Peça 1 – Bolsonaro faz a aposta final

Ontem, na frente do Palácio do Planalto, Jair Bolsonaro jogou sua cartada final, com dois movimentos perigosos.

O primeiro, o repto às instituições.  Disse que chegou ao limite, não aceitaria mais interferências de outros poderes no Executivo. Invocou as Forças Armadas, que estariam “ao lado do povo”. E anunciou que não aceitaria mais restrições a seus atos.

O segundo, o comportamento cada vez mais agressivo de seus seguidores, atacando jornalistas, montando manifestações em frente a hospitais, atravancando o tráfego de ambulâncias e espalhando fake news sobra a pandemia.

Tudo isso após ter criticado o Ministro Alexandre de Morais, do STF, e de ter sido alvo de críticas generalizadas por ter prestigiado aglomerações que pediam a volta do AI-5.

A reincidência e o aumento da agressividade não deixam espaço para mediação..

Nos momentos seguintes, vazaram as seguintes informações.

  1. Bolsonaro pretenderia indicar novamente Alexandre Ramagem para diretor-geral da Polícia Federal.
  2. Pretenderia substituir o comandante do Exército brasileiro, general Edson Pujol, legalista, pelo general Luiz Eduardo Ramos, bolsonarista e atual Secretário de governo.

Peça 2 – as cartas na manga de Bolsonaro

Para bancar sua aposta, Bolsonaro escudou-se em uma reunião que manteve no sábado com comandantes das Três Forças, mais o Ministro da Defesa, na qual teria havido concordâncias nas críticas a algumas decisões do STF. Em cima desses sinais, Bolsonaro teria se convencido do apoio das Forças Armadas contra os demais poderes. Com a manifestação em frente o Palácio, exacerbou e contou bravatas.

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De seu lado, o STF demonstrou um alinhamento inédito na condenação tanto das bravatas quanto das agressões verbais de Bolsonaro aos Ministros e das agressões físicas de seus correligionários a jornalistas. Nos últimos dias, o STF barrou uma série de medidas de Bolsonaro, das restrições à Lei dos Dados Abertos à nomeação do delegado geral da PF, da liminar impedindo a expulsão dos diplomatas venezuelanos à competência para determinar saída do isolamento social.

Por trás dessa reação, há o receio de Bolsonaro em relação a dois processos: o dos Fake News e a delação do ex-Ministro Sérgio Moro, em depoimento na Polícia Federal no dia anterior. Some-se as investigações das rachadinhas, que pega Flávio Bolsonaro. E ainda o envolvimento com a morte de Marielle Franco.

Chegou naquele ponto em que o jogador, perdendo no jogo, resolve dobrar a aposta.

Peça 3 – próximos movimentos

Da parte do STF, há uma concatenação entre o decano Celso de Mello e o Ministro Alexandre de Moraes. Celso reduziu de 60 para 5 dias o prazo para Moro ser ouvido – certamente para impedir que a decisão caísse nas mãos de um futuro Ministro a ser indicado por Bolsonaro. Ao mesmo tempo, o próprio STF se organizou para garantir a continuidade das investigações independentes, mesmo após a aposentadoria de Celso de Mello.

Após o depoimento de Sérgio Moro, foi feito um espelhamento de seu celular e, em breve, o relatório da Polícia Federal estará em mãos de Celso de Mello. Mas caberá ao Procurador Geral da República Augusto Aras oferecer ou não a denúncia.

Da parte de Bolsonaro, há bons indícios de que blefou. A possibilidade das Forças Armadas endossarem uma aventura autoritária é perto de zero.

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De um lado, pela falta de endosso internacional. Há muito tempo, os EUA substituíram as parcerias militares por parcerias com Judiciário, conforme apontou pioneiramente Luiz Moniz Bandeira, a grande referência nacional em geopolítica. Nem Donald Trump parece disposto a bancar o brasileiro legal que faz o que ele quer sem pedir nada em troca para seu país.

De outro, pelo próprio fator Bolsonaro. Nem se considere que Bolsonaro, com poderes absolutos seria um risco para a imagem das Forças Armadas. Risco é palavra que implica uma dose de incerteza. Não há nenhuma incerteza de que Bolsonaro seria um desastre – como já é -, com sua postura terraplanista e seus seguidores fanatizados. Seria uma reedição de Rafael Trujillo, o ditador da República Dominicana dos anos 60, inicialmente aliado dos Estados Unidos e, depois, seu maior problema diplomático, com filhos devassos, e com sua própria Marielle Franco.

Em 25 de novembro de 1960, a Polícia Secreta de Trujillo assassinou três irmãs, Minerva, Pátria e Mara Teresa Mirabal, e o motorista Rufino de la Cruz. Conhecidas como “As Mariposas”, as três irmãs tinham histórico de ativismo político. Assim como Marielle, a morte das irmãs tornou-se um escândalo mundial e, internamente, passou o sinal, aos dominicanos, da insegurança geral decorrente da manutenção dos Trujillo no poder.

