O Que Teria Causado A Fome Da Batata Na Irlanda Do Séc. XIX?

Durante o verão de 1845, uma “praga incomum” devastou a colheita de batata da Irlanda, o alimento básico na dieta irlandesa. Poucos dias após as batatas serem colhidas, começavam a putrefazer-se. Especialistas convocados para investigar alegaram que a causa seria o resultado da “eletricidade estática” ou da fumaça das locomotivas ferroviárias ou dos “vapores mortíferos” que emanavam de vulcões subterrâneos. Na verdade, a causa era um fungo que havia viajado do México para a Irlanda.

“Febre da fome” – cólera, disenteria, escorbuto, tifo e infestação de piolhos – logo se espalharam pelo campo irlandês. Observadores relataram ter visto crianças chorando de dor e com aparência “esquelética, seus traços definhados pela fome de modo que havia pouco mais que ossos”. Corpos eram enterrados alguns centímetros abaixo do solo, sem caixões.

Nos próximos dez anos, perto de um milhão de irlandeses morreram e outros 2 milhões deixaram sua pátria para a Grã-Bretanha, o Canadá e os Estados Unidos. Nesses anos, a população irlandesa foi reduzida em um quarto.

A Fome da Batata Irlandesa não foi simplesmente um desastre natural, foi um produto de causas sociais. Sob o domínio britânico, os católicos irlandeses eram proibidos de exercer profissões liberais ou mesmo comprar terras. Por isso, muitos alugavam pequenos lotes de terra de proprietários protestantes britânicos ausentes. Em geral, essas propriedades mediam menos de cinco acres, em 1845.

Os camponeses irlandeses subsistiam com uma dieta composta em grande parte de batatas, uma vez que o agricultor poderia colher o triplo em batatas na relação aos grãos no mesmo lote de terra. Um único acre de batatas poderia sustentar uma família por um ano. Cerca de metade da população da Irlanda dependia de batatas para subsistência.

A ineficácia dos esforços de socorro do governo britânico piorou os horrores da fome da batata. Inicialmente, a Inglaterra acreditava que o mercado livre acabaria com a fome. Em 1846, em uma vitória para os defensores do livre comércio, a Grã-Bretanha revogou as leis do milho, que protegia os produtores de grãos domésticos contra a concorrência estrangeira. A revogação das Leis do Milho não conseguiu acabar com a crise, simplesmente porque os irlandeses não tinham dinheiro suficiente para comprar grãos estrangeiros.

Na primavera de 1847, a Grã-Bretanha adotou outras medidas para lidar com a fome, criando cozinhas e programas emergentes de alívio. Mas muitos desses programas terminaram quando uma crise bancária atingiu a Grã-Bretanha. A Grã-Bretanha tentou um sistema de casas de trabalho (WorkHouses), que havia sido originalmente criado em 1838, para lidar com a fome. Mas essas instituições não foram planejadas para lidar com uma crise de tão grande alcance. Cerca de 2,6 milhões de irlandeses entraram em casas de trabalho superlotadas, onde morreram mais de 200.000 pessoas.

The effect of the famine 
Courtesy of Sligo County Council.

A Fome da Batata Irlandesa deixou como legado, profundos e duradouros sentimentos de amargura e desconfiança em relação aos britânicos. Longe de ser um desastre natural, muitos irlandeses estavam convencidos de que a fome era uma consequência direta da política colonial britânica, pois durante os piores anos da fome, muitas propriedades anglo-irlandesas continuaram a exportar grãos e gado para a Inglaterra.

Em 1994, Tony Blair emitiu uma declaração sobre a Fome da Batata Irlandesa há 150 anos, o que equivale ao primeiro pedido de desculpas manifestado pelas autoridades britânicas.

No festival em County Cork para relembrar a fome, que custou um milhão de vidas, a declaração do primeiro-ministro inglês, onde ele culpa “aqueles que governavam em Londres” no momento do desastre, foi lida para uma audiência de 15 mil pessoas em um concerto do ator irlandês Gabriel Byrne. Nela, Blair disse estar feliz por se juntar aos que enlutavam por aqueles que morreram e sofreram durante “A Grande Fome Irlandesa”.

