4 de junho de 2026

O pragmatismo e a falta de utopia

Por Assis Ribeiro

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Comentário ao post “O avanço do obscurantismo e da perda da generosidade

Em sentido amplo, a utopia pode ser entendida como tudo o que ainda não foi tentado. A importância da utopia é a de mover segmentos da população que estão insatisfeitos e não comprometidos com a ordem existente, por isso ela é essencial na democracia. A utopia é uma condição “sine qua non” do homem como ser, que deseja, que busca a superação, a transcendência, os sonhos.
 
Ao contrário, o pragmatismo tão propalado nesta sociedade pós – moderna comporta imensos riscos. Ser pragmático é, em miúdas palavras, ser prático ou seguir uma praxe estabelecida. Desta forma, ao exercer esse princípio corremos o risco da apatia, da adaptação, ou, se preferirem, do conformismo. Este conformismo está expresso quando concordamos com o que está posto, quando passamos a acreditar que não existem alternativas no jogo político, por exemplo.
 
Segundo Mannheim: “A desaparição da utopia ocasiona um estado de coisas estático em que o próprio homem se transforma em coisa. Iríamos, então, nos defrontar com o maior paradoxo imaginável, ou seja o do homem que, tendo alcançado o mais alto grau de domínio racional da existência, se vê deixado sem nenhum ideal, tornando-se um mero produto de impulsos. (…) o homem perderia, com o abandono das utopias, a vontade de plasmar a história e, com ela, a capacidade de compreendê-la”
 
Este “estado de coisas estático” é percebido quando ouvimos as pessoas afirmarem que “não gostam de política”, ou quando observamos a cristalização de um conjunto de noções anti-políticas no senso comum. Esta expressão de tendências indica fenômenos bem mais amplos do que a simples “desinformação”.

 
Ao sufocar a utopia e enaltecer o pragmatismo, o mundo pós – moderno estabeleceu mecanismos de reprodução sistêmica e tornou – se autômato, colocando em risco a própria democracia. Este pragmatismo cria sociedades marcadamente burocratizadas com instituições políticas rigorosamente fora de controle social o quê, por seu turno, é fonte propositiva de irregularidades, de desvios, de crimes, e da violência.
 
No campo político o pragmatismo e a sua busca por resultados imediatos tende a subordinar a concepção da ética. A ética não deve ser reduzida como a esfera específica onde se disputam posições; não deve ser limitada aos interesses em jogo.
 
Compete à sociedade introduzir a perspectiva da universalização que ultrapasse os antagonismos da busca pelo poder e supere a sua dispersão da ética. Compete à sociedade afirmar aquilo que ela deve ser para além de suas fraturas.
 
Os defensores da ordem vigente procuram desqualificar e até mesmo ridicularizar os contestadores utopistas. Com o tempo, muitos destes se rendem ao discurso “realista”. As necessidades políticas para a aquisição e manutenção do poder levam à prática de atitudes antes criticadas, mas agora legitimadas pelo “pragmatismo”.
 
É muito comum a crítica ao “utopismo” dos outros, sendo que o crítico coloca-se na posição do “realista”. Nesses casos, a crítica tende a ser pejorativa, ou mesmo feita com certa condescendência. De qualquer forma, o objetivo é caracterizar o outro como “irrealista”, “sonhador”, etc. Como escreve Mannheim:
 
“Os representantes de uma ordem dada irão rotular de utópicas todas as concepções de existência que do seu ponto-de-vista jamais poderão, por princípio, se realizar. De acordo com esta utilização, a conotação contemporânea do termo “utópico” é predominantemente a de uma ideia em princípio irrealizável. (…)Não obstante, os homens cujos pensamentos e sentimentos se acham vinculados a uma ordem de existência na qual detêm uma posição definida, manifestarão sempre a tendência a designar de absolutamente utópicas todas as ideias que tenham se mostrado irrealizáveis apenas no quadro da ordem em que eles próprios vivem.”.
 