Em homenagem às irmãs, a ONU decretou 25 de novembro como Dia Internacional da Não-Violência contra Mulher. A ditadura Trujillo durou mais um ano, e confirmou a frase de Minerva Mirabal, quando informada de que Trujillo pretendia assassiná-la:

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– Se me matam, levantarei os braços do túmulo e serei mais forte.

Quase dois anos após seu assassinato, do Cemitério do Caju, é possível que em breve Marielle Franco erga os braços, aponte os dedos para os Bolsonaro e possa, finalmente, descansar em paz.

Nos próximos dias, as milícias bolsonaristas sairão às ruas e não se minimize a possibilidade de ações armadas isoladas. Será um longo trabalho exorcizar o país de seus demônios internos, que vieram à tona no dia em que Supremo Tribunal Federal, imprensa e Congresso esqueceram-se do pacto democrático e resolveram brincar de inocular a opinião pública com o virus do ódio.

 

 

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17 comentários

  1. Os bolsonaros estão desesperados, estão cada vez mais isolados, e já devem estar fazendo as malas para o aeroporto mais próximo.
    A saída dos ministros, as ações do STF e da maior parte da grande mídia, demonstram que o o presidente não tem apoio incondicional das forças armadas, mesmo porque para as forças armadas, restará o Mourão que é tão ou mais extrema direita que os bolsonaros.

    Vamos trocar seis por meia-duzia.

    O que pode mudar é apenas um maior pragmatismo pela pressão da crise sanitária e do setor agropecuário.

    No mais precisaremos continuar lutando para termos eleições livres em 2018.

    A menos que que a crise sanitária seja superada, e poderemos demonstrar nas ruas, a força dos oprimidos.

    • Roberto Paulo/SP-2010 04/05/2020 at 07:40
      “””No mais precisaremos continuar lutando para termos eleições livres em 2018.”””

      Eleições em 2020 ou outras estão sendo ameaçadas…

  2. Tem uma foto aérea de ontem, durante a manifestação golpista em Brasília, postada pelo deputado Henrique Fontana que dá a real dimensão do bolsonarismo.

    Reforço o que venho dito: o bolsonarismo não passa de 10 a 15% da população sendo que a turma que vai pra rua para o tudo ou nada é uma minoria da minoria.

    Basta um pouco de coragem, não precisa muito, pra botar essa ralé pra correr.

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      • A covardia é o alimento do fascismo.

        O lado de cá também tem armas e o apoio da imensa maioria da população, quem você acha que vai vencer no final?

    • Gaúcho: compartilho com você a mesma convicção – o bolsonarismo não passa de 10%. Para fundamentar essa convicção é só observar que foram eleitos 52 deputados bolsonaristas pra Câmara Federal em 2018. Apesar do estrondoso fenômeno eleitoral, ocuparam praticamente apenas 10% das cadeiras. Hoje esse número é ainda menor.
      O fascismo é um câncer social: se não for extirpado no começo, provoca metástase.

  3. Eu nao descarto o fator Olímpio Mourão Filho. Em 64 uma quartelada derrubou um Presidente Constitucional, fazendeiro, a poucos meses de novas eleições a pretexto de “salvar o pais do ‘comunismo'”… Generais que pouco tempo antes declararam não querer saber de golpe, etc, aderiram graciosamente e não largaram mais o osso. Em 2020, a pretexto de “salvar o pais” de um golpe de corruptos, qualquer coisa pode acontecer, a qualquer momento. Eu não espero muita coisa desses generais. Não há evidência alguma de que eles sejam feitos de material diverso do boçalnaro. Este é só mais vibrador, só isso.

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  4. Nassif, é bom deixar + claro que a Marielle dará 1 murro contra o tipo de pessoa que ela brigou a vida inteira (os Bolsonaros).

    Pois, só há provas que a família do Jair participava politicamente e financeiramente das milícias, mas não foram quem mandou mata-la.
    Este é outro murro que vou gostar de ver ela dar.

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  5. Imagino que os seguidores do presidente são alguns fanáticos sem noção, que estão muito mais para anti-petistas do que para bolsonaristas. Fariam a mesma coisa fosse quem fosse o candidato louco que tivesse derrotado o Haddad. Os demais seguidores bolsonaristas não tem fanatismo e são muito mais oportunistas, eles do tipo dos que não querem nada com o trabalho e muito menos com política ou progresso do país. Porém, apesar de respeitarem e temerem os militares (muitos já estiveram lá e alguns ainda estão) se estiverem bem equipados e municiados são audaciosos o suficiente para, se necessário, provocar uma guerra civil para tentar assumirem o poder e implantarem a mais terrível ditadura que o Brasil experimentou. Grande parte da liderança e composição dessas forças paralelas ilegais surge de milicianos, de seguranças de empresas privada, das bandas podres da PM, Polícia Civil e das Forças Armadas, ou seja, são os bandidos chapa Branca. E são para eles que deve estar sendo planejado o destino final de toda política de armamento e munição. Penso que os postos chaves, que facilitarão o acesso em massa das armas e munições, estão quase preenchidos e se não ocorrer uma reação rápida e rígida, aí sim o perigo da guerra civil está muito mais presente e muito mais próximo, do que pensamos.

