Sá-Carneiro: “Eu não sou eu nem sou o outro. Sou qualquer coisa de intermédio”

 

Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19/05/1890 – Paris, 26/04/1916)  foi um poeta de primeira linha, contista e ficcionista português,  um dos grandes expoentes do modernismo português e um dos membros de maior prestígio da Geração d’Orpheu, grupo de poetas que se reuniu em torno à Revista Orpheu, como Fernando Pessoa e Almada Negreiros, e lançou o modernismo em Portugal.

Filho único de um engenheiro, de família abastada, perdeu a mãe aos dois anos de idade. Teve infância e adolescência marcadas por solidão e sofrimentos, em 1912 partiu para Paris para estudar Direito na Sorbonne, que jamais terminou. Logo deixou de frequentar as aulas, desentendendo-se com o pai e dedicando-se a uma vida boêmia, perambulando pelos cafés e salas de espetáculo, chegando a passar fome e debatendo-se com os seus desesperos, situação que culminou na ligação emocional a uma prostituta, a fim de combater as suas frustrações e angústias. Fernando Pessoa foi seu amigo e o único a ajudá-lo, havendo farta correspondência deste período entre ambos. 

Sá-Carneiro é considerado um dos mais originais e complicados autores do modernismo português, um poeta que encarna as frustrações e os pesadelos de sua terra no início dio século XX, um país dividido entre a glória passada e a atração pela modernidade e pelas luzes da renovação europeia. Isso é traduzido em sua obra por meio de uma linguagem de extrema violência verbal.

 

Bárbaro

Mário de Sá-Carneiro

 

Enroscam-se-lhe ao trono as serpentes doiradas
Que, César, mandei vir dos meus viveiros de África.
Mima a luxúria a nua — Salomé asiática…
Em volta, carne a arder — virgens supliciadas…

Mitrado de oiro e lua, em meu trono de esfinges —
Dentes rangendo, olhos de insónia e maldição —
Os teus coleios vis, nas infâmias que finges,
Alastram-se-me em febre e em garras de leão.

Sibilam os répteis… Rojas-te de joelhos…
Sangue e escorre já da boca profanada…
Como bailas o vício, ó torpe, ó debochada —
Densos sabbats de cio teus frenesis vermelhos…

Mas ergues-te num espasmo — e às serpentes domas
Dando-lhes a trincar teu sexo nu, aberto…
As tranças desprendeste… O teu cabelo, incerto,
Inflama agora um halo a crispações e aromas…

Embalde mando arder as mirras consagradas:
O ar apodreceu da tua perversão…
Tenho medo de ti num calafrio de espadas —
A minha carne soa a bronzes de prisão…

Arqueia-me o delírio — e sufoco, esbracejo…
A luz enrijeceu zebrada em planos de aço…
A sangue se virgula e se desdobra o espaço…
Tudo é loucura já quanto em redor alvejo!…

Traço o manto e, num salto, entre uma luz que corta,
Caio sobre a maldita… Apunhalo-a em estertor..

………………………………………….

— Não sei quem tenho aos pés: se a dançarina morta,
Ou a minha Alma só que me explodiu de cor…

 

A professora e acadêmica Cleonice Berardinelli diz que “Mário de Sá-Carneiro tem um conflito íntimo entre ele e ele: “Eu não sou eu nem sou o outro. Sou qualquer coisa de intermédio, pilar da ponte de tédio que vai de mim para o Outro”. Com um grande O.”  Depois no fim, mais adiante ele vai dizer: “Vêm-me saudades de ter sido deus.” O primeiro poema dele chama-se “Partida”, é um título perfeito e o último chama-se “Fim” e é assim:

 

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

 

E continua Berardinelli: “O Sá-Carneiro é muito mais agudo. A impressão que a gente tem, pelo menos que eu tenho, é que o Sá-Carneiro lembra uma lixa áspera que se passa numa pedra, uma coisa absolutamente dolorosa, irritante.”

 

Queda

Mário de Sá-Carneiro

.

E
eu que sou o rei de toda esta incoerência,
Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la
E giro até partir … mas tudo me resvala
Em bruma e sonolência.
Se acaso em minhas mãos fica um pedaço de oiro,
Volve-se logo falso … ao longe o arremesso…
Eu morro de desdém em frente dum tesoiro,
Morro á mingua, de excesso.

Alteio-me na cor à força de quebranto,
Estendo os braços de alma – e nem um espasmo venço!…

Peneiro-me na sombra – em nada me condenso…
Agonias de luz eu viro ainda entanto.

Não me pude vencer, mas posso-me esmagar,
vencer às vezes é o mesmo que tombar –
e como inda sou luz, num grande retrocesso,
em raivas ideais ascendo até ao fim:
olho do alto o gelo, ao gelo me arremesso …

Tombei ….

E fico só esmagado sobre mim !…

.

Uma vez que a vida que trazia não lhe agradava e aquela que idealizava tardava em se concretizar, Sá-Carneiro entrou numa cada vez maior angústia, que viria a conduzi-lo ao suicídio, ocorrido no Hôtel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris, ingerindo cinco frascos de  arseniato de estricnina.

Em homenagem ao melhor amigo, Fernando Pessoa escreverá, após a morte de Sá-Carneiro, um dos mais belos poemas sobre o (a falta de) significado da vida e da morte.

 

SÁ CARNEIRO

Fernando Pessoa

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                Nesse número do Orpheu que há-de ser feito

                Com rosas e estrelas em um mundo novo.

.

Nunca supus que isto que chamam morte

Tivesse qualquer espécie de sentido…

Cada um de nós, aqui aparecido,

Onde manda a lei e a falsa sorte,

.

Tem só uma demora de passagem

Entre um comboio e outro, entroncamento

Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;

Mas, seja como for, segue a viagem.

.

Passei, embora num comboio expresso

Seguisses, e adiante do em que vou;

No términus de tudo, ao fim lá estou

Nessa ida que afinal é um regresso.

.

Porque na enorme gare onde Deus manda

Grandes acolhimentos se darão

Para cada prolixo coração

Que com seu próprio ser vive em demanda.

.

Hoje, falho de ti, sou dois a sós.

Há almas pares, as que conheceram

Onde os seres são almas.

.

Como éramos só um, falando! Nós

Éramos como um diálogo numa alma.

Não sei se dormes […] calma,

Sei que, falho de ti, estou um a sós.

.

É como se esperasse eternamente

A tua vida certa e conhecida

Aí em baixo, no café Arcada —

Quase no extremo deste […]

.

Aí onde escreveste aqueles versos

Do trapézio, doriu-nos […]

Aquilo tudo que dizes no «Orpheu».

.

Ah, meu maior amigo, nunca mais

Na paisagem sepulta desta vida

Encontrarei uma alma tão querida

Às coisas que em meu ser são as reais.

[…]

Não mais, não mais, e desde que saíste

Desta prisão fechada que é o mundo,

Meu coração é inerte e infecundo

E o que sou é um sonho que está triste.

.

Porque há em nós, por mais que consigamos

Ser nós mesmos a sós sem nostalgia,

Um desejo de termos companhia —

O amigo como esse que a falar amamos.

.

1934

.

Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).  – 184.

 

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