Os erros de Doria e Covas no enfrentamento ao coronavírus em São Paulo

Epicentro da crise no Brasil, SP demorou muito tempo para obrigar uso de máscaras, sobrecarregou transporte público e não adotou política específica para a realidade das periferias

Jornal GGN – Ao contrário do irresponsável Jair Bolsonaro, João Doria e Bruno Covas respeitam as vidas humanas, entendem a gravidade da epidemia de coronavírus e pautam grande parte de suas decisões na ciência e nas recomendações de médicos que assessoram o governo do Estado de São Paulo e prefeitura da capital. Mas isso não significa que as medidas adotadas até agora são suficientes e que não há erros visíveis no que estão fazendo.

Artigo de Nabil Bonduki na Folha desta segunda (11) apresenta alguns contrapontos às ações de Doria e Covas. A começar pelo problema maior: a política do “fique em casa” cai bem entre os paulistas de classe média, mas aqueles que vivem nas favelas e precisam trabalhar para conseguir pagar as despesas básicas e comprar alimentos para o dia, simplesmente não conseguem aderir ao “movimento” sem ajuda do Estado.

“As administrações do PSDB, embora obedecendo uma diretriz geral correta, vem cometendo erros em série e não conseguiram estruturar uma estratégia consistente para enfrentar a pandemia”, avaliou Bonduki.

Para o ex-secretário municipal de Cultura de São Paulo, os dois governantes parecem “desconhecer a diversidade do contexto urbano, social e econômico das nossas cidades.”

“De modo coerente com sua base social e eleitoral, essas gestões conseguiram colocar em prática uma estratégia eficaz para as classes privilegiadas (alta e média alta), onde a pandemia foi contida, mas ineficaz para as áreas de maior vulnerabilidade social, onde ela avança.”

Bonduki citou no artigo pesquisa com 514 famílias da favela de Heliópolis, realizada pelo Observatório De Olho na Quebrada, um projeto da UNAS, que mostrou que “68% perderam renda, que já era baixa; 55% das famílias tinham quatro ou mais pessoas na moradia, de área insuficiente.”

Além de dificultar que fiquem em casa, o levantamento indica que não há condições de fazer isolamento se uma das pessoas da casa ficar doente. Era preciso, portanto, um controle maior sobre a circulação dos paulistas e políticas para tentar impedir que o vírus chegasse às áreas vulneráveis.

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Ao contrário disso, o isolamento decreto no Estado e capital reduziu, logo de cara, a frota do transporte público. A lotação nos ônibus, na visão de Bonduki, ajudou “a levar o Covid 19 para a periferia.” Associado a isso, o governo levou 50 dias para obrigar o iso de máscara no transporte e vias públicas. O Paço adotou um megarodízio que tende a pior a lotação, embora a Prefeitura afirme que disponibilizou mais ônibus.

A cereja do bolo foi o modo precipitado como Doria anunciou em 22 de abril a flexibilização da quarentena a partir de 11 de maio. Desde que começou a falar na retomada das atividades econômicas que hoje estão suspensas, a taxa de isolamento médio no Estado nunca mais ficou acima dos 50%. Resultado: o governo teve de recuar do relaxamento e estendeu a quarentena até 31 de maio.

Os médicos que respaldam as decisões de Doria deixaram claro que sem isolamento entre 55% e 60%, mais 40% dos leitos de UTI desocupados e uma queda diária dos novos casos de COVID-19, não há como falar em flexibilização.

Doria, ao contrário de governadores do Nordeste, reluta em adotar o lockdown. E, para Bonduki, se tiver de fazê-lo sem debater antes com a sociedade e com associações locais, poderá “gerar grave conflitos”.

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