Sete perguntas para Silzi Mossato

Silzi Mossato é escritora, ceramista, produtora cultural e autora teatral, formada em psicologia, profissão que exerceu por vários anos como terapeuta familiar ou trabalhando em escolas e com educação especial. Está lançando um breve romance infanto juvenil pelo Clube de Autores, “Alem das Montanhas Coloridas”, uma fábula sobre alteridade, ruptura, transposição dos limites impostos pelos sistemas sociais, desenvolvimento humano, sonhos, a pureza do amor livre da condicionante materialista que determina os valores sociais no nosso moderno mundo real. Para ela, o termo travessia talvez defina o livro, “que narra uma jornada, um ciclo, que pode ser concebido como uma vida ou um período de transição, com rupturas, resgates, ressignificações desvelados por imagens e simbolos.  

A entrevista a seguir, foi feita pela pela internet.

 

A escritora Silzi Mossato, autora do romance infanto juvenil "Além das Montanhas Coloridas"

1 – Além das Montanhas Coloridas é um livro muito bonito que fala do desenvolvimento, da alteridade, de transpor os limites com uma carga poética muito grande. Diferente de tudo o que você escreveu até agora, porque tem uma característica de fábula. Como nasceu a idéia do romance e como ele foi sendo desenvolvido?

Contos, romances e até mesmo as peças de teatro geralmente chegam inteiros. Surgem como um todo, como se estivessem por aí, no ar, e que o intuitivo capta.  Parece que ficam vivendo em mim até que o intelecto se apropria, destrincha e recompõe. Fatos, pessoas, vivências desencadeiam o processo. No caso do Além das Montanhas  Coloridas, a morte prematura de um rapaz com alma de anjo levou à primeira escrita. Dois anos depois um “anjo torto”, passou pela minha vida. Um artista nato que mesmo sem conhecer as técnicas esculpia e modelava com traços de Rodin e que provocou a reescrita e a alteração do final. Yan é uma síntese do que capturei dos dois.

2 – Defina Além das Montanhas Coloridas.

Dificil definir. Talvez o termo travessia seja o mais representativo. O livro narra uma jornada, um ciclo, que pode ser concebido como uma vida ou um período de transição, com rupturas, resgates, ressignificações revelados por  imagens e simbolos.

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3 – Além de escritora, você também atua em outras artes, como cerâmica, artes plástica, dramaturgia. Como você concilia seu tempo entre tantas atividades?

Não concilio. Às vezes pareço equilibrista de pratos. Em determinados períodos priorizo uma faceta e as demais ficam em modo de espera. Hoje a literatura ganha o primeiro plano. São mais quatro romances na fila da publicação, uma peça de teatro que estréia em fevereiro de 2014, uma em fase de captação, além de outras duas a espera de projeto. A Cerâmica ficou de lado. Pretendo retomar apenas para deleite ou para ensinar.

4 – Quais são as suas principais influências na literatura, no teatro e nas artes em geral?

Beirando os 57 anos, para quem começou com Mil e Uma Noites e Monteiro Lobato aos sete, as influências viraram salada de fruta ou quem sabe, produto de reação química. O que faz com que devore um romance é o “jogo literário”, a precisão com que os autores provocam a interação da linguagem com as características dos personagens, das histórias e seus contextos. Esse é o meu exercício de cada dia e é também o que mais observo nos autores que leio. Aos 13 anos elegi “Noite”, de Érico Veríssimo, como predileto. Ainda tenho um exemplar todo desmantelado e continuo apaixonada pela narrativa. Na década de 80 descobri Katherine Anne Porter e li tudo o que achei dela nas bibliotecas.Talvez seja a autora que deixou um marca mais acentuada, mas gosto de muitos brasileiros. A lista é imensa: Guimarães Rosa, Zélia Gattai, Lygia Fagundes Telles, Chico Buarque, que costuma revelar contextos históricos através da vida de um único personagem.