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  6. Esqueceu de citar que BOZO esta sendo pressionado a apresentar o exame do COVID.

    Sobre suas certeza qto a ética e lisura, no comprometimento do STF e das FFAA pra com as Instituições, JUSTIÇA, leis e Constituição, sinceramente POLIANA, depois do golpe na DEMOCRACIA (ao não saberem montar uma saída pro péssimo governo de DILMA), da tentativa de desconstrução de LULA da SILVA, da sua prisão, eu não boto fé nessa turma não ..não valem o que lhes pagamos, são traíras, como vc mesmo disse noutro xadrez usando de outros exemplos, são ARRIVISTAS em essência.

  7. Bolsonaro jogou sua última carta e já sabe que perdeu. Em breve uma família de ratos deixará o Palácio do Planalto, enxotada.

  8. O Nassif é otimista, mas espero que esteja certo. De minha parte eu tenho enormes dificuldades em confiar num empresariado egoísta e genocida; numa mídia, mentirosa, genocida, vendida, canalha, covarde e tosca; num STF vendido e acovardado; nas FFAA emburrecidas, traidoras, covardes, canalhas e entreguistas; em políticos imbecis e ignorantes e num povo, para dizer o mínimo, corrupto, egoísta e idiotizado.
    Não vamos esquecer que só chegamos a esse ponto porque todos os citados pensaram o tempo todo no seu. Ninguém por um segundo pensou no país.

  9. Wagner Silveira.

    Concordo com quase tudo dito no artigo. Minha divergência está na parte que diz que os EUA provavelmente não apoiaria uma manobra golpista de Bolsonaro, pelo fato de ter substituído as parcerias militares pelas do judiciário. Que houve essa troca de parcerias, é fato. Porém as ações contra a Venezuela deixam claro que há exceções na troca e que os EUA estão dispostos a tudo para retomar a total hegemonia de poder na América Latina. Tendo o Brasil uma grande importância na geopolítica da região, não tenho dúvidas de que Trump apoiaria até um golpe militar no Brasil em defesa dos interesses americanos.
    Minha dúvida é se as forças golpistas dentro das Forças Armadas Brasileiras, são hegemônicas, ou não.
    Por isso, me preocupa a leniência dos demais poderes que não dão uma resposta à altura e definitiva às agressões, quase diárias, que Bolsonaro e seus seguidores fazem às instituições, à constituição e ao Estado Democrático de Direito.

  10. Não sei… No Brasil desde que o PT chegou ao poder com um programa econômico nacionalista e de inclusão social não há nada que está ruim que não possa ficar ainda pior. E todos os safados dos poderes constituídos vão pouco a pouco entrando pelo buraco em que enfiaram Lula, o PT, Dilma, o respeito a Constituição e a Democracia. Se Bolsonaro ganhar essa, os políticos e jornalistas que por ele e sua turba forem perseguidos e mortos não terão nem como fugir do país por causa da pandemia.
    O Nassif alertou várias vezes da ligação do Bolsonaro com o baixo oficialato das Forças Armadas, policias militares dos estados e milicias armadas. Esses generais do exercito de brancaleone brasileiro facilmente se curvarão ao seu layout bolsonaro.
    Isso tudo no dia em que morre Aldir Blanc e sua extraordinária leitura do país e suas mazelas. Das levezas de suas letras que representava tão bem a irreverência, a leveza, a alegria, a afetividade, o sentimentalismo de uma sociedade brasileira que desapareceu e o que sobrou foi somente a dor de “O Bebado e a Equilibrista”. A elegia das manchas torturadas começou lá atrás com a anistia aos torturadores, passou pela perseguição aos governos de centro esquerda com o apoio de “civilizados intelectuais” como FHC e sua troupe de bêbados equilibristas da politica, do judiciário, da imprensa e da plutocracia ávidos de corrupção e ladroagem e ressuscitou em Bolsonaro. Tristeza por esse país.

  11. Nassif: por quê você insiste em bater no rabo da cobra? É notório o apoio dos VerdeSauvas, e agora dos AzulSauvas (aprendizes de conspiradores), aos atos do BandoDoCondmínio, a cujus crimes (e não parecem poucos) se soma o da vereadora e seu motorista. Você acha que as bravatas do MelianteCapitão (conforme o TogaSuja) será sequer cogitada pelos 6 do Delcídio? Você imagina essa Elite de merda contrariando quem lhe garante existência? Você consegue sequer desenhar o Centrão, sob a batuta do PartidoProstituta (X-9) e o pessoal de Mugi não aderindo ao botim? E veja, nem tô falando das hordas de “avivados” e dos pobres de direita. Com toda essa corja no apoio que mudanças você espera? Paz a Marielle, quando?

  12. Como invadiram uma casa legislativa lá nos EUA, espero que o mesmo ocorra por aqui com o respectivo “delay” Não será isso que o Bozonazzi quis antecipar?

  13. + comentários

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