Xadrez do cenário econômico, à luz do aumento do Covid-19 e da queda da indústria

As quedas de março e abril fragilizaram enormemente parte relevante da indústria – e da economia. Consumiram capital de giro, reservas financeiras, desmontaram forças de trabalho, criaram a inadimplência secular, reduziram a demanda globalmente.

Para traçar o cenário do atual, nosso Xadrez tem que ser dividido em algumas peças.

Peça 1 – o comportamento do covid-19 no Brasil e as perspectivas de curto prazo

Três gráficos dão uma boa noção do cenário da pandemia, com poucas perspectivas otimistas.

Gráfico 1 – a tendência das notificações de Covid-19, em plena ascensão. A curva logarítimica mostra que o pico da doença está longe de ser alcançado.

Gráfico 2 – a correlação entre aumento de notificações e de óbitos. No gráfico comparamos as duas linhas de média diária semanal, com uma distância de 8 dias. Ou seja, cada movimento da linha das notificações reflete-se 8 dias depois na linha de óbitos. Significa que um pico nas notificações, em poucos dias promoverá uma corrida aos hospitais e um aumento nos óbitos.

Gráfico 3 – o crescimento do número de óbitos per capita. Observa-se que há um crescimento substancial no crescimento diário. Pará (+5%), Ceará (5,4%) e Rio de Janeiro (+5,7%) são indicativos da aceleração dos casos.

Sobre esse cenário, tem que haver um acompanhamento estreito sobre a flexibilização do isolamento. Em alguns locais, como o Rio de Janeiro, poderá ser catastrófico.

Peça 2 – os dados da indústria até abril

A pesquisa da indústria, feita pelo IBGE, mostra as mais drásticas quedas mensais desde o início da série. E, aí, é necessário desagregar os dados, para um melhor retrato do que está acontecendo. Os dados gerais mostram uma queda de 18,8% em março e de 26,11% desde fevereiro. Essa queda foi amenizada pelo comportamento das Indústrias Extrativas – que têm baixo impacto na geração de emprego e na cadeia produtiva. Já a Indústria de Transformação – com muito maior impacto no nível de atividade, registrou queda de 22,99% em março e de 30,61% desde fevereiro.

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Uma análise desagregada da pesquisa mostra que os únicos setores que resistiram foram os de medicamentos, alimentos e produtos de limpeza. EM março, as quedas chegaram a 88,5% (indústria automobilística).

Peça 3 – as expectativas dos próximos meses

Há um problema sério de dissintonia nos comentários de mídia, que refletem muito mais as expectativas de curtíssimo prazo do mercado, e as ondas de alta e baixa, do que análises racionais. O discurso preponderante é que o pior já passou. O que significa isso? Que os próximos meses registrarão quedas menores.

Há uma clara dificuldade em diferenciar dados absolutos e relativos. Confira.

1.     Por hipótese a economia estava em 100 no primeiro momento; caiu para 50 no segundo e para 45 no terceiro.

2.     No primeiro movimento, a queda foi de 50%; no segundo, foi de 10%. Significa que a queda foi reduzida? Óbvio que não. Significa que no terceiro momento a empresa estava pior que no segundo momento.

As quedas de março e abril fragilizaram enormemente parte relevante da indústria – e da economia. Consumiram capital de giro, reservas financeiras, desmontaram forças de trabalho, criaram a inadimplência secular, reduziram a demanda globalmente.

Os próximos meses serão duríssimos por várias razões.

Não há previsibilidade para o recuo do Covid-19 e, por consequência, do isolamento.

Em muitos estados, a pressão das empresas e dos cidadãos, estimulados pelo discurso do Presidente, poderá forçar à flexibilização antecipada do isolamento, com consequências imprevisíveis.

Finalmente, a inoperância atroz de Paulo Guedes e equipe, incapazes de montar políticas minimamente eficazes de sustentação do consumo, do emprego e do capital de giro das pequenas e micro empresas.

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Todos esses elementos apontam para um agravamento da crise.

Peça 4 – o fator Bolsonaro

O único ponto previsível é o da absoluta imprevisibilidade de Bolsonaro. Ele não possui repertório para enfrentar o acúmulo de problemas que enfrenta pela frente. É tosco, desajeitado, não sabe como se relacionar com os demais poderes. Ameaça o Supremo, depois volta atrás, deixando a convicção de que, se pudesse, passaria com um trator por cima da casa. Adula o Procurador Geral da República com comendas e promessas vazias, submetendo-o a humilhações públicas.

Finalmente, é incapaz de montar um ministério minimamente eficiente. O vídeo da reunião ministerial serviu para acabar de vez com a esperança de haver pontos de racionalidade naquele hospício.

Nas próximas semanas, o STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fecharão duas pinças sobre o pescoço do bolsonarismo.

As únicas dúvidas são sobre o prazo em que se dará o desfecho, assim como a reação das milícias bolsonarianas.

 

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6 comentários

  1. Neste cenário, repito, dificil de entender, a não ser por obra e graça de mera especulação, a bolsa subindo (perspectivas futuras?), com uma economia escorrendo. Sem contar o dólar, em um patamar antes desmedido e agora rumo ao fundo.

  2. O pior é que os dados da indústria se referem ao primeiro trimestre, antes da explosão da pandemia. Porém, naquela época, uma epidemia de incompetência no ministério da economia já tinha provocado uma violenta onda mortal, que estava erradicado o mercado interno, portanto o consumo é a demanda.

  3. Segurar 2020 até o crepúsculo

    A ideia é, claramente, manter a criatura no Palácio do Planalto até o final deste ano. Enrolar até dezembro e forçar a substituição a partir de janeiro de 2021, para termos eleições indiretas. Sugiro combinar com os russos.

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