vontade dos diversos setores políticos, como teve Itamar Fraco, depois do terremoto do impeachment de Collor. Hoje em dia, há um Coringa no meio do caminho. E o país confrontado com seu maior desafio.

 

 

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19 comentários

  1. Pra evitar o efeito coringa é melhor ficar em casa consumindo PRODUTOS DA INTERNET(o mundo não será o mesmo)por causa do corona, olha vai vir uma SEGUNDA ONDA AÍ,eu a chamarei de onda Incrível Hulk,mais forte e agressiva pq ficou nervoso (a) com Bolso q não a obedece,se será verde aí já não sei,sou só especialista em qq assunto e não epidemiologista/especialista bancado por algum ricaço !!!
    Obs;Nem falo da terceira e quarta onda q aparecerá nas mídias, será o maior terror e propaganda chamais visto na face da terra(o mundo não será mais o mesmo!)

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  2. Mandato tampão? De onde o Nassif tirou isso? Cassada a chapa nos primeiros dois anos, eleição direta. Depois do segundo ano, eleição indireta!

  3. Wikipedia
    Rodrigo Felinto Ibarra Epitácio Maia (Santiago, 12 de junho de 1970) é um político brasileiro, nascido no Chile, porém com nacionalidade brasileira, filiado ao Democratas (DEM). É atualmente o presidente da Câmara dos Deputados, reeleito para o biênio 2019–2021.[4][5] Está em seu sexto mandato como deputado federal pelo Rio de Janeiro.[6]

  4. A Wikipedia descreve também as acusações de corrupção contra Rodrigo Maia:
    1 – Operação Lava Jato
    2 – Denúncia pela Procuradoria-Geral da República
    3 – Acusação de corrupção pela Polícia Federal

  5. Wishfull thinking. Quem dera. Mas parte relevante da turma do dinheiro ainda está com as fichas em Guedes. A articulação agrobusiness – novo comércio (Havan, Riachuelo) – Faria Limers é ainda bem mais do q 30% do capital. Eles sustentam o pau do circo q arruina o Brasil.

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  6. “Há uma saída amadurecendo para a crise atual: a cassação rápida da chapa de Bolsonaro-Mourão pelo Tribunal Superior Eleitoral. Nesse caso, o governo será assumido pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia, …”.

    Faltou esclarecer que isso apenas se dará se a cassação ocorrer após 31 de dezembro próximo. Se for antes disso, terão que ser realizadas novas eleições diretas, até 90 dias após a cassação.

    Fica a pergunta: Será que a direita tradicional, sinônimo da “Elite do Atraso”, irá aceitar isso? Ou vão aguardar o início do próximo ano?

  7. Bom dia Nassif, no caso da cassação da chapa se abre um período de reorganização para eleições, ou estou errado? Itamar era vice. O presidente da Câmara não pode ficar na cadeira, ele é obrigado a convocar eleições. Não é isso?

  8. O que as policias militares e as baixas patentes das forças armadas farao na hipótese de Bolsonaro ser apeado?

    O tema da segurança pública não foi nem de perto arranhado por Bolsonaro, nem a esquerda apresenta nenhuma solução para o problema. A desmilitarização da polícia, sua união com a polícia civil, investimento em polícia científica, mudanças no judiciário para que seja efetivo e prisões voltadas a ressocialização dos presos (e não simplesmente depósito de “lixo” humano) seriam imprescindíveis.

    O crime prospera no ambiente de impunidade. A polícia não funciona (quantos por cento dos crimes denunciados são solucionados? 5%?), o judiciário não funciona (duas décadas para julgar casos), o estado virou uma cleptocracia.

  9. Desde quando Nassif virou botafoguense?
    Argh. Texto horrível.

    Dizer que a reação política dos negros dod EUA é combustão espontânea é um assombro, considerando as ferramentas de análise que o autor dispõe.

    Imaginar reação semelhante aqui é piada de mau gosto.

    As PM daqui são vinte vezes mais violentas.
    Até agora nenhuma manifestação aqui chegou perto das que sempre acontecem lá desde Rodney King em LA.
    O cenário pretendido apenas se concretizaria se o tráfico descesse pro asfalto.

    Esqueçam. O tráfico já fez sua aliança com milícias evangélicas. Portanto, aqui tudo sob controle.

  10. Se for para cassar a chapa, acho que será adiada para 01/01/2021.

    Assim, o acerto é feito por cima, controlado. E a “turma da bufunfa” ganha mais dois anos de um projeto neoliberal raiz com um candidato eleito indiretamente pelo Congresso. Além disso, também ganham tempo para preparar um candidato para 2022.

