Um dia a ser muito bem comemorado.
Por Patricia Ioco / São Francisco Xavier / SJC/ SP
É março, e logo mais será celebrado o Dia Mundial da Água. São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos tem uma razão importante para comemorar a data, o dia em que as águas dos Martins passaram a ser cuidadas. Águas que correm para o córrego batizado com o nome de seus antepassados, que desaguam no Rio Peixe, que por sua vez, é um dos principais afluentes do Rio Paraíba do Sul; que logo mais, abastecerá o sistema Cantareira em SP.
Desde setembro de 2015, o Projeto Protegendo as Águas vem atuando no bairro dos Martins, comunidade rural no distrito de São Francisco Xavier, São José dos Campos.
Escolhido para receber as instalações de sistemas de reciclagem de água, em 5 meses foram executadas oficinas, rodas de conversa, muito trabalho árduo e momentos de prazer e descontração permeadas pela moda de viola. As 7 famílias receberam 6 sistemas de reciclagem de água, compostos por fossa séptica, ciclos de bananeira e vermifiltros.
Diferente dos 10% de brasileiros que não tem água com qualidade para beber, São Francisco Xavier ainda é considerado um manancial de água boa, e os Martins a tem no próprio quintal. De acordo com a Pnad (2011), o saneamento no Brasil apresenta 37,4% sem ligação com redes de esgotos (23 milhões de casas, 70 milhões de pessoas) e para completar, segundo o IBGE (maio de 2012), 11% dos domicílios estão em áreas com esgotos a céu aberto. Essa sim era a realidade encontrada pela equipe do projeto. Mesmo com condições privilegiadas de oferta de água, a falta de tratamento das águas servidas (águas cinza e preta) são causas de degradação e doenças em todo o país. Com o patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental na região do Vale do Paraíba as águas dos Martins agora são tratadas.
Histórico
Ao deparar-se com a realidade dos Martins, Fabiana (Bia) Pureza, responsável técnica do projeto, convidou o engenheiro civil Guilherme Castagna, especialista que se dedica a projetos de sistemas inovadores de manejo integrado de água, comprometido em auxiliar comunidades no empoderamento das águas para trabalhar com a comunidade. Premiado por seus projetos no Brasil e no exterior, Guilherme é também ativista, co-fundador do Movimento Cisterna Já e da Expedição Rio Doce Vivo. De lá pra cá, dia a dia, visita a visita, muita coisa mudou. Como facilitadora e interlocutora com a comunidade, Bia conquistou a confiança dos moradores e o carinho das crianças o que tornou o trabalho compensador. “Trabalhar com os Martins foi muito especial, relata Guilherme, foi bem diferente por ser uma comunidade muito pequena onde praticamente todos tem uma relação familiar. Mesmo assim, eles foram extremamente receptivos em todos os sentidos. O nosso papel foi de facilitadores, nós apresentamos as tecnologias possíveis de serem implantadas com as suas variantes, tanto no sistema construtivo, como no de disponibilidade de recursos e até mesmo de manutenção. Apresentamos vários modelos e a comunidade escolheu o que achou melhor pra eles e nós ficamos muito satisfeitos com a escolha”.
Capacitação, propagação e geração de renda
Para instalar todo o sistema foram convidados o Chico e André, moradores que já tinham experiência em construção civil e que foram capacitados e supervisionados por Guilherme Castagna, fato que gerou novas oportunidades de renda e trabalho. Hoje, os dois estão contratados para executar e implantar o sistema em uma residência rural que não é atendida pela SABESP e o conhecimento está sendo replicado.
A cartilha
O Protegendo as Águas lança no mês de março uma cartilha ilustrada que servirá como instrumento social e educativo. A cartilha foi idealizada para registrar o trabalho feito em São Francisco Xavier, com uma linguagem simples, e direta. Com ilustrações do desenhista João Vaz, ela traz um novo olhar sobre a água, com o propósito de despertar uma relação diferente da sociedade com a água no seu dia a dia. Dificilmente para-se para perceber o que acontece com a água depois que vai para o ralo.
“Quem tá na cidade não vive essa realidade do esgoto. Quem tá no campo tem que lidar com a fossa negra, tá bebendo água da nascente, tá bebendo água do poço, tudo que acontece ao redor, impacta na qualidade da água, se é da nascente, se choveu, se correu terra, folha, dentro do tubo… isso faz parte da vivencia diária de quem mora no campo, então é uma oportunidade de levar esse olhar mais sensível pra quem ainda não enxerga essa realidade”, diz Guilherme Castagna.
Futuro
O Protegendo as Águas tem o objetivo de tornar evidente a interdependência da vida urbana e rural através das águas, garantindo qualidade de vida e preservação aos recursos hídricos. Bia Pureza conta que é difícil expressar em palavras a alegria e a gratidão de todos os moradores. Para a equipe do projeto fica a expectativa de que iniciativas como essas possam ser replicadas em diversos lugares onde a população não conta com planos e programas de saneamento básico.
A comunidade dos Martins passa a ser o primeiro bairro de São Francisco Xavier a cuidar de seus resíduos líquidos de maneira ambientalmente correta e responsável.
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