O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a integrar a lista de predadores da liberdade de imprensa elaborada pela organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Divulgada nesta segunda-feira (2), Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas, a edição de 2026 reúne 33 pessoas, empresas, instituições e organizações apontadas como responsáveis por ataques à imprensa e restrições ao direito à informação em diferentes países.
Além de Trump, a relação inclui o presidente da Rússia, Vladimir Putin, o presidente da Argentina, Javier Milei, o empresário Elon Musk, as Forças Armadas de Israel, o Partido Comunista Chinês e grandes empresas de tecnologia, como Alphabet, controladora do Google, e Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp.
A organização identifica diferentes mecanismos utilizados para enfraquecer o jornalismo independente, incluindo assassinatos, prisões arbitrárias, censura, processos judiciais abusivos, campanhas de desinformação, ataques digitais e pressões econômicas.
Trump entra pela primeira vez na lista
A inclusão de Donald Trump é um dos principais destaques da edição de 2026. Segundo a RSF, desde o início de seu segundo mandato, em janeiro de 2025, o presidente norte-americano intensificou as medidas de intimidação contra jornalistas e veículos de comunicação.
A entidade afirma que as ações de Trump ultrapassaram os ataques verbais e passaram a envolver restrições concretas ao exercício da atividade jornalística, incluindo limitações de acesso de profissionais da imprensa a instituições federais.
A RSF também denuncia o uso de instrumentos administrativos, judiciais e financeiros contra organizações jornalísticas consideradas críticas ao governo.
Entre os episódios destacados está a restrição de acesso de jornalistas de veículos como CNN, MS NOW e Politico à Casa Branca, em setembro de 2026, sob acusações de divulgação de notícias falsas.
Outro ponto levantado é a tentativa de enfraquecimento da Agência dos Estados Unidos para Mídia Global, responsável pelo financiamento de serviços internacionais de informação, incluindo a Voice of America.
No Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa de 2026, os Estados Unidos ocupam a 64ª posição entre 180 países e territórios, uma queda de sete colocações em relação ao ano anterior.
Milei e Elon Musk também são apontados pela RSF
Na Argentina, Javier Milei aparece entre os responsáveis por ataques à credibilidade da imprensa e pelo estímulo à hostilidade contra jornalistas.
Uma investigação da RSF identificou mais de 1.600 publicações hostis à imprensa na conta do presidente argentino na rede social X durante apenas 47 dias, entre abril e maio de 2026.
Desde que assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, Milei tem protagonizado confrontos públicos com jornalistas e veículos de comunicação, frequentemente acusando profissionais de divulgar informações falsas ou atuar politicamente contra seu governo.
O empresário Elon Musk, proprietário da plataforma X, também integra a lista na categoria de ataques sociais à imprensa.
Segundo a organização, Musk utiliza sua influência e o alcance de sua rede social para desacreditar veículos jornalísticos, amplificar discursos hostis contra profissionais da informação e contribuir para a circulação de desinformação.
Israel, China e México aparecem entre os responsáveis por ataques à segurança dos jornalistas
A RSF voltou a incluir as Forças Armadas de Israel na categoria dedicada às ameaças à segurança dos profissionais de imprensa.
A entidade denuncia ações militares israelenses contra jornalistas na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no Líbano, apontando a violência contra profissionais da informação como parte de uma situação persistente de restrições à cobertura jornalística.
A China também continua na relação, por meio do Partido Comunista Chinês. Segundo a organização, o país permanece como o maior carcereiro de jornalistas do mundo.
No México, os cartéis do narcotráfico são apontados como responsáveis pela manutenção de um ambiente de violência e intimidação contra a imprensa. A RSF afirma que, desde o início de 2026, o crime organizado matou quase um jornalista por mês no país.
Outro nome incluído é o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi. A organização cita detenções de profissionais ligados ao portal de verificação de informações Matsaddash e o fechamento do veículo independente Mada Masr.
Empresas de tecnologia e pressões econômicas
O relatório também chama atenção para mecanismos econômicos que comprometem a independência dos veículos de comunicação.
Alphabet e Meta aparecem entre os agentes apontados pela RSF como responsáveis por práticas que fragilizam economicamente o jornalismo, em um contexto de crescente dependência dos meios de comunicação em relação às grandes plataformas digitais.
A organização também inclui o empresário francês Vincent Bolloré, que controla importantes veículos de imprensa, e o bilionário georgiano Bidzina Ivanishvili.
Segundo a entidade, a concentração de poder econômico, as pressões sobre o financiamento e a interferência na autonomia editorial constituem ameaças relevantes à pluralidade da informação.
Cinco formas de atacar a liberdade de imprensa
A edição de 2026 organiza os 33 perfis em cinco categorias, de acordo com os mecanismos utilizados para restringir a atuação jornalística:
- Política: dirigentes que utilizam estruturas estatais para controlar informações, censurar veículos e limitar a atuação da imprensa.
- Segurança: governos, forças militares e grupos armados envolvidos em agressões, prisões e assassinatos de jornalistas.
- Jurídica: autoridades e organizações que utilizam processos judiciais e legislações restritivas para intimidar profissionais de comunicação.
- Econômica: empresas, empresários e dirigentes que exercem pressões financeiras sobre veículos independentes.
- Social: pessoas e organizações que promovem campanhas de hostilidade, difamação e descrédito contra jornalistas.
A relação inclui ainda Recep Tayyip Erdoğan, presidente da Turquia; Daniel Ortega e Rosario Murillo, da Nicarágua; Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita; e autoridades e organizações vinculadas à Rússia, à Índia e a outros países.
RSF alerta para a normalização dos ataques à imprensa
Para o diretor-geral da RSF, Thibaut Bruttin, a publicação procura identificar os responsáveis pela deterioração das condições de trabalho dos jornalistas e demonstrar que as restrições à liberdade de informação resultam de decisões e ações concretas.
A entidade ressalta que a lista tem caráter assumidamente irônico e subjetivo, mas é construída a partir de episódios documentados de violência, repressão, censura e intimidação.
A edição de 2026 também registra a saída de nomes que integravam a relação anterior, entre eles Ali Khamenei, do Irã; Nicolás Maduro, da Venezuela; Viktor Orbán, da Hungria; e Aleksandar Vučić, da Sérvia, em razão de mudanças em suas situações políticas.
A RSF afirma que o objetivo da iniciativa é impedir que as ofensivas contra a imprensa sejam tratadas como acontecimentos normais ou inevitáveis.
A divulgação no Dia Internacional pelo Fim da Impunidade dos Crimes contra Jornalistas reforça o alerta da organização sobre a necessidade de responsabilizar os autores de violações e garantir condições para o exercício do jornalismo independente.
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