    Ou alguém acha que essa “turma da bufunfa” irá correr o risco de cassar a chapa e eleger um candidato progressista em 2021 (depois de todo esforço para derrubar o anterior)?

  11. Os acontecimento recentes nos EUA dificultam a tentativa do governo eleito em convencer as forças armadas a apoiar um golpe, já que contrariando a fala da reunião de 22 de abril, não é fácil impor uma ditadura em uma pandemia. As pessoas pode sair as ruas, e enfrentar o medo do novo coronavírus para defender a democracia.

    Este é um dos pontos centrais, já que mesmo com que seja pequena a presença do legalistas nas Forças Armadas, ao lado de manifestação popular, poderá vencer a maioria das forças armadas que apoiam a instalação da ditadura.

  12. Desculpe, o botafogo é mais do mesmo, reza pela mesma cartilha econômica do tchutchuka, para não melindrar ninguém não vou dizer que ele é testa de ferro do rentismo podre e fiador de todas as patifarias contra os trabalhadores no congresso…..não vou dizer isso…..mas é….

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  13. Apesar das inúmeras tentativas de comparar ao período da história alemã em que um líder de um partido vencedor das eleições conseguir impor uma ditadura.

    Primeiro o Brasil não tem a força militar necessária para uma para a invasão de países vizinho e sustentar economicamente uma ditadura, princialmente considerando a depressão econômica que se anuncia.

    Depois tem as eleições americanas, as questões ambientais e as dependência das exportações para a China, que dificultam qualquer recuperação econômica diante de um provável isolamento internacional.

    A realidade econômica do Brasil hoje é totalmente diferente da realidade econômica da Alemanha no período de ascensão do nazismo.

    Os riscos políticos para as Forças Armadas são enormes, além de um risco considerável de o número de legalistas apoiados por levante popular possa desencadear uma guerra civil.

  14. Politics
    Biden leads Trump in Post-ABC poll as president’s coronavirus rating slips

    The Washington Post—By Dan Balz and Emily Guskin May 31, 2020 at 1:01 p.m. GMT+9

    Americans give President Trump negative ratings for his handling of the coronavirus pandemic, and as the crisis has persisted his prospects for reelection in November have eroded, with former vice president Joe Biden now holding a clear lead nationally, according to a Washington Post-ABC News poll.

    Overall, Americans offer mixed assessments of Trump and Biden, and although the presumptive Democratic nominee is viewed less favorably overall today than he was last fall, he fares better than the president on several personal attributes. At the same time, Trump’s supporters are notably more enthusiastic and committed to voting for him in the fall than are those who currently back Biden.

    Biden leads Trump 53 percent to 43 percent among registered voters nationally. That 10 percentage-point margin compares with what was a virtual dead heat between the two candidates two months ago, when Biden was at 49 percent and Trump 47 percent. Among all adults, Biden’s margin widens to 13 points (53 percent to 40 percent).

    https://www.washingtonpost.com/politics/biden-leads-trump-in-post-abc-poll-as-presidents-coronavirus-rating-slips/2020/05/29/37c0dac8-a1d1-11ea-9590-1858a893bd59_story.html

    anexo:
    This Washington Post-ABC Newspoll was conducted by telephone May25-28, 2020, among a random national sample of 1,001adults, with 75 percent reached on cell phones and 25 percent on landlines. Results have a margin of error of plus or minus 3.5percentage pointsfor the full sample, including design effects due to weighting. Sampling, field work and data processing by Abt Associates of Rockville, MD.*= less than 0.5 percent

    https://www.washingtonpost.com/context/may-25-28-2020-washington-post-abc-news-poll/bb30c35e-797e-4b5c-91fc-1a1cdfbe85cc/?itid=lk_inline_manual_2

    Click here to download if the document isn’t visible or legible.

    https://context-cdn.washingtonpost.com/notes/prod/default/documents/0ed77132-0add-4232-b50f-637bd08dbe15/note/367070b1-2e9d-4a85-bc13-0e6529fe5d43.#page=1

  15. Nassif, o Bozo é cronicamente inviável, mas o bolsonarismo permanecerá como fantasma a nos querer assombrar. É aqui que entra o papel da educaçáo popular combinado com ação cultural. A de antes, não realizada na proporção como deveria, vacilo do campo progressista. A atual, mesmo virtual e a futura, que agregará também o uso das novas tecnologias. Pergunta: Com esse tipo de proposição, cês acham que dá para votar na maioria dos candidatos da esquerda ou da centro esquerda que estão se propondo a disputar eleições municipais?

  16. + comentários

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