5 de junho de 2026

PIB negativo, educação positiva, por Bresser-Pereira

Da Folha

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PIB negativo, educação positiva

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Às vezes eu temo me transformar em um economista de uma nota só, a taxa de câmbio. Mas, na última semana, reagindo à queda do PIB trimestral de 0,5%, acompanhado por variação negativa dos investimentos, Antonio Delfim Netto, nesta Folha, atribuiu o fato ao câmbio. Calculou que, entre 2002/07 e 2008/13, a queda das exportações e o aumento das importações levaram a uma “fantástica redução da demanda externa de US$ 275 bilhões” e perguntou: “Por que um industrial iria investir nessas condições?”

Alguém poderia responder que, em compensação, empresários industriais viram o mercado interno aumentar. Mas todo o aumento ocorrido foi “comido” pelas importações: aumentou a produção dos países que exportam para o Brasil. A valorização cambial e a perda de competitividade decorreram das entradas de capitais dos quais não necessitamos, do uso abusivo da apreciação cambial para controlar a inflação e de salários crescendo mais que a produtividade.

Ao contrário do que afirmam os economistas, tanto os liberais quanto os desenvolvimentistas, o principal problema da economia brasileira não está relacionado com a política fiscal, nem com a política de juros. E muito menos com a educação de baixa qualidade. A quase estagnação é resultado de um câmbio valorizado, que impede investimentos.

Embora não haja nada mais importante para o desenvolvimento de um país do que a educação fundamental, seus efeitos só se fazem sentir no longo prazo. Na verdade, desde a transição democrática de 1985, a sociedade brasileira, pela primeira vez na sua história, vem empregando os melhores esforços para resolver o problema da educação fundamental, tanto assim que, no mesmo dia em que saiu o PIB negativo, saiu a informação que o Brasil foi, entre os 65 países que participaram do exame Pisa, o que mais avançou em matemática: 9,8 pontos.

É verdade que o Brasil continua em uma colocação muito baixa, em 58º lugar no Pisa, mas o importante é que estamos avançando. Assisti recentemente a uma conferência de Aloizio Mercadante e fiquei impressionado com os avanços que estão ocorrendo, resultado da liderança de políticos como ele e como o saudoso Paulo Renato de Souza, do esforço de milhares de educadores, e do apoio decidido dos brasileiros.

Mas será razoável comparar o grande apoio que hoje a sociedade brasileira dá à educação com a resistência que demonstra em relação a um câmbio competitivo? Acredito que sim.

Primeiro, porque, dada a tendência à sobreapreciação cíclica da taxa de câmbio existente nos países em desenvolvimento, não se pode deixar o problema por conta do mercado. É preciso que, como no caso da educação, haja uma política deliberada nessa direção.

Segundo, porque essa política não é popular; ela implica, no curto prazo, uma redução do consumo de todos. Ora, não obstante seja muito rápido e muito alto o retorno de uma política desse tipo em termos de maior crescimento e maiores salários, a sociedade brasileira não compreende esse fato, e seus economistas não ajudam a esclarecê-la; são vítimas da preferência pelo consumo imediato, implícita em deixar o câmbio como está.

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2 Comentários
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  1. aliancaliberal

    16 de dezembro de 2013 12:11 pm

    “Segundo, porque essa

    “Segundo, porque essa política não é popular; ela implica, no curto prazo, uma redução do consumo de todos. “

    Então esquece nunca vai acontecer.

    O que o Bresser por meios tortos quer falar é que nenhum país se desenvolveu sem te uma robusta poupança.

    “são vítimas da preferência pelo consumo imediato, implícita em deixar o câmbio como está.”

  2. Ale AR

    16 de dezembro de 2013 12:40 pm

    Classemedismo cambial

    É incrível como a classe média detesta apontar à taxa de câmbio como o principal problema que afeta o desenvolvimento do Brasil. A taxa de câmbio apreciada é a mazela que o país precisa extirpar para crescer a taxas muito maiores que as apresentadas nos últimos 20 anos. Mas, com o câmbio apreciado, a classe média pode se dedicar ao que mais gosta: falar do atraso de país que o Brasil é, apontando a corrupção, a burocracía, a péssima mão de obra, o gasto público excessivo, os lucros dos industriais, os juros e a infraestrutura precária como os grandes problemas que o país precisa resolver. Câmbio é outra coisa. O outro dia, aqui no blog, uma comentarista chegou a dizer a barbaridade de que câmbio livre é coisa de país livre, e câmbio controlado ou política cambial era coisa de país comunista! (E a senhora, pela veemência, parecia ser petista de carteirinha. Que salada ideológica!). Outra senhora me disse que se o câmbio subisse a hiperinflação iria voltar. Quando se queixam do caro que está tudo, e de como até em Londres as coisas são mais baratas que no Brasil, e se levanta a questão câmbio como única variável fora do lugar (se o dólar custasse R$4,60 ao invés de R$2,30, os preços ficariam, comparados com o exterior, 50% mais baratos instantáneamente), ficam ensandecidos, pois perdem duas coisas ao mesmo tempo: a chance de falar mal do país e do PT (incrível, esse é o maior erro do PT!) e o seu “precioso”, isto é, o dólar barato. Findo o tópico que país é esse, passam a comentar o seu segundo esporte favorito: viajar pelo mundo, e aproveitar para comprar lá fora, já que está tudo mais barato que aquí. 

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