A dramaturgia surgiu do acaso. Minha paixão pelo teatro eclodiu com Dois Perdidos Numa Noite Suja, do Plinio Marcos. Isso foi em 1976. Mas a paixão não envolvia a pretensão de escrever. Em 2008 comecei um curso por impulso e descobri que gosto de compor um jogo cênico. Mas não tenho uma produção frenética. É necessário que uma ideia ou um tema ganhe relevância para que comece a escrever uma peça. Às vezes demora para que fique pronta, para que os detalhes encaixem, que tenha fluidez.

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Dois Perdidos Numa Noite Suja foi uma espécie de choque de realidade. Numa noite, em 1976, vi a peça, ouvi Plinio Marcos e no dia seguinte ouvi D. Evaristo Arns. Dom Evaristo falava de direitos humanos e declarava oposição à ditadura militar enquanto Plinio delatava outras ditaduras. Acredito que esse choque deu vazão àpaixão pelo teatro, reforçada pela Ópera do Malandro, É (do Millor), Arena conta Zumbi (encenado com nome similar por um grupo de Florianópolis), Escuta Zé Ninguém, espetáculo de dança da Marilena Ansaldi, Ensina-me a Viver…

5 – Descreva sua trajetória, o que te encantou durante a sua vida, as coisas que mais te marcaram na arte em geral e principalmente na literatura?

Neste final de ano estive na cidade onde nasci. O asfalto cobre as ruas de barro vermelho e grudento da minha infância, a alvenaria substituiu a madeira das antigas casas, mas ainda é a mesma cidade, que vive da agricultura. Isso me encanta. A vida nas suas diferentes concepções, com os diferentes ritmos. Por isso viajar é alimento para a alma.

O que há de mais constante em minha trajetória é a ruptura. Desde que saí da cidade natal, aos 12 anos, vivi no Mato Grosso do Sul, em Santa Catarina, Ceará, Rio Grande do Norte e de novo, Paraná. Até na hora de escolher filmes, prefiro de culturas que não conheço. Mas acredito que o choque de realidade do primeiro ano do curso de psicologia determinou muita coisa. Uma semana depois das palestras com Plinio Marcos e Dom Evaristo Arns, numa viagem a Brasília, conheci  um estudante de jornalismo que completou minha iniciação política. Entre outras coisas, ele afirmava que Juscelino, Jango e Lacerda teriam sido assassinados quando tentavam articular uma terceira corrente política. Em 15 dias os óculos cor de rosa viraram óculos de grau. No ano seguinte, teses que estudei na cadeira de sociologia, tratando da marginalidade social e da situação dos bóias frias, do crescente número de adolescentes abandonados e cooptados pelas organizações criminosas, foram misturadas ao Pasquim, às pessoas anteriormente presas e torturadas.Enfim,  os primeiros anos de faculdade e o teatro me tiraram das nuvens .Mas a psicologia, a terapia de família em particular, exerce influencia na escrita dos livros e das peças.

6 – O que fez você ser uma escritora? Em qual momento da sua vida você decidiu que queria escrever?

Depois de quatro viagens aos Andes, comecei a escrever. Não sei se pensava em editar. Escrevia por necessidade. Mais tarde, quando vivia em Natal, desenvolvi uma espécie de rito. Deitava na rede com os dois filhos pequenos, cantarolava até que adormecessem e depois disso os textos apareciam. Primeiro, inteiros, quase como imagens. Depois, ganhavam forma, sequência, linguagem própria. Passei a escrever, reescrever, re-reescrever.  Decidi que seriam publicados por influência do “anjo torto” a quem fiz referencia, mas só agora posso realizar essa façanha.

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7 – Qual a sua formação?

Psicologia, direcionada ao social, incluindo comunicação. Iniciei Artes Plásticas, mas não conclui e passei aos cursos de cerâmica e agora estudo Florais de Bach.

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