Por Carla Castanho e Pedro Hugo Nogueira
O secretário de Saúde de São Bernardo do Campo, Geraldo Reple Sobrinho, prestou esclarecimentos na Câmara dos Vereadores nesta quinta (14) sobre os casos de negligência contra gestantes no Hospital da Mulher do município, que vieram a público após o primeiro relato da vítima Raissa Falosi, que teve uma compressa esquecida no corpo por 19 dias.
Um dos questionamentos respondidos pelo secretário abarcou o serviço de terceirização realizado pela Fundação ABC, que hoje unificou a gestão de hospitais do município no Complexo de Saúde de São Bernardo do Campo.
“Há algum tempo atrás nós não conseguíamos contratar profissionais. Tivemos uma dificuldade por escassez de médicos. Na época, nós contratamos empresas que poderiam nos fornecer médicos para que não deixássemos a nossa população desassistida”, afirmou Geraldo Reple.
O GGN apurou o contrato de prestação de serviço de uma das terceirizadas, a empresa Sigma, responsável pelos serviços de exames de ultrassonografia e emissão de laudos de mamografia e radiologia por telerradiologia, com fornecimento de insumos para as unidades que fazem parte do Complexo.
A Sigma já havia entrado no radar das denúncias em março deste ano. O UOL publicou uma matéria sobre uma vítima, funcionária da Policlínica Alvarenga, em São Bernardo, que denunciou um médico por importunação sexual.
O médico fazia parte do quadro dos terceirizados da empresa Sigma, e o suposto assédio aconteceu na sala de ultrassom onde a vítima trabalhava. Após as denúncias, a empresa demitiu o médico, e a vítima também foi desligada da Policlínica.
O GGN esteve no local para entender o posicionamento do secretário e conversar com as vítimas e atuantes combativos do cenário de violência obstétrica em SBC.
“O médico trabalhava na clínica do Alvarenga e tinha um histórico de denúncias sexuais. A auxiliar que denunciou ainda foi demitida. Então, nós temos que cobrar resposta em relação a isso para o governo da nossa cidade”, disse a vereadora Ana Nice, que também enfatizou a quarteirização de alguns serviços prestados no Hospital da Mulher.
“A Fundação do ABC já é terceirizada e contratou uma outra empresa para poder fazer o atendimento da saúde aqui no nosso município”, declarou a vereadora.
O Hospital da Mulher, centro das denúncias, faz parte do Complexo de Saúde do município, composto pelo Hospital de Clínicas Municipal José Alencar, Hospital de Urgência Maurício Soares de Almeida e Hospital Anchieta. O complexo, de acordo com o Paço, é administrado pela Organização Social Fundação ABC, em conjunto com a Prefeitura de São Bernardo.
A Fundação do ABC é uma organização privada que atua na gestão de outros complexos de saúde da região, como na cidade de Santo André e Mauá, e administra também unidades em cidades do interior do estado, como Mogi das Cruzes e Sorocaba.
Hospital liga para vítima durante oitiva
Entre os casos de possível erro médico e violência obstétrica envolvendo o Hospital da Mulher – que concentra o atendimento público às gestantes de São Bernardo – está o de uma paciente que foi deixada com uma compressa dentro do corpo. Raissa Falosi afirmou que recebeu uma ligação do Hospital da Mulher durante a oitiva hoje na Câmara, na qual uma funcionária ofereceu apoio psicológico.
“Eu pedi ajuda psicológica já tem um mês. Ainda falei que não gostaria que fosse no Hospital da Mulher. Eles me ligaram e disseram que, se eu quiser psicólogo, só será no Hospital da Mulher, mas eu não quero passar lá”, afirmou Raissa Falosi.
Outro caso alarmante citado na oitiva é o da paciente Deisy Coimbra, que morreu após receber duas doses de anestesia durante o parto. Também esteve presente no local Marília Beatriz Alves, mãe de uma paciente que alega ter perdido o bebê após receber indevidamente doses de insulina por engano (ela não é diabética, mas foi tratada como tal por causa de uma suposta troca de prontuário). O clima entre as vítimas e familiares era de revolta e busca por respostas.
Dúvidas persistem em nova violação das vítimas
A doula e estudante de Obstetrícia na USP, Laila Mariana, que acompanhou o discurso do secretário, disse que o intuito da oitiva não foi cumprido, e que, em linhas gerais, as dúvidas foram ignoradas, como mais uma forma de violentar e diminuir a dor das vítimas.
“Ele falou na plenária que no parto normal precisa e é necessário fazer o corte na vagina (episiotomia) na pessoa que está parindo. Isso é violência obstétrica”, disse em alusão a um dos casos elencados de negligência.
A oitiva encerrou após mais de duas horas, e o secretário de saúde afirmou aguardar o laudo do Comitê Técnico do Hospital da Mulher para tomar mais direcionamentos. Segundo Reple, o relatório final pode sair nesta sexta-feira (17).
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