E continuou: “A fome foi um acontecimento determinante na história da Irlanda e da Grã-Bretanha, que deixou cicatrizes profundas. O fato de um milhão de pessoas terem morrido, na então parte da nação mais rica e poderosa do mundo, é algo que causa dor à medida que refletimos, ainda hoje. Aqueles que governavam Londres, na época, falharam com seu povo”.

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As palavras de Blair foram bem recebidas por John Bruton, o primeiro-ministro irlandês, que disse: “Embora a declaração enfrente o passado honestamente, ela o faz de uma forma que cura o futuro”.

Famine (1997), commemorating the Great Famine, sculpture by Rowan …

© Arap/Fotolia

 

A Grande Fome da Irlanda Vista Pela Escola Austríaca

Mark Thornton é um economista americano da Escola Austríaca. Thornton é descrito pela Advocates for Self-Government como “um dos maiores especialistas da América sobre economia das drogas ilegais.” É membro residente sênior do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, e é o editor da seção de críticas literárias do Quarterly Journal of Austrian Economics. Ele é o co-autor do livro Tariffs, Blockades, and Inflation: The Economics of the Civil War e editor de The Quotable Mises e The Bastiat Collection.

[This article originally appeared in The Free Market, April 1998; Volume 16, Number 4.]

 Original Aqui

O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, pediu desculpas por fazer “muito pouco” em resposta à Fome da Batata Irlandesa do século XIX, que matou um milhão de pessoas e provocou a emigração de outros milhões. Mas na verdade, o governo inglês foi culpado sim, mas por fazer demais.

A declaração de Blair chama a atenção para a questão do que causou a fome. Até agora, a teoria popular é que os irlandeses eram promíscuos, preguiçosos e excessivamente dependentes da batata. Como resultado, eles morreram às centenas de milhares quando uma praga apareceu e arruinou sua fonte de alimento, em meio a um dos melhores períodos de crescimento econômico da história humana.

A Fome da Batata foi um acidente ecológico, como costumam dizer os historiadores? Assim como a maioria das fomes, ela teve pouco a ver com declínios na produção de alimentos. Adam Smith estava certo quando disse: “as más temporadas causam escassez, mas a violência de governos bem-intencionados pode converter a escassez em fome”.

Na verdade, a causa mais flagrante da fome não foi uma doença vegetal, mas a longa hegemonia política da Inglaterra sobre a Irlanda. Os ingleses conquistaram a Irlanda várias vezes, e tomaram posse do vasto território agrícola. Grandes extensões de terra foram doadas a cidadãos ingleses.

Esses proprietários, por sua vez, contrataram fazendeiros para administrar suas propriedades. Em seguida, os gestores alugaram pequenos lotes à população local em troca de trabalho e de produtos agrícolas. A competição por terras resultou em aluguéis elevados e parcelas menores de área para plantio, forçando os irlandeses à subsistência e proporcionando uma grande sucção na economia.

O arrendamento de terra pode ser eficiente, mas os irlandeses não tinham direitos sobre a terra que trabalhavam ou sobre qualquer melhoria que pudessem fazer. Somente em áreas dominadas por protestantes, os fazendeiros tinham algum direito sobre suas melhorias dos bens. Com a grande maioria dos proprietários residindo na Inglaterra, não havia interesse de melhorias sistemáticas nas propriedades.

Os irlandeses sofreram muitas fomes sob o governo inglês. Como um boxeador com os dois braços amarrados atrás das costas, os irlandeses foram se mantendo em pé e absorvendo golpe após golpe. Aos poucos, as “muitas circunstâncias” da política inglesa criou o murro e a resposta final para a “Questão Irlandesa”.

O economista free-market, J.B. Say, logo observou que o sistema de proprietários ausentes era deplorável. Ele diagnosticou com precisão esta situação e previu severamente os resultados desastrosos que se seguiram. Ele relacionou, pesarosamente, a situação com a sugestão de um membro do Parlamento para que os mares engolissem a Ilha do Eire por um período de tempo suficiente para destruir tudo que ali existia.

A lei malthusiana da população às vezes é usada para explicar a culpa inglesa. Aqui os irlandeses eram vistos como um bando promíscuo que se casava jovem e tinha muitos filhos. O próprio Malthus considerava a situação irlandesa como desesperada. Os irlandeses então pagaram pelos seus pecados através da fome e da doença que a tragédia forjou.

