10 de junho de 2026

O silêncio cúmplice de um país. A tragédia de Mariana (MG) – dois anos de impunidade – deveria mobilizar multidões…

O que aconteceu em Mariana(MG) – 05 de novembro de 2015, dois anos -, deveria mobilizar multidões. O Brasil deveria se levantar e procurar respostas e exigir responsabilidades, pois delas depende seu destino e o de nossos filhos… Pego de empréstimo as palavras de Pablo Neruda, para, dentro de sua poesia, tentar descrever o que se perdeu…e o que se deve buscar…. 

EXPLICO-LHES ALGUMAS COISAS (poema de Pablo Neruda adaptado a Mariana(MG))
.
Perguntarieis: E onde estão os lilases?
E a metafísica coberta de papoulas?
E a chuva que frequentemente golpeava
suas palavras enchendo-as
de buracos e pássaros?
.
Vou lhes contar tudo que se passa comigo.
.
Eu morava num bairro
de Mariana, com sinos,
com relógios, com árvores.
.
Dali era possível ver
o rosto úmido das montanhas
como um oceano verde 
Minha casa era chamada
a casa das flores, porque por todas as partes
estalavam gerânios: era
uma bela casa
com cães e crianças.
Raul, te lembras?
……….Te lembras Paulo?
Frederico, te lembras?
debaixo da terra,
te lembras da minha casa com sacadas aonde

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a luz de junho afogava flores em sua boca?

……….Irmãos, irmãos!

 

Tudo 
eram intensas vozes, sal de mercadorias, 
aglomerações de pão palpitante,
mercados do bairro de Bento Rodrigues, com sua estátua
como um tinteiro pálido entre as casas:
o mel chegava às colheradas,
um profundo bater
de pés e mãos enchia as ruas,
metros, litros, essência
aguda de vida,
peixes amontoados,
contextura de tetos quentes do sol no qual
a noite fria descansa,
o delirante marfim fino das batatas,
tomates em profusão até o rio
Doce.
.
E uma manhã tudo estava ruindo
e uma manhã a lama
descia da serra
devorando seres,
e desde então gritos,
mortes desde então,
e desde então sangue.
.
Bandidos com plantas e máquinas,
bandidos com diplomas e anéis,
.
bandidos cheios de papéis
e mentiras
.
vieram juntos, guiados pela ganância
através dos vales a matar crianças,
e pelas casas e ruas o sangue das crianças
corria simplesmente, como sangue de crianças.

Chacais que o chacal rechaçaria,
pedras que o cardo seco morderia cuspindo,
víboras que as víboras odiariam!
.
Diante de vocês eu queria ter visto
o sangue
do Brasil levantar-se
para afogá-los numa só onda
de orgulho cívico
e formidável solidariedade humana!
.
Exploradores
traidores:
vejam minha casa morta,
vejam esta parte do Brasil destroçada:
Vejam bem
mas, de cada casa morta saem vozes ardendo
em vez de flores,
mas de cada canto do Brasil

sai Mariana,
mas de cada criança morta 
sai um livro com olhos,
mas de cada crime surgem multidões 
que lhes encontrarão um dia 
o lugar do coração
.
Vocês vão me perguntar por que sua poesia
não nos fala do sonho, das folhas,
dos grandes rios e praias do seu país natal?
.
Venham ver as crianças mortas em meio a lama,
……..venham ver
o sangue e a lama pelas casas e ruas,
.
venham ver o sangue e a lama
……..pelas ruas!
.

Poema – España en el corazon – Explico algunas cosas – Pablo Neruda (http://usuaris.tinet.cat/elebro/poe/neruda/neruda30.html)

 

Redação

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