Terra de luz, por Marcus Vinícius Beck

Programa ‘Almanaque do Vinil’, exibido no canal do GGN pelo Youtube, passeia pela história da música popular brasileira ao relembrar discos clássicos. Neste sábado, convidado será cantor Ednardo

do Diário da Manhã

Terra de luz

por Marcus Vinícius Beck

Marquinho Carvalho não tem certeza do momento em que nasceu a ideia do programa “Almanaque do Vinil”, mas o embrião pode ter sido gestado quando escrevia artigos para o portal GGN, comandado pelo jornalista Luis Nassif. Certa vez, numa live com assinantes do canal pelo Youtube do webjornal, Marquinho conheceu um carioca chamado Eduardo Jones e pediu o contato dele. “É um cara do chorinho, músico, sujeito muito bacana”, afirma o ex-secretário de cultura de Jataí, em entrevista ao Diário da Manhã, por videoconferência. Foi aí que a coisa começou a tomar forma. 

Eduardo telefonou para Marquinho no dia seguinte e lhe perguntou por que não fazia algo com vinis, já que exibe uma coleção que conta com aproximadamente 6 mil discos. Na ocasião, quase chegou a trabalhar na TV UEG, apresentando para o público LP ‘s clássicos e que marcaram época. Era como se fosse uma discoteca básica, direcionada a quem gosta de ouvir e, sobretudo, falar sobre música. E assim, sempre tendo a força da canção presente em sua vida, encontrou no “Almanaque do Vinil” a oportunidade para compartilhar com o público seu vasto acervo discográfico. 

“O “Almanaque” tem como intuito compartilhar essas coisas que eu tenho em vinil. A ideia é discutir música brasileira, trazer nomes que ficaram perdidos, que a grande mídia esqueceu”, observa Marquinho. Hoje, ele prossegue, isso se tornou moda: “tem muita gente nos instagrans da vida falando sobre discos e desenterrando coisas, eu os chamo de arqueólogos da música. E surge gente que ninguém nunca tinha ouvido falar. A música brasileira é um labirinto que não tem fim.”

No primeiro programa, o comunicador conversou com Nassif, figura famosa pelo conhecimento enciclopédico sobre MPB. Foram produzidos, até o momento, 19 episódios, com duração entre uma hora ou uma hora e meia. O próximo, exibido neste sábado (11), às 15h, será um bate-papo com o cantor cearense Ednardo, artista que no início deste mês anunciou interesse em gravar músicas pouco conhecidas de Belchior, de quem fora amigo. Entre elas, uma que nunca ganhou registro em disco e cuja letra foi encontrada pelo jornalista e pesquisador Renato Vieira num arquivo da ditadura.

“Comecei a pensar em gravar um disco de músicas inéditas, com solos e parcerias que fiz há bastante tempo, inclusive no início da carreira”, afirmou Ednardo ao jornal Folha de S. Paulo, numa reportagem publicada no último dia 2. O músico deve lançar em novembro um álbum, em vinil e mídias digitais, onde vai gravar a faixa “Bip-Bip”, com a qual participara do sétimo festival da canção. A ideia do disco surgiu em 2016, um ano antes da morte de Belchior. A partir de então, ele está focado no projeto, junto com o filho e produtor musical Daniel Limaverde. 

Para o programa deste sábado, Marquinho sorteará o disco “Terra da Luz” (1982), de Ednardo. Do começo ao fim, o LP é um petardo de preciosidades da música brasileira, como “Corações e Mentes” e seu violão dedilhado com a delicadeza do beijo cravado na boca que floriu. A capa, clicada pelo fotógrafo Mario Luiz Thompson, morto em agosto último e dono de um dos maiores acervos fotográficos da MPB, também é uma beleza à parte: é dele, por exemplo, a flagrante caminhada noturna de Walter Franco em “Revolver” (1975), além da foto de “Refavela” (1977), disco de Gilberto Gil.

Gil, inclusive, dizia que Luiz Thompson foi o jornalista que fez da fotografia de artistas uma paixão na qual depositou sensibilidade desde a segunda metade dos anos 1960 e que viria a se tornar uma profissão apenas em 1973. “Ele tem o maior acervo de vídeos em super 8 e fotografias da MPB. Era muito amigo de Ednardo”, revela Marquinho. Uma pequena mostra das milhares de fotos de shows foi reunida pelo próprio fotógrafo em “Bem Te Vi – Música Popular Brasileira” (2001), obra dividida em dois volumes que registram 1.462 cliques de estrelas da MPB, a maioria sob as luzes do palco.

Representatividade

Sobre Ednardo, não há o que falar que já não tenha sido falado: caracterizou-se por imprimir à sua arte uma busca pela representatividade da linguagem e dos elementos de expressão da sua cultura. Suas canções, conduzidas por um estilo de canto único, com um romantismo encarnado como um cravo na pele, dão à sua música uma aspecto original, próprio dos artistas mais criativos. Contemporâneo de Belchior e Raimundo Fagner, foi quem deu início a turma que ficara conhecida como Pessoal do Ceará, ao trazer outro sotaque, outras cores e outras expressões à MPB. 

“Minha história com Ednardo é maravilhosa”, lembra Marquinho Carvalho. “Tinha dez anos quando “Pavão Misterioso foi tema de abertura da novela “Saramandaia”. Tinha cenas picantes. Mas eu normalmente não conseguia ficar acordado, acordava muito cedo e, naquela época, às dez da noite, a criança já estava dormindo. O impacto da música foi absurdo e revolucionário. Meu primeiro contato com Ednardo foi muito curioso. Fui secretário de cultura por dois mandatos. E no primeiro tentei fazer um festival em que eu queria reunir a linguagem da música do Brasil inteiro: era meio ousado.”

Ednardo, lamentavelmente, é conhecido como o autor de “Pavão Misterioso” e “Artigo 26”. Ferrenho defensor da democracia, jamais se esquivou de criticar – ainda que de maneira cifrada – a ditadura. “Ele contou coisas incríveis para mim. “Pavão Misterioso”, por exemplo, é uma referência à ditadura. O romance é um cordel, muito tradicional no nordeste, e fez uma releitura e uma referência aos anos de chumbo”, explica Marquinho, que é também professor de História. 

Detalhe: em “Terra da Luz”, a música título do disco e um poema que vem na contracapa foram censurados. Sim, Ednardo é um artista transgressor. E agora há chance de vê-lo contar essas histórias e outras mais na live exibida no canal do GGN pelo Youtube. É uma boa pedida para sábado. 

* Reportagem publicada originalmente no jornal Diário da Manhã, de Goiânia, em 11 de setembro de 2021

‘Almanaque do Vinil’

Quando: Sábado

Horário: às 15h

Onde: Youtube do GGN

Gratuito

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