Seria os irlandeses um grupo tão promíscuo? A Irlanda era populosa e a ilha tinha-se tornado densamente povoada após a união com a Grã Bretanha em 1801. Parte deste crescimento da população pode ser atribuída ao desenvolvimento econômico básico, enquanto a população também aumentava rapidamente na Inglaterra e em outras partes da Europa.

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Na verdade, a população irlandesa só estava crescendo um pouco mais rápido do que a população inglesa e partia de uma base muito menor. Mas por que estava crescendo mais rápido? A resposta reside no fato de que a Inglaterra tinha colocado a Irlanda em uma posição incomum como o celeiro para a Revolução Industrial.

As Leis Britânicas do Milho foram projetadas para proteger os fazendeiros locais da competição estrangeira. Em 1801, essas leis foram estendidas para a Irlanda. As leis não apenas mantinham os preços altos, como também os protegiam contra a queda em anos de abundância. Os principais beneficiários deste protecionismo foram os proprietários ingleses ausentes da Irlanda, e não os irlandeses.

O povo irlandês era capaz de produzir grandes quantidades de batatas nutritivas que alimentavam suas famílias e animais. Os proprietários se beneficiavam do fato que a batata não esgotava o solo, permitindo que uma porcentagem maior da propriedade fosse utilizada às colheitas do grão exportado para a Inglaterra.

Os preços altos estimularam o cultivo de novas terras e o uso mais intenso das terras agrícolas já existentes. Um fator primordial para esse aumento da produção foi o camponês irlandês que, na maioria dos casos, nada mais era do que um servo sem terra. Da mesma forma, a taxa de crescimento demográfico desacelerou em resposta a níveis reduzidos de protecionismo na década anterior à Fome.

Este estímulo artificial à população irlandesa era garantido pelos ingleses, senhores das terras, no controle do parlamento. No entanto, fabricantes e trabalhadores ingleses que apoiavam o livre comércio  cresceram como força política. Com a agitação da Liga Anti-Lei do Milho, os Whigs e Tories concordaram em 1845 a reduzir as tarifas protecionistas e as Leis do Milho foram anuladas completamente até 1849. O preço do trigo despencou em 1847 (“milho” significa também grãos, especialmente trigo, o primeiro grão protegido sob as Leis do Milho), caindo para o mais baixo preço em 67 anos.

A revogação afetou drasticamente o valor das terras agrícolas na Irlanda e reduziu a procura da mão-de-obra, enquanto as terras irlandesas passavam da produção de cereais para pastagens. Deve ficar claro que, embora o livre comércio tenha provocado essas mudanças, a culpa tanto do crescimento populacional estimulado na pré-Fome como do subsequente despovoamento (a população irlandesa não se recuperou até 1951 e a emigração só terminou em 1996) permanecem sobre  as “Leis Do Milho”.

Esses choques de preços tornaram inevitável um declínio populacional. Como a emigração tornou-se uma opção viável, muitos irlandeses decidiram sujeitar-se à longa e perigosa jornada para o Novo Mundo ao invés das balsas para as fábricas da Inglaterra.

Vejamos agora a chamada abordagem do laissez-faire que os ingleses aplicaram à fome e pela qual Tony Blair pediu desculpas. Isto é importante porque constitui a espinha dorsal do fato que o mercado livre não pode cuidar da fome e crise (também que o FMI e a FEMA são todos muito necessários atualmente).

Longe de permitir que o mercado funcione, a Inglaterra lançou um programa maciço de intervenção governamental, consistindo principalmente em construir casas de trabalho (as WorkHouses) , a maioria completada pouco antes do início da Fome.

Anteriormente, o Irish Poor Inquiry havia rejeitado a WorkHouse como uma solução para a pobreza. No relatório, o Arcebispo Whately – atacado hoje por sua posição de livre mercado – argumentou que a solução para a pobreza é investimento e caridade, mas esses laudos “radicais” foram rejeitados pelos ingleses que derrubaram o relatório e nomearam George Nicholls para escrever um novo laudo.

As workhouses, uma versão antecipada do New Deal make-work, somente piorou o problema da pobreza. Um sistema de extensas obras públicas exigiu uma pesada tributação sobre a economia local. As autoridades inglesas dirigiram as verbas que seriam para projetos que aumentariam a produtividade e a produção agrícola em construções de estradas inúteis.