Portanto, é imprescindível que a população não perca o seu poder de fiscalização, de controle, e de busca por uma sociedade mais justa e mais ética, ou como diz Mannheim:
 
“Com efeito, quanto mais ativamente um partido em ascensão colabora em uma coalizão parlamentar, tanto mais abandona seus impulsos utópicos originais e, com eles, sua perspectiva ampla, tanto mais seu poder para transformar a sociedade tenderá a ser absorvido por seus interesses em detalhes isolados e concretos. (…)”.
 
Só no último parágrafo pude perceber que o otimismo de Nassif não esmoreceu. A falta de ideologia emburrece o mundo (não só o Brasil). O pragmatismo e a sua busca de resultados imediatos enfraquece a política e o resultado é o que o texto pontua. Os movimentos de rua exemplificam a insatisfação das populações. Mesmo em países onde o governo é aprovado e reeleições garantidas, como no Brasil,  pesquisas demonstram que as pessoas ao mesmo tempo em que declaram a intenção de voto nos seus atuais governos pedem mudanças na política. Volto a pontuar que o problema é sistêmico e mundial, e a tentativa de se explicar individualizando não logrará êxito.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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5 Comentários
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  1. francisco.latorre.

    22 de novembro de 2013 10:49 am

    utopia.. fantasia.. só atrapalha.

     

     

    utopia. é fantasia. irreal. por definição.

     

    ideologia. é imaginação. factível.

     

    ..

     

    a questão é utopia versus ideologia.

     

    fantasia versus imaginação.

     

    imaginação. é real. fantasia. é sonho.

     

    .. 

     

    pragmatismo. é essencial. base. fundamento.

     

    sem imaginação. valores. é estéril.

     

    mas utopia.. fantasia.. só atrapalha.

     

    ..

  2. aliancaliberal

    22 de novembro de 2013 11:43 am

    Assis, “ideologia” é uma

    Assis, “A falta de ideologia emburrece o mundo” ideologia é uma falsa idéia, uma “roupagem” de uma idéia, que esconde seu real objetivo.

    O QUE É IDEOLOGIA ?

    [video:http://www.youtube.com/watch?v=LjQ5R2UtfeE%5D

     

  3. CELSO ORRICO

    22 de novembro de 2013 12:09 pm

    zumbi..

    um ser humano sem ideologia, visão de mundo, torna-se um zumbi..

  4. João Sabóia Jr.

    22 de novembro de 2013 1:01 pm

    Para que serve a utopia?

    Conta Eduardo Galeano em uma entrevista dada em Barcelona que estando ele junto com o cineasta argentino Fernando Berri em uma palestra realizada em uma Universidade na India.

    Um dos estudantes pergunta: para que serve a Utopia? Essa pergunta coube a Fernando Berri reponder, Galeano conta que pensou na fria que seu amigo estava e então relata a estupenda resposta de Berri:

    A Utopia está no horizonte, e eu sei que nunca vou alcança-la, que se caminho dez passos em sua direção, ela se distancia dez passos. Quanto mais a procuro mais, menos a encontro porque ela vai sempre se distanciando quanto mais tento me aproximar. Boa pergunta… Pois bem, a Utopia serve para isso, para caminhar!

  5. Waldyr Kopezky

    22 de novembro de 2013 7:55 pm

    Sobre utopia…

    Srs., creio haver um engano – utopia não é aquilo que não foi ainda tentado; tampouco é ideologia.

    É idealismo: a concepção intelectual (intuição) do melhor resultado presumível, ainda que este pareça virtualmente impossível naquele dado momento.

    É esperança, desejo expresso numa profissão de fé. E necessário a qualquer empreitada.

    Pode parecer fantasia? Pode – mas também é sonho.

    Pode parecer irreal? Na grande maioria das vezes – mas também é algo a se buscar.

    Pode parecer impossível de realizar? Também – mas somente aos medíocres.

    Já dizia José Ingenieros: “Quando alças teu horizonte de visão em direção a uma estrela, buscando nisso atingir tal excelsitude inacessível, levas contigo o impulso de um ideal.”

    É, acima de tudo, essencial à evolução humana. Tanto quanto o pragmatismo.

    Abs.

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