4 de junho de 2026

Sobre regras, informações estranhas e armadilhas.

O texto de Renato Andrade, hoje, 26.12.13, na Folha continua pela senda de que tudo que o governo fez na última década está errado. No caso, seria mais exato, tudo que o governo fez a partir da crise da economia mundial de 2008 está errado. Até ai, segue as “regras”, ainda que os fatos não ajudem os argumentos apresentados.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/145304-armadilhas.shtml

O título é sugestivo, “Armadilhas”.

 Vejamos onde elas estão armadas.

“BRASÍLIA – As medidas adotadas nos últimos anos para animar a economia brasileira se converteram num emaranhado de armadilhas. O desmonte é complicado e embute efeitos colaterais indesejados.”

Regra básica da redação jornalística, o primeiro parágrafo deve resumir o artigo e capturar a atenção do leitor.  Mas, se você acreditar nele caiu na primeira armadilha.

“O corte de impostos para alguns produtos é um bom exemplo disso. Diante da desaceleração global, o governo resolveu dar uma mãozinha para a indústria local: reduziu tributos e deixou o consumo fazer o resto.”

Diante do abalo na economia mundial o governo tomou medidas que se mostraram acertadas. O país não entrou em crise. Ora, é isso que se espera de um governo. Nos EEUU e na Europa, bilhões foram injetados na economia, nem por isso tiveram o mesmo sucesso. O Brasil virou “case” internacional.  Ou seja, você deve acreditar que o que dá certo está errado. Aí, você caiu na armadilha e pode continuar a ler o artigo.

Segunda armadilha.

Foi o corte dos impostos, o IPI para carros e móveis e, anteriormente, para eletrodomésticos, que alavancou a economia, via aumento do consumo.  Sei.

Claro, o resgate de milhões de pessoas que antes estavam fora do consumo através de programas como o “Bolsa Família”, a correção do salário mínimo e linhas de crédito para a baixa renda nada tiveram a ver com isso. A prova cabal de que um país mais justo produz uma economia mais forte não se ajusta as pretensões de Renato. Esqueçamo-nas.

Esqueçamos também alguns detalhes inconvenientes, tais como, o Brasil voltando a investir com o PAC, o “Minha Casa, Minha Vida”, as grandes obras hidroelétricas e retomada da indústria naval dentro dos esforços para capacitar a exploração do pré-sal.

Não, foram os cortes dos impostos, estúpido.

A medida, de início, teve o efeito desejado. Empregado e com mais dinheiro no bolso, o brasileiro foi às compras. Mas consumo tem limite.

Terceira armadilha, aqui uma armadilha semântica.

Reparem no uso da conjunção adversativa “mas” e na condicionante “de início” tão presentes nos textos da Folha, neste ano. Retire-as e o texto fica:

A medida teve o efeito desejado. Empregado e com mais dinheiro no bolso, o brasileiro foi às compras.”.

Ah! O jornalismo de obras prontas. Se o governo nada tivesse feito seria relapso. Como fez é errado. E o sucesso? Mas, o sucesso é momentâneo.  E o que não o é, na economia e na vida? As situações são mutáveis.

“Endividadas, as famílias pisaram no freio”.

Esta é uma boa notícia, travestida de má. O aumento do crédito ao consumo poderia provocar uma bolha e a inadimplência consequente. Foi assim o início da crise nos EEUU. Não ocorreu no Brasil. As famílias e os mecanismos de crédito se mostraram responsáveis.

Quarta armadilha:

Sem perspectiva clara sobre o apetite para novas compras, as indústrias travaram os investimentos.”

Então, o país está parado?

Uma paradeira interessante, pois que, com o menor nível de desemprego da história recente do país. Como um país em pleno emprego está parado?

Como um país que efetua leilões internacionais na área do petróleo e de concessões de aeroportos e rodovias está parado?

“A economia, com isso, cresceu menos que o esperado.”

Quinta armadilha.

 A economia cresceu. Mas Reanato quer que acreditemos que cresceu pouco.

 Ocorre que pouco ou muito são medidas relativas. Pouco ou muito em relação a quê?

As previsões para o crescimento do Brasil, em 2013, são de algo em torno de 2,5 %. 