A maioria dessas estradas começava em nenhum lugar e terminava em lugar nenhum. Pior ainda, a política estabelecida por Sir Charles Trevelyan de pagar salário abaixo do mercado, o qual já era bastante baixo, significava que os trabalhadores ganhavam menos em comida do que a energia calórica que normalmente gastavam ao trabalhar nas estradas.

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Relatórios sobre política inglesa para caridade é coisa difícil de ignorar. Um relato mostra o povo de Massachusetts enviando um navio de grãos para a Irlanda, mas as autoridades inglesas colocaram em depósito alegando que iria perturbar o comércio. Outro relatório tem o governo britânico apelando para o Sultão da Turquia que reduzisse a sua doação de £ 10.000 para £ 1.000, a fim de não embaraçar a rainha Victoria, que havia prometido apenas £ 1.000 para o alívio.

O governo britânico abriu cozinhas populares em 1847 e estas foram um pouco bem sucedidas porque imitavam caridade privada e fornecia nutrição sem exigir esforço calórico ou aumentos significativos de impostos. Mas essas cozinhas rapidamente foram extintas. Em seguida veio o retorno das WorkHouses, mas outra vez não poderiam resolver o problema da pobreza e da fome. No verão de 1847, o governo aumentou os impostos, um ato verdadeiramente insensível.

Em adição ao fracasso fundamental dos programas governamentais, as casas de trabalho, as obras públicas e as cozinhas populares, houve uma tendência a concentrar as pessoas em grupos maiores e em lugares mais apertados. Isso permitiu que o principal assassino da Fome – a doença – fizesse seu trabalho sujo.

Poucos  irlandeses morreram nas inúmeras fomes anteriores; portanto, a praga da batata não afligiu gravemente a maior parte da Europa. O que tinha de diferente na Irlanda da década de 1840? A Irish Poor Law eliminou a caridade privada. Nas fomes anteriores, os irlandeses e ingleses haviam proporcionado uma caridade extensiva. Mas por que doar quando o dinheiro do contribuinte estava cuidando da situação? O povo inglês fora fortemente tributado para pagar programas massivos de bem-estar. O contribuinte irlandês não estava em condições de fornecer caridade adicional.

Outro fator também teve seu papel. A Lei dos Bancos de 1844 precipitou uma crise financeira criada pela contração do dinheiro com uma política de crédito mais restritiva que substituiu outra mais liberal. Juntos esse e outros fatores suportam a acusação de John Mitchel de que “o Todo-Poderoso enviou a praga da batata, mas os ingleses criaram a Fome”.

Teriam os ingleses criados a fome de propósito? Afinal de contas, isso aconteceu em uma era de revolução, e os irlandeses eram suspeitos de conspirar outra revolta. A “Questão Irlandesa” era de grande importância e muitos ingleses concordavam com Trevelyan que Deus enviara a praga e a Fome.

Em última análise, a questão da culpa não é tão importante quanto a questão da causa. Mais importante ainda, a Fome é uma fonte de grandes erros de conceitos econômicos, como a afirmação de que as fomes são culpa do mercado e do livre comércio, e que a fome resulta da política do laissez-faire. Até mesmo Karl Marx foi fortemente influenciado pelos eventos acontecidos na Irlanda, quando  escrevia em Londres.

A Irlanda foi destruída pelas forças econômicas que emanavam de um dos estados mais poderosos e agressivos que o mundo já conhecera. A Irlanda não sofreu com um ataque de fungo (como os cientistas ingleses insistiam que fosse apenas pela umidade excessiva), mas da conquista, roubo, escravidão, protecionismo, bem-estar público, obras públicas e inflação.

Como americano, dificilmente considero as desculpas do Mr. Blair. No entanto, se o pedido de desculpas foi por causar a fome e pelas políticas de bem-estar que se tornaram tão mortais, eu teria muito mais para recomendá-lo.

Ireland’s Holocaust mural on the Ballymurphy Road, Belfast. “An Gorta Mór, Britain’s genocide by starvation, Ireland’s holocaust 1845–1849, over 1,500,000 deaths”.

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1 comentário

  1. Excelente e esclarecedor

    Excelente e esclarecedor artigo. Como consolo, a emigração em massa de irlandeses para América serviu para forjar o crescimento dos EUA.

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