O que tens feito da tua vida?, por Urariano Mota

E o espírito, que de tudo sabia, que lhe podia indicar, ‘homem, olha aonde vai dar o teu caminho’, apenas o acompanhava em silêncio

O que tens feito da tua vida?

por Urariano Mota

Na mais recente quinta-feira, tive um encontro com o primo Arnaldo Severiano, que continua a ser um leitor voraz na altura dos seus 74 anos. Estávamos sentados em um banco de madeira circular na livraria do Recife Antigo. Tivemos uma conversa em que meu primo não cansava de me perguntar sobre a vida, sobre a literatura, sobre livros, ou sobre todas esses fenômenos juntos no mesmo instante. Aqui e ali, solicitado pela esposa, que viera com ele de Gravatá, interior de Pernambuco, e precisavam pagar umas contas no Recife, ele respondia à sua companheira: 

– Somente mais 15 minutos. 

E os 15 minutos voavam, porque há muito não nos víamos, e nestes dias de fascismo no Brasil todas as questões se tornaram urgentes. O certo é que depois de me falar sobre outro primo, seu irmão, que atravessa uma doença quase terminal, Arnaldo me perguntou: 

– Quando você rompeu com a religião? Quando você rompeu com Deus?

Assim, desse jeito, e vocês já veem o grau de intimidade e inquirição desse amigo de rara inteligência.  Até onde me lembro, eu lhe respondi na medida de minhas limitações, com a honestidade possível:

– Eu me tornei ateu ao entrar para Ação Popular, que era uma organização contra a ditadura. O curioso é que Ação Popular possuía uma origem católica, e depois, na maioridade, foi assimilada pelo Partido Comunista do Brasil. Mas virar ateu não é o mesmo que arrancar do peito a formação religiosa. Ela está no íntimo da gente desde a infância, não se supera com a pura vontade. A religião sobrevive nos valores morais que temos. O sexo como a expressão do pecado, por exemplo. Mas se a religião nos deu valores negativos, alguns positivos ela também nos deu, porque ela própria é um valor cultural que vem de séculos da humanidade. A dor na consciência que temos ao fugir de um dever, por exemplo. É aquela pergunta que o padrinho espiritual faz ao personagem no romance “O filho renegado de Deus”, você lembra? Esta: “homem, o que fizeste da tua vida?”. Isso é o mais grave. 

Arnaldo, que é magro e tem os olhos miúdos, tomou conta da paisagem da livraria no Recife Antigo. Aquilo era, de fato, o mais grave, ele pareceu concordar. O que fazemos ou fizemos das nossas vidas? Como temos agido nestes dias? O que temos feito como recuperação das conquistas da civilização? Onde estamos, por que estamos na terra? A quem servimos nesta vida? Mas a citação que não pude fazer  literal na conversa com o amigo e primo Arnaldo, de modo mais preciso faço agora, de uma página do romance: 

“- Homem, o que tens feito da tua vida? 

E ‘ao que fizeste da tua vida’ o pai interpretava como um ‘descreve o teu dia a dia, dize o que fazes para sobreviver’. Mas havia na pergunta do espírito uma recriminação moral, que se dirigia para um destino bem mais acima, como se fosse um concerto para clarinete de Mozart. Era incrível, ou melhor, era sintoma da maravilha humana que o pai dialogasse com uma alma de sua condenação, criada pela história da sua consciência, e, no entanto, voltasse ao homem material, ele próprio sentado na cozinha, com um protuberante sinal escuro no pescoço. Voltava a seu lugar e vendo o espírito respondia em voz alta, ele, matéria pequena: 

– Eu sou intérprete de inglês. Não esqueci a sua lição, quando o senhor me disse, na segunda guerra, aprende inglês que tua vida muda. Todo o mundo me respeita pelo meu inglês. Ganho o meu pão assim. Sou o melhor intérprete do Porto do Recife. É o que dizem. 

Quanta humildade, a mulher e o filho se espantavam com aquela transformação, aquele transporte para um novo ser no pai. Não, é claro, pela frase ‘sou o melhor intérprete’, mas pela transferência do atestado, ‘é o que dizem’. Em condições normais, o pai bateria no peito inflado, com um justo e inútil orgulho, clamando “eu sou o melhor intérprete de inglês do Recife”. Sem pedir declaração de excelência a ninguém. Mas agora, frente ao espírito, o pai descia degraus e limites da própria suficiência – que cheiro de mijo o filho sentia ao lembrar esta cena, porque se misturava ao pai agonizante em sete luas de carnaval adiante -, mas agora, não. ‘Dizem que sou’, até a raia do porto. Naquela humildade, sem humilhação, o filho nunca mais o veria, nem mesmo nos últimos dias, quando o pai se apagava com um câncer na cama. Naquela manhã com o padrinho ainda lhe faltavam sete noites dos próximos carnavais, mas aquele Mister, humilde senhor pai, não seria visto nem nas noites em que erguia o branco dos olhos, nos últimos minutos, a murmurar uma dor por entre a morfina, um pai de cabeça colossal em relação ao corpo sumido, que se negava a crer que estava desaparecendo. Mas agora, enquanto responde ao padrinho espiritual, não. Porque fala como em um confessionário, na forma que o filho aprenderia adiante de se confessar a um padre, no momento em que se recebe a penitência pelas faltas confessadas, porque o pai, sempre de voz áspera, tonitruante, fala baixo, responde baixo ao espírito que o filho e a mulher não veem nem escutam: 

– É verdade, padrinho. 

E o espírito, que de tudo sabia, que lhe podia indicar, ‘homem, olha aonde vai dar o teu caminho’, apenas o acompanhava em silêncio, como se lhe respondesse a cada mágoa contada:

– Filho, o que tens feito da tua vida? 

O espírito assentia, dissentia, numa censura doce e inconformada, pois clara era a teimosia do pai do menino, naquele caminho que o levava à desgraça: 

– Responde, o que tens feito da tua vida?”

 O primo Arnaldo Severiano, que é um homem espírita, compreendeu o sentido político mais profundo à lembrança daquela pergunta. O que temos a fazer, quando vemos o abismo que se abre? O seu irmão está no fim, mas no começo está a nossa luta. E me deu um abraço, fotografado pela filha. Na saída, já era noite no Recife Antigo. 

*Vermelho http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=10348&id_coluna=93 

 

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