Cresceremos menos que o Sudão do Sul (24,7%) e Serra Leoa (13,3%). Cresceremos mais que o Japão (2,0 %), os Estados Unidos (1,6%), a Rússia (1,5%), o Reino Unido (1,4%), e a Alemanha (0,5%).

http://exame.abril.com.br/economia/noticias/veja-quanto-a-economia-de-cada-pais-vai-crescer-em-2013?page=4

Se o país anda devagar, a arrecadação de impostos míngua também. Com menos dinheiro no caixa, e despesas cada vez maiores, o governo acabou comprometendo sua gestão de gastos.”

Estranho essa informação. O que tenho acompanhado nos jornais é que o país bate recorde de arrecadação de impostos.

“Não há mágica para resolver esse tipo de problema. Se o saldo da conta bancária está no vermelho, é preciso arrumar dinheiro extra ou cortar parte das despesas.”

Cuidado com a armadilha da “lógica da dona de casa”. 

Cortar despesas onde? Na saúde, educação e no salário-mínimo? FHC fez isso. O país era melhor? Quitou as dívidas? Não e não.

Racionalidade administrativa é sempre algo bom. Traçar prioridades, fomentar investimentos privados, cobrar melhor os impostos, ir atrás dos grandes devedores, combater a corrupção pode ter efeitos bem melhores que simplesmente tomar mais dinheiro emprestado ou cortar despesas com programas sociais.

“Reduzir gastos não é uma ação agradável para governos, muito menos às vésperas de uma eleição. Por isso, a equipe econômica resolveu reduzir parte do benefício concedido para ajudar as indústrias, que passam a pagar um pouco mais de imposto a partir da próxima semana”.

Estranho esta informação também. Que eu saiba, o corte do IPI já estava anunciado desde, pelo menos, o início do ano. Era uma medida com data para terminar. Como assim “a equipe econômica resolveu reduzir parte do benefício concedido”?

A medida vai garantir R$ 1 bilhão a mais para os cofres públicos. Aqui começam os problemas. Esse dinheiro é insuficiente para melhorar, de forma efetiva, a relação entre receitas e despesas federais”.

Renato teria razão se essa fosse a única medida adotada pelo governo para gerenciar suas despesas em relação à sua arrecadação. Mas é ridículo julgar que assim seja.

Um assunto no qual Renato não toca é a taxa de juros. Estava em 7,25% em janeiro e fechará o ano em 10%. Eu começaria por aí.

‘Imposto mais alto significa produto mais caro. E isso gera consequências: o consumo perde o resto de fôlego que tem –o que pesa sobre as perspectivas de retomada do crescimento– e a inflação, que já não está baixa, ganha impulso adicional”.

Outra regra básica de redação jornalística. O último parágrafo concorda com o primeiro e faz novamente um resumo do texto, conquistando o consenso do leitor.

Neste, mais do que isso, Renato deixa-nos uma armadilha final multifacetada.

Imposto mais alto significa produto mais caro”.  Não, impostos mais altos significam lucro menor. Mas pelo que conhecemos dos preços praticados pelas montadoras de automóveis no Brasil, há muita gordura para acomodar o aumento do IPI, caso o consumo realmente caia.

“E isso gera consequências: o consumo perde o resto de fôlego…”.

Aprendi na pele, o que faz o consumo perder fôlego é o desemprego e o achatamento de salários. Mas os anos FHC, felizmente, já se foram.

“… e a inflação, que já não está baixa, ganha impulso adicional”.

Outra informação estranha.

A meta de inflação para o ano é de 4,5 % com um teto de 6,5%. A inflação deve fechar o ano em 5,8%, dentro da faixa da meta, portanto, e com um viés de queda para o ano de 2014.

http://g1.globo.com/economia/noticia/2013/12/bc-ve-reduz-estimativa-de-inflacao-para-2014-que-segue-proxima-de-6.html

Para a questão de baixa ou alta, voltemos às considerações sobre o baixo crescimento tratadas acima.

“A vida na Esplanada dos Ministérios em 2014 não será nada fácil”.

Regra de ouro de qualquer redação, uma frase de efeito para fechar o texto.

Porém, acho que a vida não estará fácil é para a oposição, em 2014.

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